Itamaraty revogou visto de conselheiro de Trump após informações falsas sobre motivo da visita
Interlocutores do Itamaraty afirmaram que a revogação do visto de Darren Beattie, assessor do governo de Donald Trump, teve como justificativa informações falsas prestadas por ele no momento que fez a solicitação de entrada no Brasil. Beattie era aguardado em um evento sobre minerais críticos que ocorrerá na semana que vem em São Paulo, mas também tinha a intenção de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, em Brasília.
A avaliação de integrantes do governo é que houve "omissão e falseamento de informações" relevantes quanto ao motivo da visita por ocasião da solicitação do visto, em Washington. Esse fundamento, afirmaram, é princípio legal suficiente para a denegação de visto, de acordo com a legislação nacional e internacional.
Em evento no Rio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter proibido a visita de Beattie ao Brasil. Ao comentar o caso, o presidente vinculou a medida ao episódio envolvendo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, cuja família teve visto cancelado pelos Estados Unidos no ano passado.
— Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, pra visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil, enquanto não liberar os vistos do ministro da Saúde, que está bloqueado — disse Lula. Em seguida, acrescentou: — Bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos.
A defesa de Bolsonaro havia recebido autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para Beattie visitar o ex-presidente na Papudinha, onde ele cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.
Na quinta-feira, porém, Moraes voltou atrás e negou autorização para a visita. A decisão reconsiderou despacho anterior que autorizava o encontro durante a passagem de Beattie pelo Brasil.
Ao rever o caso, Moraes acolheu informações enviadas pelo chanceler Mauro Vieira ao Supremo. No ofício, o ministro informou que o pedido de visto apresentado em Washington mencionava apenas participação no Fórum Brasil-EUA de Minerais Críticos e reuniões com autoridades brasileiras, sem qualquer referência à intenção de visitar Bolsonaro.
Na decisão, Moraes afirmou que a visita não estava vinculada às atividades oficiais indicadas e citou o risco de “indevida ingerência em assuntos internos”, argumento apresentado pelo Itamaraty ao tribunal.
A defesa de Bolsonaro havia pedido autorização para que Beattie pudesse visitá-lo nos dias 16 ou 17 de março, durante sua passagem pelo país. A decisão manteve a regra segundo a qual visitas ao ex-presidente dependem de autorização judicial. Bolsonaro está preso por decisão do Supremo no âmbito das investigações relacionadas à tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Segundo informações divulgadas posteriormente, o pedido de agenda diplomática para Darren Beattie ocorreu apenas de última hora. Após Moraes pedir esclarecimentos sobre a viagem e a possível visita ao ex-presidente, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília solicitou reuniões para o assessor com autoridades do Ministério das Relações Exteriores. O pedido foi feito apenas depois da solicitação de visita a Bolsonaro e sem que houvesse qualquer agenda diplomática previamente comunicada ao Itamaraty.
