Isolado em casa, mas requisitado por aliados: como foi o dia de Ciro Nogueira após ser alvo da PF
Após ser acordado às 6h da manhã por agentes da Polícia Federal à sua porta, munidos de mandados de busca e apreensão, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) passou o restante desta quinta-feira recluso em sua residência, em Brasília, mas em contato direto com aliados para tentar conter a crise política aberta pela operação.
Segundo relatos feitos sob reserva ao GLOBO, o parlamentar foi orientado por advogados a evitar deslocamentos e permanecer em casa ao longo do dia, enquanto sua equipe jurídica avaliava os desdobramentos da investigação.
A recomendação levou Ciro a cancelar planos iniciais. Ele chegou a cogitar uma visita à residência oficial do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), mas recuou após a orientação.
Ao longo do dia, o telefone do senador não parou. Ciro recebeu ligações de praticamente toda a bancada do PP na Câmara e no Senado, em um movimento descrito por aliados como uma “rodada” de contatos para alinhar o discurso do partido diante do avanço das investigações.
Deputados e senadores procuraram o presidente da legenda para se inteirar do caso, oferecer apoio e discutir a linha pública a ser adotada.
Além dos telefonemas, o senador também recebeu visitas presenciais. Estiveram em sua residência advogados, familiares e o líder do PP na Câmara, Doutor Luizinho (RJ), seu aliado de longa data. Luizinho deixou o local tentando evitar exposição, saindo abaixado dentro do carro.
O clima no entorno do senador foi descrito como de abatimento. Interlocutores afirmam que Ciro passou o dia recolhido, acompanhando o noticiário e em contato frequente com advogados e aliados mais próximos.
A avaliação entre integrantes do partido é que, embora já houvesse preocupação com o avanço das investigações, a operação desta quinta-feira surpreendeu parte do grupo pelo timing e pelo alcance.
Apesar da mobilização interna no PP, o movimento de solidariedade pública entre partidos do Centrão foi limitado e muitos evitaram procurar o senador. Dirigentes do Republicanos e do União Brasil afirmara, em tom de ironia, que o momento não é dos mais adequados para manifestações de solidariedade, numa sinalização de cautela para evitar associação ao senador.
A cautela reflete o ambiente político após a operação, com lideranças evitando associação direta ao caso diante da possibilidade de novos desdobramentos da investigação.
Como o GLOBO noticiou, há temor no Centrão de que a apuração avance sobre outros nomes do bloco: aliados do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, admitem reservadamente receio de que ele possa ser um dos próximos atingidos. Rueda aparece citado em mensagens envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e já reconheceu, em nota, ter prestado serviços de advocacia ao Banco Master por meio de seu escritório, afirmando que a atuação foi técnica e dentro da legalidade.
Segundo a Polícia Federal, Ciro é apontado como possível “destinatário central” de vantagens indevidas pagas por pessoas ligadas ao Master. Entre os elementos reunidos estão registros de pagamentos recorrentes, benefícios financeiros e a atuação do senador em favor de interesses do banco.
A investigação também cita uma emenda apresentada por Ciro em 2024 para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), apelidada nos bastidores de “emenda Master”. De acordo com a PF, mensagens apreendidas indicam que o texto teria sido elaborado dentro do banco e encaminhado ao senador.
