Jovem que morava na Vila Kennedy (RJ) consegue bolsa avaliada em R$ 1 milhão na Universidade de Yale (EUA)
O jovem carioca Thalles de Souza, de 23 anos, ex-morador da Vila Kennedy, em Bangu, foi aprovado com bolsa integral na Yale University, uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos. A ajuda financeira, avaliada em cerca de R$ 1 milhão, garantirá os próximos anos de estudo do brasileiro em Ciência Política e Economia.
A trajetória do estudante ganhou repercussão nas redes sociais após a divulgação de um vídeo emocionante em que ele aparece ao lado da mãe e da irmã no momento em que descobre a aprovação. Em entrevista ao CBN Rio, ele compartilha o impacto da aprovação e diz que sabia que a história da família do estudante "tinha mudado naqueles cinco segundos”.
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Thalles deixou o Rio de Janeiro em 2016, depois de viver episódios constantes de violência no bairro onde morava. De primeira, ele não entendeu a escolha da mãe. Segundo ele, a decisão de mudar para os Estados Unidos aconteceu após uma operação policial dentro de casa.
"Eu estava dormindo de manhã, e lembro que eu acordei com barulho de muitos tiros. E era a polícia dentro da minha casa, dando tiro em tudo que é lugar, na cozinha, na sala. Eles estavam indo atrás do meu tio e, quando eu acordei e levantei, lembro que consegui escutar o barulho das balas batendo assim, bem perto da minha cabeça. E foi um trauma muito grande. Minha mãe chegou logo depois, porém, era uma situação que já tinha acontecido mais de dez vezes. Era acordar, abrir a porta de casa, sair pra jogar bola e quase morrer. Então, minha mãe já não aguentava mais aquela situação. Ela, no secreto, tirou o nosso visto e logo depois a gente veio para os Estados Unidos muito rápido".
Sem conhecer ninguém no país e enfrentando dificuldades financeiras, toda a família se estabeleceu em Massachusetts. O estudante contou que chegou a viver em hotéis e quase ficou sem moradia até conseguir reconstruir a vida ao lado da mãe, do padrasto e dos irmãos.
"Moramos no hotel, fomos despejados do hotel, quase moramos na rua, conseguimos uma casa para morar, depois começamos a trabalhar. Eu entrei na escola, no caso aqui o ensino médio aqui nos Estados Unidos e trabalhamos, alugamos uma casa e daí fomos levantando, entendeu? Começamos a se levantar. Minha mãe, eu, meu padrasto, meus irmãos, tudo junto e daí a gente começou a conhecer a comunidade aqui ao redor de Massachusetts e tem sido dez anos".
Antes da aprovação em Yale, Thalles estudou por dois anos em uma faculdade comunitária gratuita no estado americano, onde se destacou academicamente. Ele foi representante de cerca de 260 mil estudantes de Massachusetts, presidiu a instituição onde estudava e participou de ações sociais voltadas para imigrantes e moradores da comunidade local. Thalles conta que havia 18 vagas para 1.600 concorrentes, e mesmo assim ele conseguiu a aprovação.
"Ano passado, em dezembro, eu apliquei para 22 faculdades e a que mais realmente me chamou atenção foi a Yale. Eu visitei ela em outubro e eles me mandaram um e-mail, tem duas semanas só, me avisando que eles me aceitaram com bolsa total de mais de R$ 1 milhão e tem sido muito incrível. E o mais incrível de tudo isso é que 1.600 alunos aplicaram para transferir, porque o meu caso é diferente. Brasileiros que aplicam do Brasil, eles aplicam para o primeiro ano. Eu já fiz dois anos, então agora só preciso fazer mais dois ou três anos. Então, é um pouquinho diferente o meu processo, porque eu já estudei em outra faculdade aqui. Mas, quando eu apliquei, 1.600 alunos aplicaram e de 1.600, 18 foram aceitas. Então, foi 2% de chance de ser aceito".
Durante a entrevista, Thalles também falou sobre o desejo de usar a própria trajetória para abrir caminhos para outros jovens brasileiros.
“Meu sonho é construir uma ponte entre o Brasil e os Estados Unidos para que jovens das favelas possam ter as mesmas oportunidades que eu tive”, disse.
O estudante pretende seguir carreira na área jurídica após concluir a graduação e sonha em estudar Direito também na universidade de Yale.
Ouça a entrevista completa:
