Jornalista lança livro de crônicas redigidas à mão em clínica de reabilitação: 'Escrevi para continuar vivo'
O pedido de socorro de um náufrago na ilha do próprio vício ou o descarte imaginário das embalagens que contêm o motivo de sua perdição? O título “Garrafas ao mar” (Editora Máquina de Livros, 144 páginas, R$ 68 impresso e R$ 39 e-book) tem dupla interpretação, confirma João Paulo Arruda, autor do livro que tem noite de lançamento e de autógrafos nesta quinta-feira (28), a partir das 19h, na Livraria da Travessa Ipanema (Avenida Visconde de Pirajá 572).
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“Diário de um repórter internado para tratamento do alcoolismo”, a obra traz crônicas escritas à mão pelo jornalista durante seus 110 dias de internação numa clínica de reabilitação no Rio de Janeiro, no segundo semestre do ano passado.
— Com as mãos ainda trêmulas pela abstinência, comecei a escrever os textos de próprio punho, um por dia. E os lia todo sábado pra minha namorada, Sheila, nas visitas que ela me fazia. Quando percebi que já tinha uns oito, dez textos, só aí pensei que poderia dar um livro — conta Arruda, dizendo que o processo da escrita foi “desafiador e, ao mesmo tempo, maravilhoso”: — Eu colocava as ideias no papel pautado, sem pressa. Levava uns 40 minutos escrevendo um texto. Dava tempo de refletir, porque não existia a tecla “delete” para voltar atrás (o uso do computador é vetado pela clínica).
Nas crônicas, Arruda narra a sua rotina de interno e as histórias surgidas a partir da convivência com outros pacientes — também dependentes de álcool ou de outros tipos de drogas, de sexo e/ou de jogos.
— A gente se adapta rapidamente ao ambiente ao perceber que também está doente. No início, eu negava, mas sabia que não era normal acordar tremendo e precisar tomar três doses pra me restabelecer. Às vezes, eu bebia deitado na rede de casa e, com medo de me levantar para ir ao banheiro, levava a garrafa junto — relembra ele, que relata ter começado a ingerir álcool ainda na adolescência, mas viu a situação ficar crítica em 2024, aos 48 anos.
O jornalista diz estar “limpo” há pouco mais de nove meses:
— Nunca dei escândalo, mas fiquei conhecido como “o bêbado do bairro”. Enfrentei a falta de empatia da vizinhança. Na irmandade da clínica, encontrei apoio. Continuo frequentando os encontros, porque essa doença não tem cura.
Arruda diz, no entanto, que não tem a intenção de aconselhar com sua obra:
— Essa é a minha história, o meu caminho. Não escrevi um livro para ajudar ninguém, mas para continuar vivo.
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