Jazz Proibidão, sucesso na Gamboa ao misturar jazz e funk, celebra um ano no Circo Voador

 

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“É como se fosse Miles Davis tocando com a Furacão 2000”, diz o trombonista Josiel Konrad para tentar condensar, em uma imagem, o caldeirão musical que embala o Jazz Proibidão, baile-show no qual também entram Duke Ellington, MC Sapão, John Coltrane e Claudinho e Buchecha. A explosiva união de jazz e funk logo fez a fama do projeto, que comemora um ano de pistas cheias com uma festa no Circo Voador, nesta sexta (20), com convidados de peso: a cantora Fernanda Abreu, o bandolinista Hamilton de Holanda e o DJ Ramon Sucesso.

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— Daqui a uns anos talvez a gente comprove que o funk é o jazz feito no Brasil. Não gosto de falar em “mistura” porque parece que estamos tratando de coisas que não têm a ver uma com a outra — defende o músico. — Prefiro “fusão”, porque o funk e o jazz nasceram do mesmo lugar no Brasil e nos EUA: ambos vêm de áreas periféricas, de pessoas que vieram do continente africano. Os dois estavam ali há muito tempo, só faltava juntar.

Josiel Konrad

Divulgação/@blinia.m

E a ideia de juntar não é de hoje. O que num primeiro momento pode soar inusitado, foi um caminho natural para o trombonista. Enquanto estudava música instrumental na juventude, Konrad — natural de Austin, bairro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — percebeu que o que ele tocava não ressoava com “os seus”.

— Quando eu voltava para casa, percebia que não levava a minha música junto, porque fazia parte de um nicho de jazz. Ela não gerava pertencimento em mim e nem nas pessoas, que viam o que eu fazia como algo “superior”, não acessível — conta o instrumentista, que queria que as pessoas se sentissem parte da sua música.

Ele colocou a ideia em prática ano passado, quando o Jazz Proibidão estreou no Centro Cultural Lado B, na Praça Quinze. Logo migrou para um espaço na Rua Sacadura Cabral e, dali, passou a ocupar a Arena Samol, no vizinho Morro da Providência. Lá, com filas enormes na porta e cerca de 2.500 pessoas por edição (foram seis, ao todo), o evento virou point e já recebeu, na plateia (sempre cheia), nomes como Liniker e Djonga.

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Entre os tantos fãs do Jazz Proibidão, a advogada Mariana Barsted, de 55 anos, destaca também a raiz política:

— O repertório é de alto nível e a atmosfera é de encontro. Mistura idades, pessoas, territórios. Junta gente diversa para celebrar a música como resistência e festa. É mais que um show.

Funkeira declarada, a roteirista Marina Martins, de 30 anos, também é frequentadora assídua do Jazz — que, segundo ela, tem muitos atrativos para além da música:

— O evento é super acessível e muito bem frequentado, tá? Todas as pessoas interessantes do Rio de Janeiro vão para esse lugar.

Fila na Arena Samol para uma edição do Jazz Proibidão

Divulgação

Cabeça do Jazz do Macuna, em Botafogo, o multi-instrumentista Tunico, que gravou com Josiel e já participou de uma edição do Proibidão, celebra o evento e comenta sobre a cena da música instrumental na cidade.

—A gente vive uma onda crescente de eventos como o Molejazz, o Jazz do Tunico, que eu fazia na Rua do Mercado, e muitos outros que aproximaram o jazz do público jovem. Isso é muito bacana — analisa. — Agora, o Josiel levou isso para um outro lugar, trazendo toda a bagagem do funk, que tem tudo a ver com o jazz, assim como o rap.

Criadora do “Funk erudito” (mistura de batidão com música clássica), Ster do Violino, que também já participou de uma edição do evento, defende — ao contrário dos puristas — que “o funk pode tudo”.

— A música está em todos os lugares, em tudo o que sentimos, independente do gênero. Essa é a magia dela — comenta. — Espero que cada vez surjam mais artistas como o Konrad.

Na Lapa

Hamilton de Holanda

Nando Chagas/Divulgação

A festa no Circo, nesta sexta (20), promete. Com seu bandolim, Hamilton de Holanda promete chegar com “liberdade, groove e risco”. No palco, o clima será de espontaneidade.

— Vou chegar para conversar com o Josiel e a banda na linguagem da rua e do improviso: fraseado brasileiro, choro, jazz e aquela pulsação que faz o corpo entender antes da cabeça — diz o instrumentista, que admira “a coragem estética e a verdade” do projeto de Konrad. — Ele não pede licença e cria uma ponte bonita entre vários mundos. É uma galera que mostra como a música brasileira é sempre capaz de criar novos horizontes.

Um dos maiores nomes da nova geração do funk carioca, Ramon Sucesso, DJ responsável por popularizar o estilo 150 BPM, está animado para a estreia no Circo.

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— O funk é gigante e diferenciado: onde ele toca, todo mundo quer dançar. De uns anos para cá eu vi o funk se expandindo pra fora do país e conquistando novos públicos. Ainda tem muito mais para acontecer no movimento — acredita.

Assoprando as velinhas do primeiro aniversário do Jazz Proibidão e com o auxílio do empresário, Rafaello Ramundo, e da Novo Traço, Josiel mira no futuro: a ideia é levar o Proibidão para a Baixada e a Zona Norte, além de entrar em estúdio para gravar coisas que já tocam nos bailes. Mas nesse caminho também tem um álbum de inéditas:

— Quero buscar feats com artistas como Poze ou Cabelinho, que chegam com força nas comunidades. Estou tendo cuidado com as músicas autorais porque não é simples. Não posso fazer mais jazz e menos funk ou vice-versa.

Programe-se

Onde: Circo Voador, Lapa. Quando: Sexta (20), às 20h. Quanto: A partir de R$ 50 (1lote, com 1kg de alimento). Classificação: 18 anos.