Jango incomoda até hoje!

Jango incomoda até hoje! - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

A imagem da estátua de João Goulart vandalizada, na orla do Guaíba, em Porto Alegre, é mais do que uma demonstração de desrespeito à memória de um ex-presidente da República. É um retrato preocupante do clima de intolerância política que estamos vivendo.

Em plena campanha eleitoral, quando deveríamos discutir projetos para o futuro do Brasil, assistimos à radicalização dos discursos, à transformação dos adversários em inimigos e ao desprezo pela nossa própria história.

Mas uma pergunta não me sai da cabeça: por que Jango incomoda tanto?

Será ignorância? Falta de conhecimento histórico? Quantos daqueles que atacam sua memória conhecem realmente o projeto de país que João Goulart defendia?

Escrevo frequentemente sobre aquele período e, mais de seis décadas depois, continuo encontrando nos comentários a mesma acusação utilizada para justificar o golpe de 1964: comunista!

É impressionante como uma narrativa construída durante a Guerra Fria conseguiu atravessar gerações.

Jango era um grande proprietário rural, defendia a propriedade privada e acreditava que o desenvolvimento brasileiro dependia da ampliação do mercado consumidor, da distribuição de renda e da incorporação de milhões de brasileiros à economia.

Queria realizar reformas estruturais em um país que ainda carregava profundas marcas de quase quatro séculos de escravidão.

A reforma agrária pretendia democratizar o acesso à terra, criar pequenos proprietários, aumentar a produção de alimentos e fortalecer o mercado interno.

A reforma tributária buscava tornar a distribuição dos encargos fiscais mais justa.

A reforma educacional pretendia ampliar oportunidades para uma população que ainda convivia com índices assustadores de analfabetismo.

E a reforma eleitoral buscava estender o direito de voto aos analfabetos, então excluídos da participação política.

Onde estava o comunismo nisso?

Jango não pretendia abolir o capitalismo. Pretendia modernizá-lo, tornando-o menos concentrador e socialmente mais inclusivo.

Meu pai, João Pinheiro Neto, foi ministro do Trabalho de João Goulart e, posteriormente, presidente da Superintendência de Política Agrária, a SUPRA.

Conheceu de perto as resistências enfrentadas por aquele governo.

Por defender aquelas transformações, foi preso depois do golpe, permaneceu incomunicável por aproximadamente dois meses e teve seus direitos políticos cassados por dez anos.

Cresci conhecendo as consequências daquela intolerância. Não pelos livros de história, mas dentro da minha própria casa.

E talvez seja por isso que a imagem da estátua vandalizada me provoque tanta indignação.

Não sabemos, até que sejam identificados os responsáveis, quem praticou o vandalismo ou quais foram suas motivações. Mas o episódio nos obriga a refletir sobre o ambiente político que estamos construindo.

As eleições deveriam representar o confronto democrático de ideias e propostas. Entretanto, cada vez mais, transformam-se em disputas de ressentimentos, acusações e demonstrações de intolerância.

Pouco se discute sobre educação, distribuição de renda, reforma tributária, concentração fundiária ou desenvolvimento econômico.

Questões que Jango colocava no centro do debate nacional há mais de sessenta anos.

O mais impressionante é perceber que muitas delas continuam sem solução.

Mudaram os governos, os partidos, os discursos e os personagens. Mas boa parte das estruturas de poder e dos privilégios permaneceu.

Talvez esteja aí a resposta para a pergunta que dá título a este artigo.

Jango incomoda porque tentou enfrentar interesses que continuam poderosos.

Incomoda porque defendia que o crescimento econômico deveria beneficiar também os trabalhadores.

Incomoda porque acreditava que um país não poderia ser verdadeiramente desenvolvido enquanto milhões de brasileiros permanecessem excluídos de suas riquezas.

É legítimo discordar de suas ideias, criticar seu governo ou questionar suas decisões.

O que não podemos aceitar é a substituição do debate histórico pela intolerância e pela destruição.

Em 1964, derrubaram Jango. Mais de seis décadas depois, vandalizam sua estátua.

Podem tentar desfigurar sua imagem, mas não conseguirão apagar sua história.

E talvez a pergunta mais importante não seja por que Jango ainda incomoda, mas por que o Brasil continua resistindo às reformas que ele propôs há mais de sessenta anos.

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