Israel enfrenta resistência do Hezbollah em invasão por terra e bombardeia áreas antes seguras: 'No Líbano será o mesmo que Gaza'

 

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Em um sinal de intensificação da ofensiva militar de Israel no Líbano, as forças do Estado judeu realizaram uma série de ataques aéreos que atingiram não apenas os subúrbios ao sul de Beirute, reduto do Hezbollah, mas também áreas centrais da capital antes consideradas seguras. Os bombardeios, realizados ao longo desta quarta-feira, destruíram edifícios, deixaram pelo menos 20 mortos e mais de 40 feridos, segundo o Ministério da Saúde libanês, e forçaram o deslocamento de moradores em meio à ampliação da ofensiva. Ao mesmo tempo, apesar da forte pressão, o grupo conseguiu manter uma resistência significativa na linha de frente do sul do Líbano, utilizando uma combinação de mísseis antitanque guiados, drones e artilharia.

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A maior parte dos bombardeios israelenses teve como alvo Dahiya, uma área densamente povoada nos subúrbios ao sul de Beirute onde o Hezbollah exerce influência, além de regiões no leste e no sul do país. No entanto, Israel passou a também atingir o centro da capital, muitas vezes sem emitir aviso prévio, como vinha fazendo antes de outros ataques. Autoridades israelenses afirmam que os alvos são infraestrutura e integrantes do grupo xiita, apoiado pelo Irã.

Nas primeiras horas desta quarta, ataques aéreos atingiram pelo menos quatro prédios no centro da capital, provocando o colapso de um deles. Foi a primeira vez desde o início da guerra que Israel destruiu completamente um edifício na região central da cidade. A ofensiva foi feita horas após o Estado judeu emitir um alerta aos moradores do sul do Líbano informando que realizaria ataques massivos contra alvos do Hezbollah, marcando a mais ampla ordem de evacuação na região desde a guerra entre Israel e o grupo em 2006.

— Você viu o que aconteceu em Gaza? Vai ser o mesmo aqui — disse Hassan Jawad, 40, que mora em um apartamento próximo ao prédio que desabou, no bairro de Bachoura, no centro de Beirute. — Acho que esta guerra vai durar mais do que a anterior. Meu pai [e] meu avô viveram tempos assim. Nada muda, isso acontece repetidamente.

Um bombardeio sem aviso prévio no bairro central de Zuqaq al-Blat, também na madrugada desta quarta, incendiou os andares superiores de um prédio, lançando densas colunas de fumaça no céu. Ambulâncias correram ao local para retirar e socorrer feridos. Já em Fathallah, na capital, membros do Hezbollah isolaram a rua onde outro edifício havia sido atingido. Carros esmagados e queimados estavam à beira da via, ao lado de pedaços de colchões, pneus de bicicleta e fragmentos de roupas.

— Fiquei com muito medo, aconteceu bem na nossa frente — disse Abu Hussein, 67, explicando que acordou durante a madrugada com o estrondo do ataque. — É diferente de lugar na rua, o perigo vem de repente, do céu. Beirute não é mais segura de jeito nenhum.

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A emissora al-Manar, afiliada ao Hezbollah, anunciou nesta quarta-feira que o diretor de seus programas políticos foi morto junto da esposa em um ataque israelense na capital. Em nota, o canal afirmou que “Mohammad Shari e sua esposa” morreram “no ataque sionista”. Os filhos e netos de Shari ficaram feridos e foram hospitalizados após a ofensiva, condenada pelo ministro da Informação do Líbano, Paul Marcos, como “uma flagrante violação do direito internacional”. O Hezbollah, por sua vez, descreveu o ataque como “deliberado”.

‘Combates intensificados’

Grande parte dos combates também foi concentrada na estratégica cidade montanhosa de Khiam, com o Exército Israel conduzindo uma campanha aérea e de artilharia contra membros do Hezbollah entrincheirados na cidade. Os confrontos se intensificaram após dias de enfrentamentos, com um porta-voz do grupo xiita reconhecendo “combates intensificados” nas periferias leste e norte da cidade. Ao mesmo tempo, tropas israelenses tentavam avançar sobre cidades fronteiriças nos setores central e oeste do sul do Líbano.

Ao jornal britânico The Guardian, um morador da vila fronteiriça de Aita al-Chaab afirmou que os combates eram intensos entre soldados israelenses e membros do Hezbollah no local. Uma fonte de segurança libanesa disse que a vila era uma entre “várias” cidades de fronteira que se tornaram palco de combates pesados, enquanto Israel tentava infiltrar o sul do Líbano por diversos pontos ao longo da fronteira compartilhada.

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Os confrontos ocorrem enquanto o Estado judeu concentra suas tropas ao longo da fronteira, mobilizando quatro brigadas e colunas de tanques antes da expansão da invasão terrestre. Em nota, o Exército de Israel afirmou ter iniciado uma “operação terrestre limitada” enquanto o escalão político discutia a ampliação da campanha. Nesse meio tempo, avaliam especialistas, os combates terrestres se concentram em eixos estratégicos, especialmente em Khiam, que pode determinar a capacidade do Hezbollah de resistir à invasão israelense.

