'Joana d’Arc da Manchúria': há 78 anos, China executava espiã do exército japonês que viveu disfarçada de homem; relembre
Era madrugada de 25 de março de 1948 quando tiros no pátio da Prisão Número 1 de Pequim colocaram fim à trajetória de Yoshiko Kawashima, personagem cercada por lendas, contradições e controvérsias. Passados quase 80 anos da execução, a história da princesa da dinastia Qing que se transformou em espiã do exército japonês continua sendo uma das mais emblemáticas do turbulento cenário asiático do século XX.
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Nascida em 1907 sob o nome Aisin Gioro Xianyu, Yoshiko fazia parte da família imperial chinesa em um período de decadência da dinastia Qing. Após a queda da monarquia, em 1912, foi entregue ainda criança ao agente japonês Naniwa Kawashima numa tentativa desesperada de fortalecer alianças políticas que pudessem restaurar o poder da família. Levada ao Japão, recebeu uma nova identidade e passou a ser criada sob rígida disciplina nacionalista.
Anos depois, sua vida tomou um rumo ainda mais dramático. Segundo relatos históricos e estudos citados pela biógrafa Phyllis Birnbaum, Yoshiko sofreu abusos durante a adolescência e desenvolveu uma profunda crise de identidade. Aos 17 anos, cortou os cabelos, abandonou roupas femininas e passou a vestir uniformes militares masculinos, numa tentativa de reconstruir a própria imagem em meio aos traumas vividos.
A “Joana d’Arc da Manchúria”
Na década de 1930, durante a expansão militar japonesa sobre a Manchúria, Yoshiko se tornou peça importante da inteligência do Japão. Fluente em chinês e japonês, circulava entre diferentes grupos usando disfarces e assumindo missões de espionagem em favor do estado fantoche de Manchukuo, criado pelos japoneses no território chinês ocupado. O apelido de “Joana d’Arc da Manchúria” surgiu justamente nesse período, impulsionado pela propaganda japonesa, que transformou a princesa em símbolo militar e figura popular em jornais, músicas e romances da época.
Além da atuação como espiã, Yoshiko chegou a liderar tropas irregulares e participou de operações ligadas à ocupação japonesa na China. Apesar da fama, vivia cercada por isolamento e rejeição. Para chineses, era vista como colaboradora do inimigo; para os militares japoneses, acabou tratada como instrumento político descartável. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do Japão, perdeu a proteção dos aliados e passou a viver escondida em Pequim sob identidade falsa.
Presa em 1945 pelas forças nacionalistas chinesas, enfrentou um julgamento marcado pela forte pressão popular por vingança contra colaboradores da ocupação japonesa. Durante as audiências, tentou argumentar que havia se tornado cidadã japonesa e, portanto, não poderia ser acusada de trair a China. O tribunal rejeitou a defesa e a condenou por alta traição em 1947.
Nas últimas cartas escritas na prisão, Yoshiko descreveu a própria vida como “uma folha de lótus soprada pelos ventos do destino”. Executada aos 40 anos, deixou para trás não apenas a imagem de uma princesa-espiã, mas também um mistério que atravessou décadas. Rumores surgidos após sua morte alimentaram teorias de que ela teria subornado guardas e escapado da execução, usando o corpo de outra mulher para simular sua morte, hipótese jamais comprovada.
