Janones, com seu exército de 10 milhões, retirou Lula, PT e esquerdas da letargia

Janones, com seu exército de 10 milhões, retirou Lula, PT e esquerdas da letargia - Foto
Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Você sabe quem é André Luís Gaspar? Eu não sei. Ninguém sabe.

Mas, quando se acrescenta um sobrenome — os outros três são, a rigor, prenomes —, Janones, tudo muda. Janones é o nome da hora, o rei do WhatsApp.

O político que está fazendo história na internet, balançando as redes sociais, retirando a esquerda da letargia burocrática do, digamos, “aburguesamento” que ocorre com os que ficam no poder tanto tempo. (Abre-se um parêntese: o presidente Lula da Silva trouxe Guilherme Boulos para o governo com objetivo nobre — torná-lo mais moderado e ciente do que é o mundo real dos que governam.

O petista-chefe queria que tomasse um banho de realidade. O resultado pode ter sido positivo.

Porém, ao ser “domesticado”, por assim dizer, Boulos acabou praticamente neutralizado. Perdeu energia.

Agora, Janones, radicalizado para além das ideologias, tomou o “seu” lugar.) Desde algum tempo, a esquerda perdeu espaço para a direita, que tem se mostrado altamente profissional, nas redes sociais.

Tende-se a notar tão somente a “violência” do conteúdo veiculado pela direita, mas sem perceber a forma do exposto (inclusive o comportamento típico de religiões radicalizadas). Há inteligência — talvez mais esperteza — por trás (e no interior) do discurso.

André Janones, o general, e Lula da Silva, o marechal: uma aliança que funcionou | Foto: Reprodução A direita tem se mostrado mais digital e a esquerda mais analógica.

Por que os líderes envelheceram? Nada se trata de idade, mas de mentalidade. O menosprezo intelectual pelas redes, por sua superficialidade (e seu caráter cada vez mais comercial), levou a um relativo afastamento.

Pode-se criticá-las, o que não se deve é ignorá-las. Porque é lá que o debate, denso ou não, ocorre.

As pessoas estão “morando” em um novo mundo — o do Instagram, do Tik Tok, do X, do Facebook, do WhatsApp etc. — e os intelectuais, de esquerda ou não (a direita já está lá, firme, sólida e posicionada — sem limites), precisam “habitá-lo”.

André Luís Gaspar Janones — cujo nome “contém” três santos da Igreja Católica —, de 42 anos, foi eleito em 2026 para seu terceiro mandato de deputado federal. É filho de uma empregada doméstica com um cadeirante e foi cobrador de ônibus.

Formou-se em Direito e atuou, por algum tempo, como advogado. Agora é político em tempo integral.

Um profissional que usa as redes sociais — com escassas “notas musicais”, quer dizer, sem muita sofisticação (e um caráter tanto militar quanto religioso) — para agregar a esquerda, para torná-la, de novo, mais militante. Rita Bastos: a enfermeira aposentada, de 85 anos, decidiu ir às ruas no segundo turno; é defensora do SUS | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção/2026

Com o PT acomodado, até letárgico, Janones decidiu acordá-lo, sobretudo retirá-lo da zona de conforto dos que se deliciam com la dolce vita proporcionada aos que estão no poder. Longe dos meninos catarrentos e dos velhinhos desdentados que, por vezes, aparecem nas caminhadas, em busca de alguma atenção e carinho, durante as campanhas eleitorais.

De alguma maneira, o deputado de Minas Gerais “devolveu” as ruas digitais e analógicas à esquerda. O “general” Janones, ao criar o Exército do Lula, mostrou que, quando quer, a esquerda sabe se fazer presente nas redes sociais.

A mobilização que Janones conseguiu — em pouco tempo recrutou um exército de mais de 10 milhões de pessoas fanaticamente leais e conectadas — ninguém, na esquerda, havia conseguido. A direita tem, entre outros, o deputado Nikolas Ferreira, um fenômeno político que não deve ser subestimado (ele pode “devorar” Tarcísio de Freitas ou Flávio Bolsonaro nas próximas eleições.

Mas em 2030, quando terá 34 anos, não poderá ser candidato a presidente). Janones, com sua fala de frases curtas e incisivas — são orientações ditadas como ordenamento —, surpreendeu não só a direita.

A esquerda, boquiaberta com sua fúria norteadora, de comandante militar mesmo (e, quem sabe, líder religioso), decidiu segui-lo. A esquerda (inclusive a intelectual) estava desorientada, assistindo de camarote a ascensão de Flávio Bolsonaro e o descenso de Lula da Silva.

Maria Vilma, pensionista de 82 anos: saiu de Itaberaí para participar de manifestação em Goiânia; fã de André Janones e admiradora de Lula da Silva, é defensora da democracia | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção/2026 Entretanto, ao aceitar as ordens do general Janones — que parece responder tão-somente ao marechal Lula da Silva —, a esquerda reencontrou seu norte.

Voltou à velha militância mas com roupagem nova. Os “aguerridos” reds estão de volta.

Devolvidos às ruas, saíram dos restaurantes finos e das pontes aéreas para a Europa e para os Estados Unidos. A esquerda que está nas redes não é a mesma do primeiro turno.

É outra. Está mais atenta e participativa.

Janones é apenas a face mais visível e contundente. A presença da esquerda — até esquerdas (socialistas, comunistas, socialdemocratas) — tem sido intensiva.

Ela está mais criativa, proativa e vigorosa. Antes era apocalíptica — agora tornou-se integrada: menos Theodor Adorno e mais, quem sabe, Marshall McLuhan.

O exército de Janones tem um general, ele, e mais de 10 milhões de soldados — muitos deles intelectuais refinados das universidades. Que ele tenha convencido tanta gente a segui-lo — a obedecê-lo sem pestanejar — é sinal de que sua comunicação calou fundo e, por isso, funciona.

Samila Marija, da etnia Kaixana (do Amazonas), foi à manifestação pró-Lula da Silva no dia 18 de outubro, na Praça Tamandaré | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção O diretor de Inteligência da Quaest, Guilherme Russo, disse ao UOL: “O que o Janones está fazendo não tem precedente no Brasil, especialmente vindo da esquerda.

Então, a gente tem que reconhecer esse trabalho, porque ele está sim mudando a campanha em algumas frentes”. Russo acrescenta: “Vamos lembrar que a primeira pesquisa logo após o primeiro turno mostrou Flávio Bolsonaro bastante à frente.

E o que a gente viu nas últimas duas semanas, uma mobilização da esquerda muito forte, muito grande, uma animação, que está sendo muito bem feita nas redes sociais, mas também nas manifestações de rua, na mobilização, em conversas”. O diretor da Quaest observou uma melhoria geral na campanha digital de Lula da Silva: “Os números de redes sociais foram muito fortes.

A gente tem o índice de popularidade digital, mas também buscas no Google, todos melhoraram muito para o presidente Lula. A esquerda está conseguindo competir, engajamento e passando em muitos aspectos”.

Se a esquerda melhorou no mundo digital, a direita piorou? Não. A direita continua altamente eficiente nas redes sociais, sempre rápida nas suas manifestações e não deve ser subestimada.

O que a direita “ganhou” foi um adversário que conseguiu, de repente, mobilizar a sociedade (o mundo cultural, por exemplar). Houve, por assim dizer, um levante pró-Lula da Silva.

Resta saber se a esquerda pregou para convertidos ou conquistou votos novos. As urnas, já neste domingo, vão revelar quem o Brasil decidiu escolher para geri-lo nos próximos quatro anos.

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