Jota.pê se diz realizado e mira no futuro: ‘Um dia vou ter coragem de convidar o Djavan para uma parceria’
Se o peito de Jota.pê fosse o mundo, talvez tudo fosse mesmo melhor. Em entrevista ao GLOBO por videochamada, na terça-feira, o cantor e compositor paulista vencedor de quatro Grammys Latinos (três por “Se meu peito fosse o mundo”, cujo show chega nesta sexta-feira (15) ao Vivo Rio, e um por “Dominguinho”, com João Gomes e Mestrinho) falou com franqueza e leveza sobre o atual momento da carreira — com três projetos simultâneos e uma agenda lotada.
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— Ainda estou tentando entender como equilibro tudo isso. Fomos adaptando os planos para eu conseguir dormir e ir ao banheiro também (risos) — conta o artista, antes de dizer que cuidar da cabeça é a parte mais difícil.
Com João Gomes e Mestrinho, ele se apresentou para um Allianz Parque lotado (cerca de 50 mil pessoas) no final de abril. O trio celebrou um ano de “Dominguinho”, projeto que recentemente ganhou uma segunda parte. A agenda deles segue lotada e já tem datas, inclusive, nos Estados Unidos, na Argentina e em Portugal. O artista também segue se apresentando com Duda Black, com quem mantém o duo ÀVUÀ — que também já foi indicado ao Grammy Latino e, atualmente, está na trilha da novela “A nobreza do amor”.
Depois de ver o número de fãs e ouvintes crescer exponencialmente nos últimos anos, Jota.pê se prepara para o maior show solo de sua vida no Rio — até aqui. Para celebrar “Se meu peito fosse o mundo”, ele recebe os amigos do trio Os Garotin e o grande ídolo Lenine. Para o futuro, o maior plano é seguir fazendo música. Dois próximos álbuns já estão no radar e, quem sabe, daqui a pouco ele ganha coragem para convidar Djavan para uma parceria... Veja, abaixo, os destaques da entrevista:
O GLOBO — Como está se sentindo no atual momento da sua carreira, conciliando tantos projetos de sucesso?
JOTA.PÊ — Estou muito feliz e vivendo um momento da carreira que eu não imaginava, porque é muita coisa boa ao mesmo tempo. Eu brinco que tenho três empregos: meu trabalho solo, o ÀVUÀ e o “Dominguinho”. Sei que é raro ter três projetos (simultâneos) que andem muito bem. Também me sinto cansado, e estou tentando entender como equilibro tudo isso ao mesmo tempo. Tenho a sorte de ter muitas boas pessoas à minha volta, o que ajuda muito.
Juntos, por exemplo, entendemos que não daria para manter a ideia inicial de gravar e lançar um disco solo esse ano e gravar um disco do ÀVUÀ. Então decidimos começar a gravar um disco solo, mas para lançar só ano que vem, além de colocar o disco do ÀVUÀ para depois, para poder lançar o do “Dominguinho e cuidar dele. Seguimos com os shows dos três projetos, mas fomos adaptando os planos para fazer tudo dar certo e eu também conseguir dormir e ir ao banheiro (risos).
Como faz para cuidar da cabeça?
Isso tem sido o mais difícil porque todas as coisas cresceram muito e, junto, vêm as responsabilidades de vida pessoal, família... eu achei que dava conta de tudo sozinho, não dou. Então, finalmente vou começar a fazer terapia para me cuidar, porque é realmente é muita coisa ao mesmo tempo. É muito louco parar de ter tempo para ver os pais, os amigos, beijar na boca. Isso dá uma pesada... Às vezes você está mal, mas tem um show para fazer, 150 fotos para tirar e duas entrevistas. Estou aprendendo a lidar com tudo isso porque são os ônus do meu sonho. Fazer o que amo e ser bem-sucedido envolve isso também.
“Se meu peito fosse o mundo” é um marco na sua carreira. Quando você entendeu que ele era especial? Tinha ideia da dimensão que ele ia ganhar?
Eu já sabia que ele era especial porque acredito que, para uma carreira artística funcionar, os projetos têm que ser especiais para mim primeiro. Fomos com a banda inteira para uma fazenda que é um estúdio. Ficamos juntos mais de uma semana, dormindo, conversando, rindo, gravando e regravando. Fizemos com tempo e carinho. E finalmente pude pagar todo mundo que estava trabalhando com os valores que eles de fato mereciam receber. Isso foi muito especial. Acho que ele vai ser sempre o disco mais especial da minha vida justamente por isso: foi o primeiro que eu pude fazer do jeito que sempre sonhei.
O que os três Grammys Latinos conquistados com esse trabalho representaram para você?
