Israel realiza nesta terça-feira (27) sua primeira eleição legislativa desde os ataques do grupo terrorista Hamas, em 7 de outubro de 2023, em uma disputa que pode definir o futuro político do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Após três anos marcados por guerras na Faixa de Gaza contra o Hamas, no Líbano contra o grupo terrorista Hezbollah, e contra o Irã, o premiê tenta permanecer no poder diante de uma oposição liderada pelo ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot.
As últimas pesquisas mostram o partido de Eisenkot, Yashar, à frente do Likud, de Netanyahu, mas nenhum dos principais blocos políticos aparece com maioria suficiente para formar um governo, o que indica que as eleições desta terça deverão ser apenas o começo de longas negociações.
A eleição também ganhou importância para os Estados Unidos. Nesta reta final da campanha, o presidente americano Donald Trump declarou apoio público a Netanyahu e pediu aos israelenses que votassem no aliado.
A manifestação ocorreu em meio às discussões entre Washington e Tel Aviv sobre uma possível retomada das operações militares contra o Irã. Os israelenses escolherão nesta terça os 120 integrantes do Knesset, o Parlamento do país.
Diferentemente do Brasil, Israel não realiza uma eleição direta para primeiro-ministro. Os eleitores votam em listas partidárias, e o político que conseguir reunir o apoio de pelo menos 61 deputados poderá formar o próximo governo.
Netanyahu, de 77 anos, governa Israel desde dezembro de 2022, depois de ter ocupado o cargo entre 1996 e 1999 e de 2009 a 2021. O premiê lidera o Likud, principal partido da direita israelense, e conta com o apoio de legendas nacionalistas e religiosas, incluindo o Otzma Yehudit (Poder Judaico), do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o Partido Sionismo Religioso, do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que disputa as eleições em aliança com o Zehut (Identidade).
O principal adversário de Netanyahu nesta disputa é Gadi Eisenkot, de 66 anos, que comandou as Forças Armadas de Israel entre 2015 e 2019 e atualmente lidera o Yashar, partido de centro criado para disputar as eleições deste ano. Eisenkot perdeu um filho e dois sobrinhos durante os combates na Faixa de Gaza e construiu sua campanha em torno da segurança nacional, da reorganização das instituições e das críticas à condução do governo Netanyahu.
A oposição também reúne outros nomes conhecidos da política israelense. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, que governou o país entre 2021 e 2022, formou uma aliança com outro ex-premiê, Yair Lapid, para concorrer pelo partido B'Yachad, que significa "Juntos".
O grupo tenta atrair eleitores de centro e de direita insatisfeitos com o atual governo. O ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, líder do Israel Beiteinu, e o ex-general Yair Golan, que comanda o partido Democratas, também disputam espaço no Parlamento.
Apesar de compartilharem a oposição a Netanyahu, essas lideranças possuem diferenças ideológicas e divergências sobre a formação de um eventual governo. As últimas pesquisas sobre a eleição, divulgadas na última sexta-feira (23), revelaram uma fragmentação da disputa.
Um levantamento do instituto Midgam para o Canal 12 israelense atribuiu 23 cadeiras ao Yashar, de Eisenkot, e 21 ao Likud, de Netanyahu. O partido de Bennett apareceu com 15 deputados.
Na mesma pesquisa, os partidos que integram a atual coalizão governista somaram 50 cadeiras, enquanto as legendas de oposição lideradas por políticos judeus alcançaram 56. Os partidos de maioria árabe ficaram com as outras 14 vagas.
O cenário foi semelhante nas pesquisas divulgadas pelo Canal 13 e pela emissora pública Kan 11. Em ambos os levantamentos, Eisenkot apareceu à frente de Netanyahu, e a atual base governista obteve uma projeção de 50 cadeiras.
Esses números não garantem, contudo, que a oposição conseguirá formar um governo. Parte de seus integrantes rejeita uma aliança com partidos árabes, que poderiam fornecer os votos necessários para alcançar a maioria parlamentar.
