'João e Maria': um clássico revigorado por mestres contemporâneos
Depois de um longo intervalo esse blog volta à ativa aproveitando a efeméride do 2 de abril, consagrado como Dia Internacional do Livro Infantil por marcar o nascimento de um dos maiores autores dedicados aos pequenos leitores, o dinamarquês Hans Christian Andersen. O livro da retomada não foi escrito por Andersen, autor de pérolas como “O patinho feio”, “O soldadinho de chumbo” ou “A pequena sereia”, mas é igualmente um clássico dos contos de fada. A afirmação mais correta, na verdade, seria dizer que a obra reúne três clássicos separados no tempo, já que a história é “João e Maria”, dos Irmãos Grimm, mas que chega em versão inédita recontada por Stephen King e ilustrada por Maurice Sendak (1928-2012), lançada pela Companhia das Letrinhas.
A união dos três não é mero acaso. King é mestre absoluto da literatura de terror, com best-sellers como “O iluminado”, “Carrie”, “It: A coisa” (todos levados ao cinema, entre outros títulos); Sendak, um ilustrador e escritor premiadíssimo, é sempre lembrado pelo livro que encanta gerações desde 1963, quando foi lançado: o delicioso “Onde vivem os monstros”, uma fábula preciosa sobre liberdade e responsabilidade, também devidamente levado às telas. Suas obras, como escreve King na apresentação de “João e Maria”, trazem uma “superfície ensolarada e um interior sombrio”.
Capa do livro "João e Maria", de Stephen King e Maurice Sendak
Divulgação/Companhia das Letrinhas
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Mas o que terror e sombras têm a ver com contos de fadas? Tudo! Como bem sabem aqueles que já leram ou ouviram falar da origem dos chamados contos maravilhosos, as histórias populares recolhidas em vilarejos por pesquisadores como os irmãos alemães Wilhelm e Jacob Grimm, que publicaram sua primeira coletânea, da qual “João e Maria” faz parte, em 1812. Em tempos assolados por fome, doenças e outras tragédias que acabavam sendo explicadas não pela razão ou ciência, mas pelo medo do desconhecido e pela crença em criaturas fantásticas de outros mundos, narrativas de pais abandonando filhos à míngua, trocando filhas por riquezas ou cometendo castigos terríveis são mais comuns do que o tradicional “Era uma vez...” E ainda que em muitas delas haja um “e foram felizes para sempre”, traições, mesquinharia, assassinatos e flagelos múltiplos cometidos ou sofridos por maridos, esposas, filhos e pais estão por ali para nos lembrar dos horrores humanos...
Com o passar dos anos, as narrativas foram sendo reescritas para se adequar tanto às crianças - e é bom recordar que o conceito de infância se consolidou basicamente após a Revolução Francesa, no século XVII - como aos costumes da sociedade letrada, e conservadora, que consumia livros. Os Grimm foram "ajustando” boa parte dos contos após as primeiras edições (o segundo volume saiu em 1815). No original, por exemplo, não é uma madrasta megera, e sim a própria mãe de João e Maria que arquiteta a ideia de mandar os filhos sumirem na floresta. Rapunzel, protagonista de outra história compilada pelos irmãos, ficava grávida do príncipe após as visitas secretas dele à torre. Santo sacrilégio para uma jovem solteira. Nas versões seguintes, a menção sutil às roupas “que não cabiam” mais na moça de longas tranças sumiu. E a era Disney se encarregou de enterrar definitivamente os desvios com toneladas de açúcar e “foram felizes para sempre”.
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Ilustração de Maurice Sendak para "João e Maria", de Stephen King
Divulgação/Companhia das Letrinhas
Mas voltemos ao recém-lançado “João e Maria”. O projeto surgiu anos após a morte de Maurice Sendak, com um convite a Stephen King para escrever um novo texto a partir das imagens que o ilustrador havia feito para uma adaptação teatral do conto na década de 1990. Fã da arte e da literatura sendakiana, o escritor topou, atraído principalmente por duas ilustrações, como ele revela na introdução: a bruxa na vassoura carregando um saco de crianças sequestradas, e a casa feita de doces que vão derretendo e dando lugar a um rosto deformado. “Eu pensei: a casa era assim de verdade, um demônio doente de pecado, que só mostra a cara quando as crianças viram de costas. Eu queria escrever isso!”, lembra King.
Calma, pais. A obra, indicada para crianças a partir dos 6 anos, não provoca pesadelos como os que João tem antes de ser mandado para a floresta: enquanto Maria sonha com anjos protetores, o menino tem visões da bruxa sequestradora de crianças que encontraria mais tarde. A arte de King, porém, ajuda a elevar a tensão da arte de Sendak e do próprio conto original, reforçando e sublinhando os medos e o desespero das crianças. “É o nosso fim! Vamos morrer na floresta, os lobos e ursos vão fazer picadinho de nós!”, diz Maria ao irmão ao saber dos planos terríveis para eles.
Ilustração de Maurice Sendak para "João e Maria", de Stephen King
Divulgação/Companhia das Letrinhas
Os desenhos de Sendak, como bem observou King, mesclam o sombrio e o ensolarado, ora pendendo mais para um lado, ora para o outro. Reparando bem, o leitor vai até encontrar olhos, rostos e formas misteriosas perdidas pelas páginas. Ou será que não?
A dupla de autores americanos consegue trazer frescor à história já tão conhecida e iluminar a engenhosa jornada pela sobrevivência empreendida pelos irmãos, unidos pela coragem, cumplicidade e amor. É uma pequena obra-prima, daquelas para guardar na estante e alimentar a leitura das próximas gerações.
Serviço: "João e Maria", de Stephen King. Ilustrações: Maurice Sendak. Tradução: Regiane Winarski. Editora: Companhia das Letrinhas. Páginas: 48. Preço: R$ 79,90.
