Irã vai atacar empresas americanas de energia caso instalações iranianas sejam atingidas, diz chanceler

 

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O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou neste sábado (14) que, se suas instalações de energia forem atacadas na guerra entre Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica, o país atacará as instalações de empresas americanas na região. A declaração, divulgada pela televisão estatal, foi feita após ataques dos EUA à infraestrutura militar na ilha de Kharg, importante centro de exportação de petróleo bruto do Irã.

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— Se instalações iranianas forem alvejadas, nossas forças alvejarão instalações de empresas americanas na região, ou empresas nas quais os EUA detêm ações", alertou ele, prometendo que Teerã "agirá com cautela para garantir que áreas densamente povoadas não sejam alvejadas — afirmou Araghchi.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na noite de sexta-feira que Washington realizou ataques contra "todos os alvos militares" na ilha de Kharg. Em um post nas redes sociais, o republicano disse que a infraestrutura petrolífera teria sido preservada, mas ameaçou que algo que poderia mudar "caso os iranianos optem pelo bloqueio do Estreito de Ormuz", principal rota marítima para o transporte de navios petroleiros.

Mais cedo, Teerã já havia alertados que portos, docas e instalações militares ligadas aos Estados Unidos nos Emirados Árabes Unidos tornaram-se "alvos legítimos". A declaração foi foi acompanhada por novos episódios de agressões pontuais a diversos países do Golfo, além de relatos sobre um incêndio no importante porto de Fujairah, localizado a 120km de Dubai, uma das maiores instalações de armazenamento de petróleo do Oriente Médio.

Alvo histórico

Construída na década de 1960 pela petroleira americana Amoco, Kharg tornou-se o principal terminal de escoamento da produção do país graças ao desenho geográfico da costa iraniana: grande parte do litoral é rasa demais para receber superpetroleiros, o que transformou a ilha em um dos poucos pontos capazes de acomodar navios de grande porte. Essa centralização, porém, também transforma Kharg em um ponto de extrema vulnerabilidade em caso de conflito.

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Isso ficou evidente durante a Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, quando a ilha foi repetidamente bombardeada por forças de Saddam Hussein em uma tentativa de sufocar as exportações de petróleo persa. Apesar dos danos, Teerã conseguiu manter parte das operações ao longo do conflito, improvisando sistemas de carregamento no mar e reparando rapidamente a infraestrutura.

Há muito tempo, Washington trata Kharg como um alvo sensível, que também foi cuidadosamente evitado durante uma guerra que durou 12 dias entre Israel e Irã no ano passado. Embora um ataque ao terminal possa atingir diretamente as receitas do regime iraniano, o cálculo estratégico de uma ofensiva envolve riscos amplos, para além da possibilidade de disparada do preço do petróleo e de uma escalada militar sem precedentes. Destruir ou incapacitar a principal rota de exportação do país poderia também enfraquecer qualquer futuro governo.

Autoridades americanas indicam que o petróleo iraniano continua no centro do cálculo estratégico dos EUA. Funcionários do governo Trump disseram ao Financial Times que a estratégia de longo prazo poderia envolver garantir que as vastas reservas do país estejam sob controle de um governo mais alinhado ao Ocidente — um cenário que também ajuda a explicar a cautela em relação a ataques que possam destruir permanentemente a infraestrutura de exportação.

Há também um outro ponto: manter as operações do terminal à salvo da guerra passa ainda por uma leitura diplomática de evitar rusgas diretas com a China, principal compradora do petróleo iraniano. Interromper abruptamente esse fluxo poderia pressionar ainda mais os preços globais do produto e, ao mesmo tempo, tensionar as relações de Washington e seus aliados com Pequim

Até agora, a campanha militar contra o Irã tem sido dividida geograficamente entre os aliados. Os ataques israelenses têm se concentrado no oeste e no centro do país, mirando instalações militares e energéticas, enquanto forças dos EUA ficaram responsáveis pelo flanco sul da república islâmica e pelas águas territoriais do Golfo Pérsico, que inclui a Ilha de Kharg.

No último domingo, Israel atingiu os principais depósitos de combustível em Teerã, provocando grandes incêndios em tanques de gasolina e cobrindo a capital com uma densa cortina de fumaça. Kharg, no entanto, não foi alvo dos bombardeios, apesar de políticos israelenses defenderem ataques diretos à infraestrutura energética do Irã.