Netanyahu, por sua vez, depende do desempenho das legendas religiosas e nacionalistas que integram sua atual coalizão. Caso nenhum dos grupos consiga reunir os 61 deputados necessários, Israel poderá enfrentar uma nova rodada de negociações políticas ou até outra eleição.
Nesse cenário, Netanyahu poderá permanecer no cargo de forma interina enquanto os partidos tentam formar uma coalizão. A disputa ocorre em um momento de profundas divisões internas.
Os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixaram aproximadamente 1,2 mil mortos em Israel e resultaram no sequestro de 251 pessoas, continuam no centro do debate político. Setores da oposição responsabilizam o atual governo por supostas falhas de inteligência e segurança que permitiram a ofensiva terrorista.
Netanyahu rejeita as acusações de que seja o principal responsável pelo episódio e tem procurado destacar os resultados militares obtidos por Israel contra o Hamas, o Hezbollah e o Irã. Seus adversários, por outro lado, cobram uma investigação estatal independente sobre os acontecimentos de outubro de 2023 e questionam a capacidade do premiê de recuperar a unidade política do país.
Uma pesquisa do Instituto de Democracia de Israel, realizada entre 31 de agosto e 3 de setembro, mostrou que 68% dos eleitores judeus consideram os ataques de 7 de outubro um fator importante na escolha do partido em que votarão. Entre os cidadãos árabes israelenses, o percentual foi de 32%.
Outra questão que ganhou espaço na campanha foi o serviço militar obrigatório. Os partidos ultraortodoxos que apoiam Netanyahu defendem a manutenção de isenções para jovens dedicados aos estudos religiosos.
A medida enfrenta resistência de setores da sociedade israelense, especialmente de famílias de militares e reservistas convocados repetidamente durante as guerras dos últimos anos. Eisenkot prometeu acabar com as isenções concedidas aos ultraortodoxos.
Netanyahu, por sua vez, precisa administrar as exigências dos partidos religiosos, que consideram a manutenção do benefício uma condição importante para participar de seu governo. Além disso, a reforma do Judiciário proposta pelo premiê, que provocou grandes manifestações em 2023, continua dividindo os israelenses.
Netanyahu defende a necessidade de limitar o poder de magistrados não eleitos, enquanto adversários afirmam que as mudanças ameaçam a independência do poder judicial. A eleição deverá ter consequências para as relações de Israel com os Estados Unidos.
No último dia 18, Trump anunciou apoio formal à reeleição de Netanyahu, argumentando que o premiê é um parceiro fundamental para enfrentar o Irã. Neste domingo (25), o republicano voltou a se manifestar.
"Votem em Bibi Netanyahu para primeiro-ministro. Temos que terminar o trabalho que começamos!", escreveu Trump em sua rede social Truth Social, em referência às operações militares realizadas pelos dois países contra o regime iraniano.
Netanyahu aproveitou o apoio do presidente americano para reforçar sua campanha. Em uma entrevista concedida neste domingo, o premiê afirmou que nunca houve uma relação tão próxima entre os líderes dos dois países e sugeriu que uma nova ofensiva contra o Irã poderia ocorrer caso ele permanecesse no poder.
A manifestação de Trump provocou reação de Eisenkot, que agradeceu o apoio americano à segurança de Israel, mas ressaltou que a escolha do próximo governo pertence exclusivamente aos eleitores israelenses. "As eleições são um assunto interno de Israel.
Os únicos que decidirão são os cidadãos de Israel", afirmou o ex-chefe militar em entrevista ao Canal 12. O apoio do presidente americano a Netanyahu expôs divergências dentro da própria Casa Branca.
Segundo o portal americano Axios, alguns assessores de Trump consideram que um novo governo israelense poderia facilitar negociações diplomáticas com países do Oriente Médio, particularmente em relação à Faixa de Gaza, ao Líbano e à Síria. Outros integrantes do governo defendem a continuidade da parceria com Netanyahu.
As urnas ficarão abertas em Israel nesta terça das 7h às 22h, no horário local. As primeiras pesquisas de boca de urna poderão ser divulgadas logo após o encerramento da votação, mas a formação de um governo ainda dependerá das prováveis longas negociações entre os partidos.
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Gazeta do Povo (Mundo)