Aos 46 anos, Ronaldinho Gaúcho voltará a vestir uma camisa de clube profissional.
A apresentação do brasileiro como a mais nova contratação do Ravenna, clube do norte da Itália, nesta sexta-feira, em uma festa na praia de Marina di Ravenna, atraiu, entre torcedores e curiosos, mais de 6 mil pessoas à pequena cidade, localizada na região da Emília-Romanha, conhecida por ter pontos turísticos como a Basílica de Sant'Apollinare, o Mausoléu de Gala Placídia e o túmulo do poeta Dante Alighieri.
O papel de Ronaldinho nesta nova incursão pelo Velho Continente não é exatamente claro.
Segundo as declarações de Ignazio Cipriani, presidente e líder do projeto que pretende colocar o Ravenna no topo do futebol italiano, o Bruxo chega primariamente para ser sócio-acionista, o que iria muito além da mera premissa de retornar aos gramados para disputar, pelo menos, uma partida oficial e tentar marcar o que seria seu 300º gol na carreira.
A operação, anunciada em junho deste ano e concretizada oficialmente nesta semana, nasce cercada de dúvidas sobre o prometido retorno aos gramados do ex-atacante, que encerrou sua trajetória profissional há mais de uma década.
A data da reestreia, porém, ainda não foi definida.
O brasileiro não estará em campo na estreia do Ravenna na Serie C, contra a rival Reggiana.
A nova empreitada de R10 no futebol italiano ocorre 15 anos depois de sua abrupta saída da liga para o Flamengo, em janeiro de 2011, após duas temporadas e meia no Milan.
Entre altos e baixos, o craque deixou o futebol europeu com o título do Calcio de 2010/11 no currículo e o respeito da torcida rossonera.
A possibilidade de R10 marcar o gol de número 300 é tida como a parte mais simbólica da operação.
O maior interessado na efeméride é Cipriani, que cita a possibilidade do feito como fator decisivo para o fechamento do negócio.
Ao diário local Il Resto del Carlino, o empresário afirmou que Ronaldinho entrará em campo para tentar alcançar a marca histórica.
O próprio jogador adotou um tom mais cauteloso, mas otimista:
— Graças a Deus vivi momentos ótimos no futebol deste país.
Agora, voltar a campo aqui e marcar gols? Seria fantástico.
Se acontecer, minha experiência em Ravenna ficará ainda mais bonita.
Estou aqui para levar entusiasmo aos meus companheiros e dar um espetáculo.
Esperamos que as coisas corram bem para o time.
Ronaldinho desembarca na Itália para sua apresentação como jogador do Ravenna
Divulgação / Ravenna
Ronaldinho deixou a decisão sobre uma eventual escalação nas mãos do técnico Andrea Mandorlini.
O brasileiro afirmou ainda estar em boas condições físicas e disse que sua intenção é ajudar os companheiros e, se possível, vencer.
Conheça o Ravenna, novo clube de Ronaldinho
Fundado em 1913, o Ravenna é um clube de história centenária, mas modesta, no futebol italiano, disputando tradicionalmente as divisões inferiores do país.
Na década passada, o clube enfrentou um processo de falência e foi figura central no escândalo de apostas Scommessopoli, em 2011.
Após anos de crise profunda, a equipe giallorossi foi adquirida por Ignazio Cipriani em 2024, quando estava na Série D.
Nascido na própria cidade de Ravenna, em 1988, Ignazio Cipriani cresceu longe da Europa, passando a maior parte de sua vida em Nova York, nos Estados Unidos.
Ronaldinho acena para os torcedores durante a apresentação no Ravenna FC, em Marina di Ravenna, na Itália
Stefano RELLANDINI / AFP
Herdeiro de duas poderosas e influentes famílias, os Gardini, por parte de mãe, e os Cipriani, é neto de Giuseppe Cipriani, fundador do famoso restaurante Harry's Bar, em Veneza, e patriarca do que se tornaria uma dinastia no meio da hotelaria e dos restaurantes de luxo.
Seu pai, Giuseppe Jr., recentemente esteve envolvido em uma série de escândalos, que vão desde problemas fiscais até menções frequentes a seu nome nos arquivos de Jeffrey Epstein.
Poucos meses após assumir o controle da instituição, Ignazio repassou 50% do clube para o fundo Black Duck, gerido por Michele Attisani e Niccolò Maisto, ligados ao mercado de tecnologia.
Desde então, o projeto ganhou nomes conhecidos do futebol italiano, como Ariedo Braida, histórico dirigente do Milan, que assumiu a vice-presidência.
Desde a compra do clube por parte do magnata, o Ravenna conseguiu o acesso imediato para a Série C e, em 2025, chegou até os playoffs, mas acabou eliminado pela Salernitana.
Ronaldinho, assim, seria o rosto de uma estratégia maior de Cipriani para conquistar os corações dos torcedores locais e atrair a atenção do público.
A contratação do brasileiro acelerou a exposição internacional do clube e transformou uma equipe que estava na quarta divisão italiana em assunto da imprensa esportiva de diferentes países.
O impacto já aparece na cidade.
Segundo a Gazzetta dello Sport, mais de mil torcedores renovaram seus ingressos para a temporada e mais de 3 mil camisas de Ronaldinho foram vendidas.
A empolgação dos moradores da região da Emília-Romanha com a chegada do Bruxo à comuna foi classificada como “Ronaldinhomania” pela imprensa local.
Nem tudo são flores no conto de fadas de Ronaldinho na Itália: o Estádio Bruno Benelli, casa do Ravenna, está em obras, tem capacidade reduzida e setores interditados.
Paralelamente, Cipriani fala na construção de um novo estádio, com hotel, e mantém o discurso de levar o Ravenna às divisões superiores.
A festa pelo ídolo brasileiro também foi acompanhada por uma apresentação da nova camisa em Miami, desenvolvida sob direção artística de Giorgio Mallone, com versões especiais assinadas pelo artista Slawn, além de uma parceria técnica de quatro anos com a Nike.
Vale observar que esta não é a primeira investida de Ronaldinho Gaúcho como investidor em um clube de futebol: em outubro de 2024, o Greenville Triumph, dos Estados Unidos, anunciou a entrada do ex-jogador no quadro societário da franquia, que disputa a USL, liga alternativa à tradicional Major League Soccer (MLS).
Ao consultar a seção de informações sobre os donos da equipe no site oficial do Greenville, R10 não é citado nominalmente, mas sim o Grupo Ronaldinho, empresa presidida por Juan Manoel Robles, Roberto Assis Moreira, o Assis, irmão de Ronaldinho, e Wallace Chaves, CEO do próprio Greenville Triumph.
Apesar de não ter feito declarações públicas sobre o negócio após o anúncio, Ronaldinho apareceu no estádio do Triumph em novembro de 2025, atraindo uma pequena multidão de brasileiros residentes na Carolina do Sul.
* Jornalista participante do curso Jornalismo do Futuro, sob supervisão de Felipe Siqueira
Jogador, acionista, embaixador: o que motivou a volta de Ronaldinho Gaúcho ao futebol, pelo Ravenna-ITA
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