O Itaú BBA, braço de atacado do Itaú Unibanco, elevou nesta quinta-feira, 5 de novembro, a projeção do barril de petróleo Brent para US$ 100 no fim de 2026, US$ 20 acima da estimativa anterior, alta de cerca de 25%. O banco espera que a cotação siga nesse patamar durante o primeiro semestre de 2027.
A revisão chega ao bolso do brasileiro pelo diesel e pela gasolina. Barril mais caro encarece o combustível que sai das refinarias e pressiona o frete, os alimentos e a inflação.
O relatório do banco, assinado pela equipe de macroeconomia chefiada por Diogo Guillen, trata o incômodo na própria letra. Os fundamentos estruturais do mercado continuam apontando excesso de oferta de petróleo no mundo.
O que sustenta o barril perto de US$ 100 é outra força. Para o Itaú BBA, “não há evidência de uma resolução rápida para o conflito no Oriente Médio que fundamente uma queda dos preços no curto prazo”.
A frase carrega a tese que o próprio banco enterra no meio do texto. Não falta petróleo no mundo, falta paz.
O prêmio geopolítico embutido nos contratos futuros se sobrepõe, no curto e no médio prazos, à lei da oferta e da procura. A escalada militar dos Estados Unidos contra o Irã é o motor desse adicional.
A ofensiva é conduzida pelo governo de Donald Trump. O mercado passou a precificar a duração dessa guerra, não o seu desfecho, e cada dia de combate mantém no preço um risco que não aparece nos tanques, nos terminais e nos estoques das petroleiras.
O Goldman Sachs chegou à mesma conclusão por outro caminho. O banco calculou que o valor justo do Brent mudou pouco em setembro e outubro, porque os estoques globais, seu principal determinante, ficaram praticamente estáveis.
A produção e o consumo mundiais se reequilibraram. Não há barril faltando nos terminais.
O Goldman elevou as estimativas pela terceira vez em 60 dias. A projeção para o Brent no fim de 2027 subiu de US$ 80 para US$ 88, enquanto a do WTI, referência do mercado americano, passou de US$ 73 para US$ 78.
O banco desenha ainda um cenário de intensificação dos ataques a embarcações e de danos à infraestrutura petrolífera. Nessa hipótese, o Brent chega a US$ 140 até dezembro, com média próxima de US$ 130 em 2027.
“Agora esperamos que os mercados incorporem um prêmio de risco mais elevado”, afirma o texto do Goldman, que cita a duração dos choques de oferta do passado e a dificuldade de um avanço diplomático duradouro. O encarecimento do transporte marítimo e do seguro das cargas acompanha a guerra.
Restrições na oferta de derivados, como o diesel, completam o quadro que mantém o barril na casa dos três dígitos. Ataques a embarcações elevam o prêmio de seguro e podem empurrar rotas para desvios mais longos.
Cada milha extra entra no preço do combustível que chega ao porto brasileiro. O Brasil tem uma das maiores capacidades de refino da América Latina, insuficiente para o diesel que o país consome.
A importação do derivado amarra o preço interno ao mercado internacional. A Petrobras reajusta gasolina e diesel com referência no preço de paridade de importação, que acompanha o barril no exterior e o dólar.
O país está entre os maiores produtores de petróleo do mundo e ainda assim compra diesel refinado no exterior. A conta do combustível depende do barril negociado em Londres e do prêmio de seguro, não do volume que sai dos poços do pré-sal.
Para o caminhoneiro, o efeito aparece no posto e no contrato de frete. Para o consumidor, aparece no preço do alimento na prateleira.
A agropecuária e a indústria, que escoam a produção por rodovia, sentem o encarecimento em duas frentes, no combustível e no frete. Nesta quinta-feira, o Brent para janeiro subia 2,50%, a US$ 96,99 o barril, na bolsa de Londres, por volta de 13h20 de Brasília.
O movimento é um ajuste após a queda de quase 9% na véspera. Nos Estados Unidos, o contrato do WTI para dezembro avançava 2,70%, a US$ 90,51, na bolsa mercantil de Nova York.
A cotação futura carrega a aposta na duração da guerra, não a falta física de óleo. Um cessar-fogo derrubaria o adicional de risco sem que um único barril a mais entrasse no mercado.
Seria o teste de que o preço atual se deve ao conflito, não à escassez. Enquanto houver ataque a embarcação e seguro em alta, o barril deve seguir acima do que os estoques justificam.
A próxima rodada de revisões dos bancos mostrará se o mercado passou a precificar o fim da guerra ou apenas mais um mês de medo.
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