Jessica Martin será a única mulher a cruzar a Sapucaí como intérprete oficial no Grupo Especial este ano

 

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Jessica Martin reconhece que, às vezes, acha estranho ouvir o samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis ser cantado sem a voz de Neguinho da Beija-Flor. O lendário intérprete da escola se aposentou no carnaval passado e coube a ela e a Nino do Milênio, que o acompanhavam no coro até então, ocuparem o posto. “Ele é o nosso mestre. Acho que, quando entrarmos na Avenida, muita gente ainda vai estranhar, mas estamos fazendo um trabalho encantador junto à comunidade”, ela adianta.

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O desafio é grande, mas não intimida. Quando entoar o seu grito de guerra — um sonoro e carioquíssimo “Essa é a minha comunidade! Esqueceee!” — na noite de amanhã, Jessica será a única mulher no posto de intérprete oficial no Grupo Especial. Uma posição raramente ocupada por mulheres, como fez Elza Soares, pela primeira vez, em 1969, no Salgueiro, sendo a mais recente Wic Tavares, em 2023, na Unidos da Tijuca. “Nem nos meus maiores sonhos poderia imaginar que isso fosse acontecer”, celebra Jessica.

E não se trata de falsa modéstia. Aficionada por carnaval desde criança, ela achava que, se um dia tivesse espaço num desfile, seria como passista. Já na hora de escolher a profissão, decidiu cursar Fisioterapia. “Mas nunca me encontrei. Sempre gostei da área artística”, diz. Tentou, aos 19 anos, um lugar ao sol pelo programa “Ídolos”, na TV Record. Não vingou, mas seguiu fazendo shows de “voz e violão” em eventos. Numa dessas apresentações, foi convidada para o coro da Beija-Flor.

Quis o destino que outro reality cruzasse o caminho da cantora. Desta vez, “A voz do carnaval”, do Multishow, criado para escolher o sucessor de Neguinho. Jessica era a única mulher entre os oito participantes e venceu ao lado de Nino. A rotina, agora, é de superstar. “Foram três meses de estúdio para equalizar as nossas vozes”, conta, sobre a sinergia com o parceiro. “Fazemos aulas de canto e acompanhamento com fonoaudiólogo duas vezes por semana.”

Tamanho empenho é reconhecido pela comunidade e por veteranos do samba. A cantora Teresa Cristina, uma das juradas do programa, virou tiete. “Fiquei impressionada com a potência de voz dela. É encorpada e tem alcance de Avenida, lugar que precisa ser ocupado pelas mulheres”, diz. No que depender de Jessica, este é só o começo de um novo enredo: “Daqui por diante, quero ver cada vez mais intérpretes como eu”.