— Khiam está situada em um planalto elevado com vista para o vale de Hula e ao longo de rotas-chave que levam a oeste, em direção à fronteira israelense — disse Ahmad Beydoun, especialista em investigação de conflitos armados com base em fontes abertas, ao Guardian, indicando que o controle da cidade cortaria as linhas de suprimento do Hezbollah no sul do país. — Controlar Khiam divide os setores central e oriental ao sul do Litani [rio], interrompendo a conexão com o Vale do Bekaa.

Ao mesmo tempo, Israel estaria explorando as colinas sob seu controle do lado israelense para bombardear o território libanês, enquanto seus soldados tentavam cercar os combatentes. O objetivo imediato da campanha militar, segundo ex-oficiais das Forças Armadas de Israel, é criar uma zona-tampão no sul do Líbano que afaste o Hezbollah da fronteira. O Estado judeu estaria criando “zonas seguras” na fronteira libanesa, onde moradores poderiam permanecer desde que se responsabilizassem por impedir a infiltração do Hezbollah.

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Um morador de Kafr Shouba, cuja casa fica na região fronteiriça, disse que, na noite de segunda-feira, forças israelenses invadiram sua residência e outras três casas na região. Ele afirmou ter sido encostado contra a parede por soldados enquanto eles procuravam por armas. Ao deixarem o local, disse, levaram um morador para interrogatório.

Se Israel conseguir empurrar o Hezbollah para longe do Litani, passará então a focar na presença do grupo ao norte do rio. A maior parte dos foguetes e drones disparados pelo Hezbollah contra Israel parte dessa região, enquanto seus combatentes ao sul concentram esforços em enfrentar soldados israelenses. No entanto, analistas alertam que a criação de uma zona-tampão no sul do Líbano exigiria uma ocupação de longo prazo, o que poderia reacender o apoio popular ao Hezbollah.

Não está claro como o grupo conseguiu preservar sua presença ao sul do Litani, apesar de mais de um ano de tentativas do Exército libanês de desarmá-lo, além de ataques quase diários de Israel contra combatentes e depósitos de armas. Apesar da pressão, o Hezbollah conseguiu manter uma resistência significativa na linha de frente do sul do Líbano, utilizando mísseis antitanque guiados, drones e artilharia.

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Em meio a escalada, aviões de guerra israelenses atingiram pontes sobre o rio Litani — que conecta o sul do Líbano ao restante do país — destruindo ao menos duas delas, segundo a mídia estatal libanesa. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, confirmou os ataques às pontes, enquanto o Exército israelense disse ter as construções como alvo para “impedir que o Hezbollah transfira combatentes e armas”. O órgão reiterou o alerta para que moradores deixem a área.

Vista como uma importante linha de referência diplomática, a região ao norte do rio Litani teve papel central nas operações de Israel no Líbano há 20 anos. Ao Wall Street Journal, Orna Mizrahi, pesquisadora do Instituto de Estudos de Segurança da Universidade de Tel Aviv, disse que esta representa a maior área de atuação do Exército israelense desde então. Ela relembrou que houve incursões na região em 2024, mas disse que “não houve uma manobra terrestre ali desde 2006”.

Situação ‘preocupante’

Diante da intensificação dos ataques israelenses e do aumento do deslocamento de civis em todo o país, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, convocou uma reunião de alto nível de segurança nesta quarta-feira. A Presidência informou que, no encontro, foram analisadas a situação de segurança em nível nacional, incluindo o aumento de vítimas e o deslocamento da população. Ao todo, segundo autoridades libanesas, ao menos 968 pessoas morreram, 2,4 mil ficaram feridas e mais de um milhão foram forçadas a deixar suas casas desde 2 de março.

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Editoria de Arte/O Globo

Na terça-feira, segundo a al-Jazeera, o secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, apresentou condições para o fim da guerra, incluindo a interrupção dos ataques por Israel, o retorno dos deslocados às suas casas, a libertação de pessoas detidas por Israel nos últimos dois anos e a retirada do Exército israelense. Já nesta quarta, o enviado especial da França para o Líbano disse que seria “irracional” esperar que o governo libanês desarme o Hezbollah enquanto o país está sendo bombardeado por Israel, citando negociações como solução.

— Israel ocupou o Líbano por muito tempo e não conseguiu erradicar a capacidade militar do Hezbollah. Portanto, não pode agora pedir ao governo libanês que faça esse trabalho em três dias sob bombardeio — disse Jean-Yves Le Drian à rádio France Info.

A Espanha, por sua vez, condenou o apelo de Israel para que a população evacue todas as áreas no sul do Líbano ao sul do rio Zahrani, afirmando que a situação no país é “extremamente preocupante”. O chanceler alemão Friedrich Merz, aliado de Israel, também expressou preocupação crescente, advertindo que a ofensiva terrestre israelense no Líbano é um “erro” que pode agravar uma situação humanitária já considerada crítica.

A guerra no Líbano começou em 2 de março, quando o Hezbollah lançou mísseis contra Israel em apoio ao Irã no atual conflito regional. Israel respondeu com bombardeios e, em seguida, com o envio de tropas ao sul do Líbano. O Estado judeu afirma que tem como alvo não apenas combatentes e líderes do Hezbollah, mas também empresas que, segundo o país, estão ligadas ao grupo e ajudam a financiar suas operações militares. (Com AFP e New York Times)