Eles foram uma consequência. Esses prêmios me deram a certeza de que fazer música do jeito que eu acredito realmente gera frutos. Eu era o menos conhecido nas três categorias que estava concorrendo, e ganhei todas. Isso foi muito importante porque validou a minha dedicação e atenção para a arte.
E o Grammy Latino do “Dominguinho”?
Esse veio num outro lugar, porque o disco foi feito de outra maneira. Foi totalmente um lance de junção de amigos para fazer um som. A gente tinha quatro músicas combinadas, de repente a gente fez 12 e sem ensaio nenhum. Eu e Mestrinho nem sabíamos cantar as músicas direito. A gente aprendeu na hora, só que nos divertindo, e foi isso que me fez ser músico. O Grammy do “Dominguinho” me lembra isso, que ainda vale se divertir no palco, curtir o que a gente está fazendo. De vez em quando é bom gravar uma música só porque você gosta dela, sem ter uma explicação técnica, ou sem que ela tenha mil acordes, sabe?
Como é a sua troca com as pessoas e a relação delas com o seu repertório?
É muito bacana essa troca porque fiquei muito mais conhecido do Grammy até aqui. Então, tem sido muito gostoso ver o encontro dessas pessoas (os novos fãs) com esse repertório que para elas é novo. Também é muito louco ver gente que sou fã curtindo o meu trabalho. Outro dia a Taís Araujo me perguntou para quem eu escrevi “Preta Rainha”. “Ouro marrom” foi incluída no plano educacional de uma escola do Ceará, para alunos do sétimo e do oitavo anos. Saber que a minha música está chegando em crianças e adolescentes me deixa muito feliz, porque faço elas pelos meus sentimentos, e não pensando no que elas vão alcançar. Estar em escolas, para mim, é o auge.
O Lenine é uma das suas grandes referências. Como foi esse convite para a participação no show do Rio?
Eu só toco violão do jeito que toco porque o Lenine existe. Morri de medo de fazer esse convite, mas foi muito “massa”, porque ele aceitou na hora e ainda pediu para cantar uma música minha, “Caminhos”, que ele disse que ama. Foi muito foda vê-lo empolgado de tocar e cantar uma música minha, e saber que ele já sabe a letra.
Falando em ídolos, você viralizou, em setembro, quando participou de um encontro com Caetano Veloso, Roberto Carlos, Martinho da Vila, Djavan e Marisa Monte. No X, você comentou que ficou muito tímido. O que lembra daquela noite?
Nesse dia eu estava de fato muito tímido. Teve uma hora que o Caetano quis sentar do meu lado para falar comigo, fiquei morrendo de nervoso. Ele olhou para mim, eu olhei de volta e logo virei a cara para frente, com muita vergonha. Não consegui falar nada, nem olhar para ele, que acabou conversando com Djavan. Tempos depois, no Prêmio Multishow, a Paula (Lavigne) me falou assim: "Jota, você sabe que o Caetano acha que você cagou para ele, né? Ele acha que você só gosta do Djavan". Levantei na hora e fui até ele me desculpar. Ele riu muito. No final das contas já fui umas duas, três vezes na casa deles, conversamos para caramba, toquei violão. Ele até brincou comigo uma hora em que eu já estava mais à vontade, falando muito, fazendo piada. Ele falou: "É, agora você está falante, né?" (risos). Foi engraçada essa situação.
E o Djavan já falou que você é uma pessoa que ele tem vontade de gravar. Quando vai sair essa parceria?
Um dia eu vou ter coragem de convidá-lo. Mas é que é louco. Basicamente eu só sou músico porque Djavan, Gilberto Gil, Lenine e Caetano Veloso existem. Então, ao mesmo tempo que eu morro de vontade de convidar o Djavan, eu morro de medo de ele aceitar, sabe? Aí eu vou ter que fazer ele gostar da música... (risos). Mas espero que algum dia role.
O que te instiga, quando pensa no futuro?
Eu tenho uma sorte de o meu maior sonho atual ser seguir fazendo o que eu faço. Eu amo subir no palco e compor. Toda vez que eu componho uma música muito boa, fico achando que é a última (risos). Tenho muito desejo de continuar podendo subir no palco e sabendo que as minhas grandes referências olham para o meu trabalho e respeitam ele. Isso, para mim, é saber que estou no caminho certo. Quero continuar cada vez pagando melhor a galera que trabalha comigo e vendo a banda sorrindo enquanto está tocando comigo. Eu gosto muito das pessoas que trabalham comigo e quero que elas estejam felizes fazendo o que fazem. Só quero isso. Só quero seguir fazendo o que eu faço.
