'Jogo Político': Flávio Bolsonaro em busca de um 'Posto Ipiranga' como Paulo Guedes foi para o pai

 

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O senador Flávio Bolsonaro (PL) passou o fim do ano visitando figurões do mercado financeiro, entre eles André Esteves, dono do BTG Pactual. Nos encontros, se comprometeu a anunciar até abril um nome do quilate do ex-ministro da Economia Paulo Guedes para ser o seu “Posto Ipiranga” — expressão eternizada por seu pai, Jair Bolsonaro, na campanha presidencial de 2018, quando designou o aliado para responder tudo por ele na área econômica inspirado em um comercial de TV da rede de postos de gasolina.

Os gestos têm uma razão objetiva: a Faria Lima se mostrou órfã da candidatura ao Planalto do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e é preciso seduzi-la para que não caia no colo de concorrentes. Em dezembro, vale lembrar, a bolsa de valores caiu e o dólar disparou após o anúncio do filho do ex-presidente.

Por ora, as duas grandes estrelas econômicas da Era Bolsonaro não demonstram interesse em voltar para o jogo. Flávio procurou Paulo Guedes em dezembro, mas o ex-ministro reafirmou o desejo de seguir longe da vida pública. Embora já tenha negado publicamente, o ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto estava muito mais entusiasmado para virar um homem forte de um futuro governo Tarcísio do que de uma administração de continuidade do clã Bolsonaro.

Há dois nomes na manga de Flávio, de impacto muito menor que Guedes e Campos Neto: Gustavo Montezano, ex-presidente do BNDES, com passagens pelo Opportunity e o próprio BTG Pactual de Esteves; e o economista Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica de Guedes e ex-ministro de Minas e Energia de Bolsonaro.

Em seu perfil no X, Saschida vem ganhando relevância diante de milhares de seguidores ao atacar frequentemente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. No último dia 2, a defesa de Bolsonaro solicitou que o ex-secretário de Guedes passe a integrar a defesa do ex-presidente. Se autorizado pelo próprio Moraes, Sachida poderá visitar Bolsonaro na Polícia Federal como outros advogados.

Nas conversas com o mercado desde dezembro e em entrevistas para a imprensa e podcasts de direita, Flávio tem feito o clássico discurso liberal de ano de campanha: genérico na maioria das vezes e específico quando convém. O senador vem defendendo a privatização dos Correios, estatal hoje no vermelho com bilhões de reais de prejuízo e que o seu pai tentou (sem sucesso) vender para a iniciativa privada. Quando fala da Petrobras, as metas são menos claras. Em entrevista para o influenciador Paulo Figueiredo esta semana, em que sinalizou a possibilidade do irmão Eduardo ser ministro das Relações Exteriores, Flávio explicou o que pensa sobre a estatal:

— Tem a parte de extração, tem a parte de pesquisa, tem a parte de distribuição, tem a parte de refino. Então ela é um grande conglomerado de empresas que a gente tem que ver o que funciona e tem que continuar, e o que não funciona e pode ser privatizado.

Assim como o pai em 2018, Flávio tem falado em enxugamento de gastos, mas sem se comprometer com dois temas impopulares sempre citados como cruciais pela turma do mercado financeiro para um ajuste fiscal robusto: a desvinculação dos benefícios da Previdência com o salário mínimo e o fim dos pisos constitucionais de repasses de recursos para as áreas da saúde e educação.

O senador está em modo campanha desde o fim de 2025. Em novembro, tentando fugir da pecha de “candidato das elites”, votou favorável à proposta de Lula de ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. No mês seguinte, no Programa do Ratinho, no SBT, sugeriu que os beneficiários do Bolsa Família continuem a receber o auxílio por dois anos após conseguirem um emprego, além de um adicional de R$ 200 para estimular a inserção no mercado.

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“1960: Quando as estrelas ficaram vermelhas”

Sou da geração de amantes do futebol que cresceu vendo a ESPN de José Trajano, ex-diretor de redação do canal que lançou um livro sobre o ano em que o América saiu da fila e venceu o seu último Campeonato Carioca. A obra mistura as memórias do jornalista do seu clube de coração e da Tijuca, bairro onde morava em 1960, ano do título. Então com 13 anos, Trajano foi a muitos jogos da histórica campanha alvirrubra — me fazendo lembrar o ano de 1997, quando eu, também com 13 anos e morando na Tijuca, estive em várias partidas do Vasco na conquista do Brasileirão (incluindo a grande final contra o Palmeiras no Maracanã).

Ex-estudante do São Bento, Trajano lembra ao longo de pouco mais de 200 páginas suas idas ao estádio do América na rua Campos Sales, com capacidade de 8 mil pessoas, e um delicioso ritual: comer cachorro quente e biscoito de polvilho acompanhado do bom e velho Mate Leão. Era um tempo em que o torcedor ainda não tinha acesso às imagens dos jogos. A televisão engatinhava e restava ouvir o rádio quando não se conseguia ir ao estádio. Trajano recorda da Copa de 1958: o pai e os vizinhos "chorando feito crianças" o primeiro título mundial do Brasil: "O curioso é que, mesmo sem ver nenhuma imagem da partida contra a Suécia, ficavam imaginando as jogadas, os gols e até a volta olímpica, baseados nas narrações emocionadas que chegavam. Um descrevia para o outro como achava que teria acontecido".

O América foi campeão de um torneio dificílimo, de pontos corridos, em uma época que o calendário do futebol privilegiava o estadual. Naqueles anos, o time da Tijuca tinha uma torcida de tamanho equivalente a do Botafogo, lembra Trajano citando pesquisas da época. Aprendi com "1960: Quando as estrelas ficaram vermelhas" a origem de uma expressão muito famosa: "A tabela dos campeonatos cariocas era organizada de modo que os clubes se enfrentassem quase sempre no mesmo dia em todas as categorias. Daí surgiu a expressão barba, cabelo e bigode (ou seja, quando o time vencia a disputa entre os juvenis, aspirantes e time profissional)".

Duas citações saborosas do livro para fechar. Uma sobre a Tijuca, de Aldir Blanc: "O tijucano não tem salvação. Pode fingir, pode fugir, mudar, inventar, mas será sempre tijucano. Mesmo que o corpo disfarce, a alma, como o filho pródigo, voltará sempre à Tijuca". A outra, de Marques Rebelo, pseudônimo literário de Eddy Dias da Cruz, cronista relevante de meados do século: "Futebol não é diversão. É sofrimento".