Jovem que teve mãos decepadas por cunhado diz temer perder a comunicação com a mãe surda
A jovem Ana Clara Oliveira, de 21 anos, tenta reconstruir a rotina após sobreviver a um ataque brutal em Quixeramobim, no interior do Ceará. Vítima de uma emboscada planejada pelo ex-namorado e executada pelo ex-cunhado, ela teve uma das mãos mutilada e a outra semidecepada, passando por uma cirurgia de reimplante, de alta complexidade, que durou cerca de 12 horas. Em recuperação, diz estar ansiosa pelo futuro, mas revela que seu maior medo é não conseguir mais se comunicar com a mãe, que é surda.
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Mesmo sem nunca ter aprendido Libras, a mãe de Ana desenvolveu com a filha uma forma única de comunicação, baseada em gestos que apenas as duas conseguem compreender.
— Não tem uma pessoa no mundo que ela entenda mais do que eu — disse Ana Clara em entrevista ao jornal Diário do Nordeste.
A mãe também é definida pela jovem como “sua maior força” e “seu combustível”.
— Na ambulância, eu pensei: “Meu Deus, eu nunca mais vou conseguir me comunicar com a minha mãe?”. Porque o meu maior medo era esse. Em nenhum momento eu senti medo de morrer. Óbvio que a gente tem medo de perder um membro, mas eu senti a presença de Deus tão forte que dizia para todo mundo: “Deus está comigo e eu não vou morrer” — afirmou ao Diário do Nordeste.
Hoje, Ana Clara consegue movimentar apenas os dedos, e a previsão para recuperar parte do controle das mãos varia de seis meses a um ano. Ainda assim, a evolução tem surpreendido familiares e médicos.
A melhora no quadro clínico também permitiu que ela superasse outro desafio: voltar a usar o celular. Muito ativa na internet, a jovem mantém um perfil em uma rede social com mais de 30 mil seguidores. Segundo o padrasto, José Airton Firmino, Ana agora utiliza o aparelho com os pés. Em uma das aparições nas redes, agradeceu as mensagens de carinho e compartilhou conteúdo sobre o próprio caso.
Apesar das dificuldades, Ana Clara afirma ser grata por estar viva e por se sentir bem. Ela também pede que a Justiça seja feita. Sobre os irmãos que a atacaram, diz sentir “muito ódio”.
— Independentemente da situação, que é muito grave, graças a Deus eu estou me sentindo bem. Em nenhum momento deixei isso me abalar, porque preciso ter força para continuar a caminhada — disse.
O caso
Segundo a investigação, Ana Clara e Ronivaldo Rocha dos Santos, de 40 anos, ex-namorado da vítima, tiveram uma discussão na noite de 1º de maio na residência onde moravam. Ambos haviam ingerido bebida alcoólica, e, com o agravamento do conflito, ela pediu que Ronivaldo deixasse o local. Antes de sair, ele teve o carro atingido por uma pedra arremessada pela jovem.
De acordo com o Ministério Público, Ronivaldo retornou pouco depois acompanhado do irmão, Evangelista qocha dos Santos, que portava uma foice. Ainda segundo a denúncia, o ex de Ana Clara passou a incentivar o irmão a matá-la.
Evangelista, então, desferiu golpes de foice contra a vítima, causando múltiplas lesões e decepando suas mãos. O ataque durou cerca de seis minutos. Ana Clara também sofreu cortes profundos em outras partes do corpo, como ombro, perna e cotovelo. Após o crime, os irmãos fugiram.
A jovem foi socorrida depois que vizinhos ouviram seus gritos pedindo socorro e acionaram a polícia e uma ambulância. Inicialmente, ela foi levada ao Hospital Regional do Sertão Central (HRSC), em Quixeramobim, mas precisou ser transferida para o Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, já que a unidade não realizava cirurgia de reimplante de membros.
Evangelista foi preso no dia seguinte, em uma casa em Quixeramobim. No local, foram apreendidos uma foice, roupas e um chinelo,com manchas de sangue. Ronivaldo foi localizado e detido na casa de familiares, no município de Madalena.
O Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE) aceitou a denúncia contra os irmãos por tentativa de feminicídio. Os dois se tornaram réus no processo, que tramita em segredo de Justiça.
