Jessie Buckley e Christian Bale falam sobre 'A noiva!': 'um olhar punk para uma história de amor não convencional'
Uma cinzenta Londres foi palco de um “casamento” de luxo na semana passada. A capital britânica recebeu a première mundial de “A noiva!”, ambicioso segundo longa como diretora da atriz Maggie Gyllenhaal, estrelado por Jessie Buckley, Christian Bale, Penélope Cruz e grande elenco. A trama é livremente inspirada no clássico da literatura gótica “Frankenstein” (1818), de Mary Shelley, que acompanha um cientista brilhante que, em meio a um experimento, dá vida a uma criatura monstruosa que leva à destruição de seu criador. Em uma subtrama, o livro cita a vontade do monstro de convencer o doutor a criar uma companheira para ele. A história foi explorada em “A noiva de Frankenstein” (1935), filme de James Whale estrelado por Boris Karloff e Elsa Lanchester. Passadas nove décadas, o cinema volta a investir na personagem no longa que chega hoje às salas brasileiras.
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— Após meu primeiro filme (“A filha perdida”, 2021), que foi pequeno, mas muito honesto, queria saber se conseguiria fazer um grande filme, que parecesse pop, quente, como uma montanha russa, mas que também fosse honesto sobre uma coisa que não falamos muito a respeito — conta ao GLOBO Gyllenhaal, de 48 anos, numa das entrevistas da cineasta na capital inglesa. — Fui numa festa e vi um cara com uma tatuagem da noiva de Frankenstein e isso me fisgou. Fui ver o filme original e ela não está na história. Ela aparece por dois minutos e não fala uma palavra. Fiquei muito curiosa pela mente dela e sobre o que ela tivesse a dizer sobre a situação em que está envolvida, que é meio ferrada, sabe. Então comecei a escrever.
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Empoderamento
Passado na Chicago dos anos 1930, o longa mescla elementos de terror, filme de máfia, romance e até mesmo musical para contar a história de Frankenstein (Bale), um ser solitário que procura uma cientista pioneira (Annette Bening) para que crie uma companheira para ele. Os dois, então, revivem uma jovem assassinada há pouco tempo (Buckley).
Jessie Buckley e Maggie Gyllenhaal durante os bastidores de "A noiva!"
Niko Tavernise / Warner Bros. Pictures
— O filme é um olhar punk radical para uma história de amor não convencional — descreve Bale, de 52 anos, que contracenou com Gyllenhaal em “Batman: O cavaleiro das trevas” (2012). — É sobre a tentativa da noiva se encontrar e se empoderar, sobre não aceitar qualquer coisa das pessoas ao seu lado.
Favoritíssima ao Oscar de melhor atriz pelo trabalho em “Hamnet: a vida antes de Hamlet” (2025), Buckley interpreta a personagem que dá nome ao filme. A estrela irlandesa volta a trabalhar com a diretora cinco anos após “A filha perdida”.
— Parcerias como esta não surgem o tempo todo. Quando nos conhecemos, ficou muito claro que falávamos uma língua parecida. Nos conectamos imediatamente, com muito poucas palavras ou até mesmo sem palavras, através de um olhar — diz Buckley, de 36 anos. — Voltar a trabalhar juntas em um cenário maior, ter medo, explorar o desconhecido, em um filme em que nós duas precisamos expandir nossas mentes, nossos membros e nossas imaginações e saber que iríamos mergulhar mais fundo no nosso inconsciente enquanto artistas para criar isso juntas, trabalhar dessa forma é um presente absoluto.
Além dos antigos colaboradores Buckley e Bale, a cineasta contou com a ajuda do irmão, Jake Gyllenhaal, e do marido, Peter Sarsgaard, no projeto. O irmão caçula dá vida a Ronnie Reed, ator de musicais pelo qual Frankenstein é obcecado. Já o companheiro interpreta o detetive Jake Wiles, que é responsável por apurar a onda de crimes cometidos pelo casal principal.
