Jamil Warwar: lendário investigador que desvendou assassinato de socialite carioca por magnata suíço nos anos 1970 vai receber láurea internacional

 

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Meio século após desvendar o assassinato da jovem Cláudia Lessin Rodrigues, um dos crimes mais emblemáticos e controversos da história do Rio, o investigador Jamil Warwar, da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, receberá neste domingo o Diploma de Honra ao Mérito da International Police Association (IPA), considerada a maior organização policial do mundo. A homenagem reconhece a trajetória de um dos investigadores mais conhecidos da corporação, cuja atuação no caso da jovem encontrada morta na Avenida Niemeyer, em 1977, transformou seu nome em referência dentro da polícia fluminense.

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Formado em Direito pela Universidade Cândido Mendes em 1975, Warwar construiu a carreira utilizando lógica, observação e estratégia investigativa como principais ferramentas de trabalho. Conhecido pelo uso de disfarces e pela capacidade de reconstituir crimes a partir de pequenos detalhes, o comissário participou da resolução de mais de 2 mil casos ao longo de mais de 40 anos na Polícia Civil. O Diploma de Honra ao Mérito entregue pela IPA destaca seu “eterno entusiasmo pela atividade policial”, a “argúcia investigativa” e o “senso de Justiça”, além de classificá-lo como referência para novas gerações de policiais.

— Agradeço imensamente a homenagem recebida. Ela é resultado do meu trabalho de anos e anos no combate à criminalidade e, principalmente, da convivência com policiais que dignificaram a profissão, como o delegado federal Francisco Badenes Júnior, o delegado Carlos da Silveira Tobias e outros profissionais que influenciaram minha formação. Também me orgulho de ter contribuído na formação de policiais e homens que dignificaram a profissão — afirmou Warwar ao GLOBO.

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A notoriedade de Jamil Warwar ultrapassou o ambiente policial e acabou incorporada ao imaginário do jornalismo investigativo no Rio. O investigador virou personagem recorrente de reportagens sobre grandes crimes ocorridos nas décadas de 1970, 1980 e 1990, período em que ganhou fama pela rapidez na solução de homicídios e pela capacidade de reconstruir cenas e dinâmicas criminais a partir de detalhes considerados secundários por outros investigadores.

Sua trajetória inspirou a série “Investigador Elementar”, publicada no blog “Segredos do Crime”, do GLOBO, pela repórter especial Vera Araújo. Nos episódios, Warwar aparece ligado a investigações que marcaram a crônica policial fluminense, como o caso Cláudia Lessin Rodrigues, o assassinato do executivo do Bradesco Seguros Rogério Dantas Freire e a morte da advogada Lucilia Marques do Vale Carvalho. As reportagens destacam o método do investigador, baseado na observação minuciosa de vestígios e na reconstituição lógica dos crimes, característica que ajudou a consolidar sua imagem como um dos policiais mais conhecidos da antiga geração da Polícia Civil do Rio.

O assassinato que mudou a história do investigador

O caso que marcaria sua trajetória começou na madrugada de 25 de julho de 1977, na Avenida Niemeyer, no Leblon. Incomodado por uma forte dor de dente, o operário Luís Gonzaga de Oliveira saiu do barracão onde dormia, numa obra na região, e percebeu dois homens retirando algo pesado de uma Brasília estacionada perto da encosta. Desconfiado da movimentação, anotou numa mureta o número da placa do carro.

Horas depois, o corpo de uma jovem foi encontrado no costão da Niemeyer. Ela estava nua, com sinais de espancamento e violência sexual. Uma sacola cheia de pedras havia sido amarrada ao corpo numa tentativa frustrada de lançá-lo ao mar. A vítima era Cláudia Lessin Rodrigues, de 21 anos, moradora de Copacabana e irmã da atriz Márcia Rodrigues, conhecida por protagonizar o filme “Garota de Ipanema”, de 1967.

Ao saber da descoberta do corpo, Luís Gonzaga ligou para a Rádio Globo e repassou a placa à polícia. A anotação levou os investigadores a Michel Frank, então com 26 anos, dono de uma imobiliária em Ipanema e herdeiro de uma das famílias mais ricas do país na época. Seu pai, Egon Frank, era sócio majoritário da fabricante de relógios Mondaine, marca símbolo da ascensão da classe média brasileira nos anos 1970. Frequentador da noite da Zona Sul, Michel era conhecido pelo consumo de drogas e pelas festas promovidas em seu apartamento no Leblon.

O outro suspeito identificado pela polícia foi Georges Kour, cabeleireiro de origem libanesa que comandava um salão no Hotel Méridien, no Leme, um dos endereços mais sofisticados do Rio naquele período. Figura conhecida da alta sociedade carioca, ele circulava entre artistas, empresários e clientes da elite. O crime rapidamente ganhou repercussão nacional e passou a simbolizar, para parte da opinião pública, a dificuldade de responsabilização criminal de integrantes da elite econômica.

Responsável pelo 2º Setor da Delegacia de Homicídios, Warwar reconstruiu o caso em menos de 48 horas. O porteiro do prédio de Michel Frank confirmou que Cláudia esteve no apartamento do empresário e saiu de lá acompanhada dos dois suspeitos. O laudo cadavérico desmontou a versão apresentada por eles de que a jovem teria morrido de overdose. O exame apontou morte por asfixia mecânica, com marcas de esganamento no pescoço e ausência de drogas no organismo.

Segundo a investigação, Cláudia havia ido ao apartamento acreditando que participaria de uma festa. Na manhã seguinte, teria sido levada até a Niemeyer, onde sofreu violência sexual e acabou assassinada.

A investigação que virou problema

A apuração conduzida por Warwar, porém, esbarrou no poder político e econômico da família Frank. Michel fugiu para a Suíça antes de ser preso, aproveitando a dupla cidadania. Anos depois, o comissário afirmou que policiais teriam sido subornados pelo pai do suspeito, Egon Frank, amigo do então governador Faria Lima. Warwar também declarou ter desmascarado tentativas de construção de álibis para Michel Frank envolvendo figuras influentes da época.

A reação, segundo o policial, veio rapidamente. Após o desgaste provocado pelas acusações e pela repercussão do caso, Warwar foi transferido da Delegacia de Homicídios para Itaguaí, decisão que sempre interpretou como uma punição informal pelo rumo dado às investigações.

Embora a pressão da imprensa tenha levado as autoridades suíças a prender Michel Frank, o governo brasileiro não enviou os documentos necessários para formalizar a acusação. O empresário foi libertado ainda em 1977.

Em 1980, Georges Kour foi levado a júri popular no Brasil e absolvido da acusação de homicídio por seis votos a um. Condenado apenas por ocultação de cadáver, recebeu pena de dois anos, já cumprida durante a prisão preventiva. Na Suíça, Michel Frank acabou condenado somente por uso de entorpecentes. Em 1989, foi morto a tiros no apartamento onde vivia em Zurique, após uma discussão relacionada ao consumo de drogas. O assassinato de Cláudia Lessin Rodrigues nunca teve condenados pelo homicídio.

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