Itamaraty avalia que deposição de Maduro não é caso isolado e 'doutrina' de Trump requer resposta articulada

 

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O governo brasileiro avalia que a deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro não constitui um episódio isolado e está inserida em um contexto mais amplo, marcado pelo que diplomatas descrevem como uma nova doutrina de caráter expansionista associada ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, o precedente aberto pelo ataque americano ao país vizinho é “perigosíssimo” e exige uma resposta articulada da comunidade internacional.

Nesse contexto, declarações de integrantes graduados da Casa Branca relacionadas à Groenlândia ampliaram o nível de alerta no governo brasileiro e reforçaram a avaliação de que o episódio venezuelano não se restringe à América Latina. Trump e sua equipe discutem opções para a aquisição da ilha, que pertence à Dinamarca.

A estratégia para articular uma resposta global a esse impasse deve ser discutida nesta quarta-feira, em reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A partir daí, o presidente pretende iniciar, ainda nesta semana, uma rodada de contatos com outros líderes internacionais para levantar, de forma coordenada, a defesa do princípio da soberania e do respeito ao direito internacional.

Nos últimos dois dias, Vieira manteve conversas com chanceleres e autoridades diplomáticas de diversos países e organismos internacionais — entre eles Canadá, Uruguai, México, França, África do Sul, Colômbia, Venezuela, Noruega, Espanha, Irã, União Europeia e Organização dos Estados Americanos (OEA). Segundo auxiliares, a maior parte dos contatos ocorreu a pedido dos próprios governos.

Na visão do Itamaraty, o caso da Groenlândia ajuda a explicitar a natureza do desafio colocado pelo precedente aberto na Venezuela e evidencia a necessidade de um debate sério no plano internacional, sobretudo por envolver os Estados Unidos e a Dinamarca, dois países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A avaliação é que tanto a Otan quanto a União Europeia são diretamente impactadas pelo novo cenário, o que reforça o caráter global da crise.

Para diplomatas graduados, as ameaças de Trump envolvendo a Groenlândia, o Panamá e a própria Venezuela no início do mandato passaram de declarações retóricas para um cenário concreto no caso venezuelano. “A Venezuela é uma realidade. A Groenlândia está no radar", resume um importante embaixador.

A posição do governo brasileiro foi expressa no último sábado, com uma publicação de Lula condenando o ataque dos EUA e a captura de Maduro e sua esposa Cilia Flores. Ambos serão julgados em território americano por narcotráfico e outros crimes.

Integrantes do governo observam que, no ano passado, o próprio Brasil foi alvo de ataques diretos dos Estados Unidos, com o tarifaço e a aplicação de sanções a autoridades brasileiras, com destaque para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em razão da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Ressaltam que o Brasil precisou defender sua soberania por meio da diplomacia.

Esses interlocutores lembram que o atual governo condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia e também se envolveu na crise entre Venezuela e Guiana, quando Maduro sinalizou que poderia tomar o território de Essequibo, rico em petróleo e minerais.