IronMan: Entenda por que natação que vitimou brasileira é etapa mais perigosa do triatlo

 

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A morte da triatleta brasileira Mara Flávia Araújo, de 38 anos, durante o Ironman Texas, no último sábado, reforça um alerta recorrente entre especialistas: a natação, embora seja a etapa mais curta do triatlo, é também a mais arriscada — e a que concentra a maior parte das mortes na modalidade.

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Mara submergiu no Lago Woodlands durante a etapa aquática da competição, que abre a disputa. O corpo foi localizado após uma operação de resgate que envolveu mergulhadores e um barco com sonar. Segundo o gabinete do xerife do condado de Montgomery, no Texas, investigações preliminares indicam afogamento.

Mara Flávia submergiu enquanto nadava em lago durante Ironman Texas

Reprodução/Instagram

"O Gabinete do Xerife do Condado de Montgomery (MCSO) confirma que Mara Flavia Souza Araujo, de 38 anos, brasileira, faleceu enquanto competia no evento Ironman em Woodlands, no sábado", diz o comunicado. "Investigações preliminares indicam que ela se afogou durante a etapa de natação da prova".

Nas redes sociais, a atleta já havia relatado dificuldades com a modalidade, que descrevia como o maior desafio em sua trajetória no triatlo.

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"Eu não sei nadar, meu pai sempre teve medo de deixar eu entrar no mar, isso me levou a um trauma, venho tentando quebrar a cada prova. Perdeu dois amigos surfistas quando era jovem. A natação definitivamente é a modalidade mais difícil para mim", escreveu, dois anos antes.

Ela também destacava o empenho nos treinos para superar a limitação: dizia ser, “com toda certeza”, a primeira a chegar e a última a sair da raia, frequentemente emendando séries adicionais e exercícios educativos.

Mara Flávia Araújo tinha 38 anos; triatleta morreu durante prova nos EUA

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Etapa mais curta, maior risco

Estudos internacionais indicam que mortes em triatlos são raras, mas quando ocorrem, acontecem majoritariamente na água. Uma pesquisa publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA), que analisou 2.971 eventos entre 2006 e 2008, registrou 14 mortes — 13 delas durante a natação.

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A explicação envolve uma combinação de fatores: largadas com grande número de atletas ao mesmo tempo, aumento súbito de adrenalina, menor familiaridade de muitos competidores com o nado em águas abertas e dificuldade de identificar rapidamente quem está em perigo.

Além disso, ao contrário do ciclismo e da corrida, o atleta não consegue descansar com facilidade ou pedir ajuda de forma eficaz na água. Em ambientes como lagos e mares, a baixa visibilidade também dificulta o resgate.

Autor do estudo, o cardiologista Kevin Harris apontou que a natação em triatlos difere significativamente do treino em piscina: há ondas, contato físico entre competidores e maior desorientação. Outro fator crítico é o tempo de resposta em emergências.

“O tempo é determinante na ressuscitação”, explicou. Segundo ele, a demora para retirar o atleta da água e iniciar atendimento adequado pode ser decisiva.

Relato de pânico e tentativa de resgate

Um voluntário que atuava na prova, o americano Shawn McDonald, descreveu momentos de tensão após o desaparecimento da brasileira. Ele e a filha, de 12 anos, estavam em uma prancha de stand-up paddle auxiliando atletas quando perceberam a emergência.

"Após a largada, remamos ao lado dos nadadores, oferecendo ajuda — ou uma prancha — a quem precisasse descansar um pouco. Então ouvimos um apito", contou. "Um grupo de voluntários mais jovens em um caiaque do outro lado do campo estava hasteando uma bandeira, soprando um apito e gritando por socorro. [...] Ouvi dizerem que ela havia afundado".

Ele relatou ter mergulhado repetidas vezes na tentativa de localizar a atleta.

"Todos disseram a mesma coisa: ela afundou. Bem aqui. Bem abaixo de nós. O pânico e o medo em seus rostos não me abandonarão por muito tempo".

"Mergulhei imediatamente e comecei a procurar. [...] Depois de cerca de um minuto debaixo d'água, senti o corpo dela com o pé. [...] Ela havia sumido. Não sei como descrever o que senti. Tentei de novo. E de novo. E de novo".

O corpo foi recuperado pouco depois das 9h (horário local). McDonald lamentou não ter conseguido salvá-la:

"O nome dela era Mara e ela era do Brasil. Ela era o mundo inteiro de alguém. Para a família dela: fizemos tudo o que podíamos. Sinto muito, de verdade, que não tenha sido o suficiente".

Condições do local e histórico

Autoridades locais afirmaram que nadar no Lago Woodlands normalmente não é permitido devido à “visibilidade zero” da água, sendo liberado apenas em caráter excepcional para eventos. Durante o resgate, um sonar identificou um “alvo” a cerca de três metros de profundidade.

A etapa de natação do Ironman Texas tem cerca de 4 quilômetros e é realizada em água doce, com temperatura média de 23°C. A prova completa inclui ainda 180 km de ciclismo e uma maratona de 42,2 km.

Em 2017, outro atleta, Glen Bruemmer, de 54 anos, também morreu durante a mesma competição, enquanto nadava no mesmo lago.

A organização do evento lamentou a morte em nota:

"Estamos tristes por confirmar a morte de uma participante da corrida durante a parte de natação do triatlo IRONMAN Texas de hoje. Enviamos as nossas mais sinceras condolências à família e amigos do atleta e vamos oferecer-lhes o nosso apoio à medida que passam por este momento tão difícil".

A irmã da atleta, Melissa Araújo, informou que Mara competia em triatlos há cerca de uma década e já havia participado de outras edições do Ironman. Ainda não há informações sobre o sepultamento no Brasil.

O caso reforça a necessidade de preparo específico para a etapa aquática — considerada por especialistas a mais técnica e imprevisível do triatlo — e de protocolos de segurança cada vez mais rigorosos nas competições.