Jessie Buckley em "A noiva!"
Divulgação
— Não tive escolha (em aceitar o papel). Sou casado com a diretora — brinca Sarsgaard, de 54 anos, antes de declarar sua admiração pela esposa, com quem divide duas filhas e um casamento de 17 anos. — Mas a verdade é que, mesmo se não fosse casado com ela, eu ficaria muito empolgado com o projeto. Quando você está muito perto de alguém, pode tomar coisas como garantidas, mas ela é um talento extraordinário. É inspirador acordar e vê-la compartilhando ideias no café da manhã. A visão dela é muito única. São poucos os filmes que se parecem com este.
Penélope Cruz, que interpreta a investigadora Myrna Mallow, parceira de Wiles, concorda.
— Já tivemos tantas versões de “Frankenstein” e pouquíssimas versões da noiva. E acho que esta é a primeira vez que podemos ver o mundo pelo ponto de vista da noiva e compreender sua mente. Acho que é a primeira vez. Sinto que é um filme completamente diferente de tudo que já foi feito. Muitas pessoas têm comentado que nunca viram nada como este filme. E é verdade, é difícil de explicar. Maggie criou algo tão original e tão único — explica a atriz espanhola, de 51 anos.
Penélope Cruz e Peter Sarsgaard em "A noiva!"
Niko Tavernise / Warner Bros. Pictures
Bale descreve “A noiva!” como um blockbuster “disfarçado de filme independente” e ressalta o fato de mesmo se tratando de uma obra com orçamento de US$ 80 milhões (R$ 422 milhões), o grande foco de todos os envolvidos era no roteiro e no desenvolvimento dessa história grandiosa, mas intimista.
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Monstro solitário e humano
“A noiva!” entra em cartaz poucos meses após o lançamento de “Frankenstein”, longa dirigido por Guillermo del Toro e estrelado por Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz e Mia Goth, e indicado a nove estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme. A obra é uma adaptação mais tradicional do romance original, se passando entre o fim do século XVIII e o início do XIX. A diretora Maggie Gyllenhaal diz que Frankenstein é diferente da maioria dos outros monstros do cinema.
— Acredito que existam muitas histórias sobre monstros, mesmo no noticiário. Nós as pegamos e usamos como forma de pegar nosso lado monstruoso e colocá-lo em um outro lugar. Mas Frankenstein é diferente. Ele é um monstro. Ele faz coisas monstruosas no livro, ele mata uma criança, mata muitas pessoas. Mas ele também é muito vulnerável, solitário e humano. Acho que “Frankenstein”, de Mary Shelley, permite que reconheçamos as partes monstruosas em nós mesmos.
'Frankenstein' de Guillermo de Toro está na programação
Ken Woroner/Netflix
Coautora do livro “Cinema de horror: uma introdução”, escrito em parceria com Rodrigo Carreiro, a professora e pesquisadora Laura Loguercio Cánepa acredita que “Frankenstein” permite muitas leituras, o que explica as constantes adaptações. Ela destaca ainda que o monstro da obra se diferencial dos demais por não vir do passado, como na literatura gótica de então, mas sim da ciência e do progresso.
— O romance original trata da exclusão das pessoas vistas como diferentes, é uma releitura moderna do mito da criação e é uma crítica ao individualismo científico e à ambição sem limites — conta a estudiosa do cinema de terror. — O fato de ter sido escrito por uma autora tão jovem (Mary Shelley tinha 19 anos à época da publicação) também me parece significativo hoje, quando o feminismo revisita a história e recoloca mulheres no centro de debates fundadores da modernidade. Essa abertura para tantas possibilidades ajuda a explicar por que “Frankenstein” continua gerando adaptações tão diferentes entre si, como “Pobres criaturas” e, agora, “A noiva!”.
Lucas Salgado viajou a convite da Warner Bros. Pictures
