Irmãos de Ciro Gomes vivem racha em disputa do Ceará e divergem sobre apoio a Elmano de Freitas

 

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A política cearense vive um novo desdobramento do racha na família Ferreira Gomes, que agora se divide sobre a reeleição do governador Elmano de Freitas (PT). Enquanto o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) lidera a oposição e busca unificar a direita, seus irmãos enfrentam divergências internas. De um lado, o senador Cid Gomes e a deputada estadual Lia Gomes, atual secretária estadual das Mulheres, permanecem alinhados ao governador. De outro, o ex-prefeito de Sobral Ivo Gomes anunciou o fim de seu compromisso com Elmano, que ganhará na campanha o apoio do ex-governador e ministro da Educação, Camilo Santana (PT). Camilo vai deixar o comando da pasta para ajudar o aliado no estado.

O estopim para a debandada de Ivo foi a aliança do petista com a família Rodrigues, do prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues, e do deputado Moses Rodrigues — rivais históricos dos Ferreira Gomes na região. Essa articulação, coordenada pelo PT nacional para atrair o União Brasil, incluiu a promessa de apoio à candidatura de Moses ao Senado. Ivo classificou o movimento como uma falta de consideração e uma traição pessoal, dado o desgaste que o apoio a Elmano já havia causado na relação com seus irmãos.

— Por que eu vou estar com uma pessoa que não tem por mim a menor consideração? Que se alia a pessoas que só querem o meu mal? — afirmou Ivo, sobre a reeleição de Elmano, à rádio local sobralense Coqueiros FM. — Para mim, hoje, eu não tenho mais compromisso com Elmano. Nenhum compromisso. Uma pessoa com quem eu trabalhei, cujo apoio causou uma imensa confusão na minha família, que repercute até hoje.

Apesar da irritação de Ivo, Elmano de Freitas afirmou em entrevista ao Diário do Nordeste que a aproximação com os Rodrigues teve o aval de Cid Gomes, alegando que não tomaria tal decisão sem consultar o senador. Sobre a declaração, Ivo disse que tem “conversando pouquíssimo” com Cid para “não ter problemas”. Lia Gomes, por sua vez, confirmou que segue a orientação de Cid no apoio ao governador, ressaltando que cada irmão tem sua individualidade e que evitar o tema é uma forma de não aprofundar a “confusão” familiar.

Ivo Gomes (E) e Elmano de Freitas (D) reunidos

Divulgação/Governo do Ceará

Distância mantida

Apesar da discordância, Ivo destacou que deixar de mergulhar na campanha de Elmano não significa que não votará nele contra Ciro Gomes na corrida estadual. O agora tucano comentou há duas semanas a postura do irmão, pela primeira vez, após agenda na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).

— É um elemento da dignidade que reconheço que ele (Ivo) tem. Não tem nada a ver comigo, nem com política do estado, nem governo, e muito menos conversamos sobre nada — disse o ex-ministro, que também negou dialogar com Cid. — Eu não vou fazer nenhuma tratativa com político, seja quem for, seja ele o mais qualificado, como é o senador Cid Gomes. Não se trata disso. Nós vamos juntar todo cearense de boa-fé.

Cid e Ciro estão afastados há cerca de três anos, quando discordaram sobre quem deveria ser o candidato do PDT no pleito estadual de 2022. O parlamentar defendia a continuidade da então governadora Izolda Cela, que assumiu após Camilo deixar o cargo, à medida que Ciro bancou a candidatura do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio. Na época, Ivo ficou ao lado de Cid, enquanto Lia concordou com Ciro no arranjo para derrotar Capitão Wagner (União).

O objetivo de Ciro era ter um palanque no estado em sua campanha à Presidência, o que poderia ter resistências da então governadora em meio ao apoio a Lula. O PT, que defendia ter o palanque de Izolda, rompeu com o PDT após o escolhido ser Roberto Cláudio e lançou Elmano, que terminou eleito com 54,02% dos votos, contra 31,72% de Wagner e 14,14% do ex-prefeito de Fortaleza.

Isolamento

Um ano depois, em novembro de 2023, Cid, Lia e Ivo saíram juntos do PDT e migraram para o PSB, isolando ainda mais o irmão. Junto com eles, debandaram cerca de 50 prefeitos de municípios cearenses, além de deputados estaduais e federais.

Apesar das divergências, Ciro e Cid fazem leituras similares sobre a saída de Camilo Santana da pasta de Educação para auxiliar a campanha de Elmano. Questionado sobre a possibilidade em dezembro, Camilo afirmou ao GLOBO que o projeto para o cargo gira em torno do atual governador, mas ressaltou que “a política é dinâmica”.

Para Ciro, a ida de Camilo para o estado demonstraria “falta de força” e musculatura política de Elmano para formar uma campanha robusta, o que poderia tornar o ministro candidato em seu lugar. Cid avalia que Camilo sempre foi “uma sombra” para o atual mandatário, e sua desincompatibilização do governo poderia gerar prejuízos na campanha. O ministro foi governador entre 2015 e 2022, quando deixou o posto para ser eleito ao Senado.

“Se ele sair, isso é terrível para o Elmano. O Camilo, como foi um excelente governador, saiu muito bem avaliado; ele não deixa de ser uma sombra para o governador Elmano. Agora, se ele sai do ministério, isso deixa de ser uma sombra e passa a ser um fantasma”, disse o senador ao jornal Folha de S. Paulo no mês passado.