Irã rejeita acusações de Trump sobre 'sinistras ambições nucleares' de Teerã em discurso ao Congresso dos EUA
A República Islâmica do Irã classificou como "grandes mentiras" as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o país durante o discurso sobre o "Estado da União", proferido ao Congresso americano na noite de terça-feira. Embora as impressões do republicano sobre a nação persa fosse um dos temas mais aguardados por observadores internacionais, em meio a crescente tensão entre os dois países, Trump dedicou poucos minutos no pronunciamento de uma hora e 47 minutos — o mais longo da História. Ainda assim, o tempo foi suficiente para acusar Teerã de desenvolver mísseis capazes de atingir os EUA e de manter "sinistras ambições nucleares" — algo que o regime dos aiatolás nega publicamente.
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"O que eles [os EUA] dizem sobre o programa nuclear iraniano, os mísseis balísticos do Irã e o número de vítimas durante os protestos de janeiro é simplesmente uma repetição de grandes mentiras", escreveu o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano Esmaeil Baqaei em um post na rede social X nesta quarta-feira.
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A expectativa em torno da fala de Trump sobre a nação persa às vésperas de uma nova rodada de negociações diplomáticas indiretas, marcada para a quinta-feira em Genebra, era grande em um momento em que as ameaças de uma ação militar cresceram. O que se viu, em grande parte, foi a repetição de pontos de discussão vagos dos últimos dias. O presidente afirmou que o Irã já possui mísseis "que podem ameaçar a Europa" e suas bases no exterior, e acusou o país de "trabalhar na construção de mísseis que em breve chegarão aos EUA".
— [O Irã está] novamente perseguindo suas ambições sinistras — disse Trump, afirmando que Teerã teria retomado os trabalhos para a construção de uma arma nuclear após o bombardeio dos EUA às instalações nucleares do país em junho. — Minha preferência é resolver essa questão por meio da diplomacia, mas uma coisa é certa: eu jamais permitirei que o principal patrocinador estatal do terrorismo no mundo, que é, de longe, o Irã, tenha uma arma nuclear. Eles querem fazer um acordo, mas não ouvimos estas palavras-chave: 'Nunca teremos uma arma nuclear'.
Plenário do Congresso dos EUA antes do discurso do presidente Donald Trump sobre o Estado da União
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Ao fim do discurso, o presidente americano pouco fez para explicar por que havia reunido o maior poderio bélico no Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003. No fim da semana passada, o presidente havia falado sobre a possibilidade de um ataque limitado ao Irã, mas não deixou claro qual seria o objetivo imediato ou os alvos a serem atingidos com a ação militar.
A retórica agressiva e as tensões militares não interromperam o delicado processo diplomático que está sendo mediado pelo sultanato de Omã. A reunião de quinta-feira ganhou um peso-chave com a informação de fontes americanas de que os principais negociadores americanos, o enviado especial Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner, fariam uma avaliação ao final dela sobre a real intenção do Irã de abrir mão de suas pretensões nucleares — e que isso definiria a ordem para o ataque ou não.
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A parte iraniana afirmou há poucos dias que um texto inicial de acordo estava sendo finalizado para ser discutido com os EUA, com uma possível resolução para o caso. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, havia declarado anteriormente que seu país está "determinado a chegar a um acordo justo e equitativo o mais rápido possível".
"Temos uma oportunidade histórica para alcançar um acordo sem precedentes que atenda às preocupações de ambos os lados e aos interesses mútuos", escreveu a autoridade na terça-feira, antes do discurso de Trump. "Um acordo está ao nosso alcance, mas somente se a diplomacia for priorizada".
Paralelo com a Venezuela
Embora Trump tenha dito pouco sobre o Irã em seu discurso, ele foi muito mais prolixo ao tratar de sua mais recente grande intervenção militar: a Venezuela. Com grande riqueza de detalhes, Trump narrou a participação do piloto de helicóptero Eric Slover, ferido na operação de janeiro para capturar o líder chavista Nicolás Maduro. O sangue do piloto "estava escorrendo pelo corredor" do helicóptero enquanto ele pousava, relatou Trump.
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Foi um sinal de que o presidente continua encantado pelas forças militares dos EUA, por seus poderes como comandante-em-chefe e pela impressão que ele acredita que suas demonstrações de força causaram ao redor do mundo. Ele enfrentou pouca reação política de seus apoiadores por suas repetidas intervenções militares, embora alguns republicanos estejam preocupados que Trump pareça estar focado demais na política externa.
Ainda de acordo com Trump, líderes estrangeiros disseram a ele em chamadas telefônicas que o ataque à Venezuela foi "muito impressionante".
— Todos assistiram. Eles viram o que aconteceu — disse ele. (Com NYT e AFP)
