João Carlos Martins e robô maestro humanoide conduzem orquestra na Paulista no domingo, 29
Discussão constante toda vez que a ciência alcança um novo salto tecnológico, o debate "Homem x Máquina" está mais presente do que nunca no meio artístico com a popularização de inteligências artificiais generativas. Neste domingo, 29, a Avenida Paulista será palco de um evento que colocará a Bachiana Filarmônica do SESI-SP para ser conduzida pelo maestro João Carlos Martins, 85, e por um robô humanoide capaz de aprender com o movimento humano. A experiência visa mostrar o avanço da tecnologia da IA e, ao mesmo tempo, explicitar a importância da humanidade na produção artística.
Com início marcado para às 14h na área externa do centro Cultural Fiesp, o evento será aberto pelo robô do modelo Unitree G1 conduzindo a Bachiana na primeira parte do primeiro movimento de Eine Kleine Nachtmusik, de Mozart. Após o fim do movimento, João Carlos Martins assumirá a posição de condutor para dar continuidade à peça.
"A música é feita através de tradição e inovação", disse o maestro em entrevista ao Estadão. "A inteligência artificial, baseada na tecnologia, está ajudado muito, principalmente no campo da informação, de novas descobertas científicas e no campo da saúde. Agora, quando nós chegamos nas artes, a história é diferente."
Para Martins, o robô, que aprendeu a conduzir imitando os movimentos do próprio maestro, é capaz de reger com exatidão a Bachiana, mas o fará sem a emoção de um músico humano no comando. "A lágrima e o sorriso nos lábios acontece através do ser humano. É através do maestro e dos músicos, baseado na musicalidade, não só dos músicos, como do maestro. E isso a inteligência artificial não consegue atingir."
É justamente essa comparação da exatidão tecnológica na reprodução musical com o efeito da presença humana na produção e no consumo artístico que será explorada na Avenida Paulista. "O mundo vive uma transformação profunda impulsionada pela inteligência artificial. A reinvenção deixou de ser opção. As pessoas e organizações precisam se adaptar continuamente a mudanças que hoje acontecem em semanas", afirmou Paulo Skaff, presidente da FIESP e do SESI-SP, em comunicado à imprensa. "Ainda assim, principalmente na educação e na arte, o cuidado, a criatividade e a sensibilidade humanas permanecem insubstituíveis".
Robô e identidade
"Nós estamos fazendo uma experiência inicial, onde o robô faz praticamente a parte rítmica", explicou Martins. "E vamos tentar, num futuro próximo, o robô conseguir uma identidade musical." Usando suas próprias postagens nas redes sociais como exemplo, o maestro explica que as IAs, apesar de rapidamente identificarem as obras tocadas, ainda não são capazes de diferenciar as individualidades de cada interpretação, com suas apresentações compartilhadas no Instagram sendo identificadas como tocadas pela Berliner Philharmonike, a Filarmônica de Berlim, uma das orquestras mais tradicionais do mundo.
"Do que vive a música? Da individualidade do intérprete com a personalidade do autor", seguiu Martins, reforçando que, neste momento, a IA é incapaz de reproduzir os pormenores que fazem da arte uma experiência exclusivamente humana.
IA e a democratização da arte
Com a popularização de IAs generativas, capazes de produzir áudios, vídeos e imagens a partir de um parágrafo digitado pelos usuários, muito se discute no meio artístico se aqueles que usam a tecnologia para produzir suas peças podem ser considerados artistas. Enquanto criativos humanos classificam tais programas - que "aprendem" ao serem alimentados por milhões de obras humanas e copiá-las - como ferramentas de plágio, seus entusiastas argumentam que sua acessibilidade leva à democratização da produção artística.
Para Martins, essa democratização, especialmente dentro da música clássica, ainda é muito dependente da vontade humana. "Se, hoje, todos os artistas de ponta saíssem de suas torres de marfim e fossem ao encontro de todos os segmentos da sociedade, nós estaríamos fazendo um trabalho melhor do que a inteligência artificial para democratizar a música clássica."
Ele segue: "Nos últimos dois sábados, estive em quatro lugares, das 8h da manhã às 17h: São Miguel Paulista, São Mateus, José Bonifácio e Cidade Líder. E nessas quatro cidades, eu fui ao encontro de crianças acima de seis anos de idade, cinco anos de idade, e a comunidade toda, pais, mestres, a comunidade da região", contou o maestro. "Nesse momento, com você levando a música clássica para lugares que não têm oportunidade de ter a música clássica no seu cotidiano, você percebe que a democratização da música clássica depende também do ser humano."
"A democratização da música clássica, ou seja, atingir todos os segmentos da sociedade, depende do contato pessoal entre o maestro ou o ator, e também acreditar na trajetória da esperança. Essa democratização (..) depende de artistas de ponta irem ao encontro de todos os segmentos da sociedade, inclusive nas periferias das periferias", concluiu Martins.
O que é o robô maestro
Adquirido pelo SESI-SP como ferramenta pedagógica, o Unitree G1 conta com equipamentos de última geração, com capacidade de identificar e reproduzir ações e movimentos humanos. Primeiro robô humanoide integrado a uma rede escolar de educação básica no Brasil, o modelo tem aplicações na indústria e na educação, onde pode auxiliar em pesquisas e demonstrações.
Apesar de apenas repetir os movimentos que lhe são programados, o robô teve papel ativo na troca de experiência com Martins. "Enquanto o maestro ensinava o robô a reger, o robô, por sua vez, possibilitou ao maestro vivenciar na prática conceitos de física aplicados à regência, como pontos de equilíbrio, amplitude dos movimentos, aceleração, desaceleração e precisão espacial", relatou a equipe por trás da programação da máquina ao Estadão.
De acordo com a organização do evento, a inclusão do robô de pouco de 1,3m de altura na apresentação busca expor as possibilidades da aplicação da tecnologia da música, com a máquina sendo tão capaz de ler e comandar as partituras quanto um maestro humano. Ao mesmo tempo, sua presença evidenciará o contraste entre a exatidão proporcionada pela tecnologia frente à insubstituível emoção nascida da criatividade e interpretação humana.
Concordando com as impressões de Martins, a equipe tecnológica que tornou o evento possível ainda vê limitações para a capacidade da IA de reagir de forma criativa em sua condução, algo indissociável da capacidade e sensibilidade artística do maestro. "Nessa experiência, o robô atua como um instrumento pedagógico, tecnológico e experimental, ampliando possibilidades de aprendizagem, reflexão e inovação na interface entre arte, ciência e tecnologia."
Apesar das limitações assumidas, a precisão e a capacidade de regência do robô, assim como a sensibilidade artística de João Carlos Martins, serão exibidas neste domingo, a partir das 14h, no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista. A entrada é gratuita e não há necessidade de reserva de ingressos.
João Carlos Martins e Bachiana Filarmônica SESI-SP
Data: 29 de março, domingo, 14h
Local: Área externa do Centro Cultural Fiesp - Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação de metrô Trianon-Masp)
Classificação: Livre Entrada gratuita - não requer reserva de ingressos
