As Forças Armadas de Israel anunciaram nesta quarta-feira a abertura de investigações criminais sobre dois casos de grande repercussão que resultaram na morte de civis palestinos durante a guerra na Faixa de Gaza.
Os militares israelenses afirmaram que os eventos envolvendo a morte da menina Hind Rajab, de 5 anos, e de sua família — retratadas no filme premiado no Festival de Veneza, "a voz de Hind Rajab" —, bem como ataques que resultaram na morte de profissionais de saúde em março do ano passado serão alvos de investigações.
É a primeira vez que o Exército israelense admite envolvimento na morte da criança.
Em um comunicado publicado pelo Estado-maior israelense, os militares detalharam o resultado de investigações realizados por um mecanismo interno para avaliar "eventos excepcionais ocorridos durante combates".
A nota destacou as "missões em uma realidade operacional altamente complexa" realizadas "por mais de mil dias" no enclave palestino, e detalhou o encaminhamento de cinco casos, incluindo o de Hind.
O Exército afirmou que as conclusões da investigação apontaram que militares abriram fogo contra um veículo que trafegava em sentido contrário ao de uma rota de evacuação divulgada a moradores da região da Cidade de Gaza, em janeiro de 2024.
O automóvel seria da família Hamada, e o ataque teria resultado nas mortes de cinco pessoas, sendo as únicas sobreviventes Hind e sua prima Lian.
"Nas horas seguintes aos disparos, após um telefonema para as equipes de emergência, do qual participaram inicialmente as duas meninas e, posteriormente, apenas Hind, foi coordenado o deslocamento de uma ambulância do Crescente Vermelho para a evacuação dos feridos.
Contudo, segundo a alegação, quando a ambulância chegou ao local do incidente, um projétil foi disparado contra ela, matando os dois paramédicos que estavam a bordo.
Alguns dias depois, os corpos dos sete integrantes da família Hamada foram retirados do veículo, incluindo os corpos de Hind e Layan.
Também foram retirados da ambulância os corpos dos dois paramédicos", descreve a nota.
O caso de Hind Rajab mobilizou a comunidade internacional, sendo retratado em um longa-metragem tunisiano, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza e indicado ao Oscar.
Na obra, é possível ouvir registros telefônicos reais do dia dos assassinatos, primeiro das duas meninas, com um tio que mora na Alemanha, e, posteriormente, com o Crescente Vermelho.
Uma investigação da Forensic Architecture aponta que o carro da família, um Kia preto, foi alvejado por 335 tiros de tanque.
Layan, que sobreviveu à primeira onda do ataque, morreu primeiro, e Hind ficou sozinha por mais de três horas ao telefone, pedindo que o grupo de resgate a encontre e a leve em segurança.
Ainda de acordo com as informações reveladas pelos militares israelenses nesta quarta-feira, "após a análise dos achados" e "diante de supostas falhas relacionadas à questão da coordenação do deslocamento da ambulância do Crescente Vermelho", foi determinada a continuidade da apuração do incidente por meio de uma investigação da Polícia Militar de Israel.
Até então, os militares rejeitavam o envolvimento no caso, chegando a afirmar que não havia registro de tropas na região no momento do incidente.
Mais uma investigação, três arquivamentos
Além do caso de Hind, as autoridades israelenses confirmaram que outro caso de grande repercussão, que resultou nas mortes de 15 pessoas, incluindo paramédicos e bombeiros palestinos, em março de 2025, será levado adiante por autoridades policiais por haver "suspeita razoável da prática de uma infração".
Os militares descrevem o caso como uma operação de emboscada contra alvos do Hamas, em uma estrada da região, em que um veículo foi inicialmente alvejado.
Cerca de uma hora depois, outros cinco automóveis teriam se deslocado em alta velocidade até o local, sendo identificados como uma ameaça e também alvejados.
Minutos depois, um sétimo veículo foi atingido.
"Posteriormente, constatou-se que os veículos atingidos nos dois primeiros incidentes de disparos eram um caminhão de bombeiros e ambulâncias, e que o veículo atingido no terceiro incidente era um veículo palestino da ONU.
Nos três incidentes de disparos, 15 palestinos foram mortos, alguns deles profissionais de saúde e paramédicos.
Entre os mortos, conforme constatado pelos resultados da apuração, seis foram identificados como integrantes do Hamas.
Após o incidente, a força decidiu esmagar os veículos e cobrir os corpos com uma grade de ferro", diz o comunicado.
Em contrapartida, três outros casos foram arquivados após apuração militar, não prosseguindo para o processo criminal.
São eles a morte de sete funcionários da ONG World Central Kitchen (WCK) em Deir al-Balah, em abril de 2024; A morte de dois funcionários da MSF na área de Khan Yunis, em fevereiro de 2024, após o disparo de um projétil contra um prédio da organização médica; e a morte de dois trabalhadores do MSF na Cidade de Gaza, em novembro de 2023.
