John Malkovich: 'O fracasso é o meu companheiro e a minha inspiração mais constante'

 

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John Malkovich fala devagar. O ator, diretor, produtor, estilista (sim, estilista) parece escolher cuidadosamente cada palavra que diz, especialmente quando o assunto é política, um dos temas da performance “The infamous Ramírez Hoffman”, que o astro traz para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 29 deste mês e para a Sala São Paulo, no dia 31.

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Trata-se de um espetáculo minimalista, sem cenário, no qual Malkovich entra em cena como ele mesmo, apenas para narrar a história do intelectual conservador (e imaginário) Ramírez Hoffman. Entre um trecho e outro, um trio musical executa, ao vivo, faixas que vão de Piazzola a The Doors.

O texto da performance é inspirado no último capítulo do livro “A literatura nazista na América”, de Roberto Bolaño (1953-2003), publicado no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras. É o terceiro livro do autor chileno que foi uma das vozes mais contundentes contra a extrema direita daquele país.

Ou seja, o espetáculo é política na veia, não é, Malkovich?

— Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que eu odeio política e políticos. Não acredito em políticos — diz o ator ao GLOBO, em entrevista por vídeo na semana passada.

Ao estabelecer sua posição antipolítica, Malkovich tanta criar um antídoto contra a percepção de algum viés ideológico no espetáculo. E prepara o terreno do público para as ironias que o texto adaptado da obra de Bolaño direciona a todas as cores do espectro político.

— Ao ler o texto de “A literatura...”, é muito claro para mim que Bolaño está criticando os amigos que ele tinha na esquerda e não os inimigos da direita. E de maneira bem mordaz... Acho que essa é a melhor palavra para definir a literatura dele.

A percepção do ator se alinha ao que o próprio Bolaño pensava sobre sua obra. Numa entrevista publicada num outro livro, “Roberto Bolaño: the last interview and other conversations” (Editora Melville House, 2009, sem edição brasileira), o autor diz, com todas as letras: “O foco (do livro) é o universo da ultradireita, mas na maior parte do tempo estou falando da esquerda. Quando descrevo os escritores nazistas nas Américas, falo do mundo às vezes heroico, mas muito mais frequentemente desprezível, da literatura em geral.”

Malkovich tem 72 anos. É casado desde 1989 com Nicoletta Peyran, que conheceu nas filmagens do longa “O céu que nos protege” (1990), no qual ela trabalhou como assistente de direção do italiano Bernardo Bertolucci (1941 - 2018). No currículo, o ator contabiliza dois filhos com Nicoletta, mais de 90 filmes (incluindo o célebre “Quero ser John Malkovich”, 2000), duas indicações ao Oscar (“Um lugar no coração”, em 1984, e “Na linha de fogo”, 1993), a criação da grife de roupas Mrs. Mudd (sim, estilista) e dezenas de projetos para o teatro.

Malkovich (ao centro), com o violinista ucraniano Andrej Bielo, a pianista russa Anastasya Terenkova e o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo

MAGYAR ZENE HÁZA

Nos palcos, o eterno Valmont da versão cinematográfica mais pop de “Ligações perigosas” (1988) também dirigiu óperas (“gosto da precisão da ópera”, diz), além de estrelar e comandar montagens que misturam literatura, música e teatro, como “The infamous Ramírez Hoffman”.

Acompanhado pelo trio composto pelo violinista ucraniano Andrej Bielo, o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo e a pianista russa Anastasya Terenkova, idealizadora do projeto, Malkovich é só felicidade:

— Eu tenho apenas um talento na vida: sei escolher colegas de trabalho que são muito mais espertos e talentosos do que eu. Anastasya estudou teatro, é filha de um cientista social russo, conhece o poder de uma narrativa e é teimosa ao defender suas ideias.

No repertório do trio, tangos, música pop e música clássica, criando uma playlist digna dos apreciadores mais ecléticos. Falando em playlists, o que devemos ouvir se quisermos “ser John Malkovich”?

— Todo tipo de música. Pode ser o “Quarteto para piano de Schubert”, o monólogo do Damien Rice em “The blower’s daughter” ou Ana Carolina. Eu ouço a música que me toca — filosofa.

O leque aberto do gosto musical de Malkovich reflete parte das suas escolhas artísticas, que transcendem fronteiras linguísticas. Além de ter atuado em francês no longa “Sr. Blake, ao seu dispor”, do diretor Gilles Legardinier (2023), o ator já comandou espetáculos em idiomas que nem conhece bem.

— Dirigi “Leopoldstadt” em letão, uma língua da qual só conheço uma única palavra. Talvez duas — lembra o ator, citando a obra do dramaturgo Tom Stoppard (1937-2025) encenada por ele em 2023 no Dailes Theatre, em Riga, capital da Letônia.

No Brasil, as legendas de “The infamous Ramírez Hoffman” serão assinadas pelo tradutor Victor Abdala. Mas será que a língua será uma barreira para curtir a performance?

— É um desafio. Ao mesmo tempo, a língua pode ser totalmente desimportante porque existem coisas universalmente verdadeiras que vão além de um idioma — argumenta o ator.

A primeira passagem de John Malkovich pelo Brasil foi em 2011, quando trouxe o espetáculo “The infernal comedy”, no qual interpreta um serial killer. Um universo intrigante, mas bem diferente do texto de Bolaño, com potencial de estabelecer uma conexão quase instantânea com as plateias de Brasil, Chile e Argentina, por onde “The infamous...” vai passar.

Expectativas?

— Não gosto muito da palavra “expectativa”. Prefiro dizer que tenho interesse. E tenho muito interesse em ver qual será a reação ao texto nos países latino-americanos que vamos visitar. A América do Sul sabe bem o que é a instabilidade política — diz.

Mas o interesse é fazer sucesso por aqui?

— O fracasso é o meu companheiro e a minha inspiração mais constante (pausa dramática). Só considerarei um espetáculo um sucesso no dia em que a plateia trancar as portas do teatro e nos obrigar a fazê-lo inteiro outra vez. Nos meus 72 anos de vida, tal coisa jamais aconteceu — brinca.

O.k., John, fica o recado para o público.

— Que assim seja! (risos)