Irã marca primeira execução de manifestante em meio à repressão a protestos

 

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O Irã marcou para esta quarta-feira (14) a primeira execução de um manifestante desde o início da onda de protestos contra o regime dos aiatolás, segundo uma organização humanitária curdo-iraniana. O manifestante Erfan Soltani, de 26 anos, preso por sua ligação com atos contra o governo na cidade de Karaj, deverá ser executado pelas autoridades iranianas.

De acordo com a ONG, a família foi informada de que a sentença de morte é definitiva. Ainda segundo a entidade, Erfan não teve acesso a um advogado e os familiares não foram avisados sobre qualquer audiência judicial para o julgamento do caso.

O The New York Times ouviu um alto funcionário do Ministério da Saúde iraniano que, sob condição de anonimato, afirmou que cerca de 3 mil pessoas já foram mortas em todo o país.

Comunicação parcialmente restabelecida

A comunicação com o exterior começou a ser parcialmente retomada no Irã nesta terça-feira (13), dias após o governo cortar os sinais de telefone e internet como parte da repressão aos protestos que se espalharam pelo país.

Com isso, iranianos passaram a relatar, por telefone, episódios de violência cometidos pelas forças de segurança. Alguns desses relatos foram colhidos pelo The New York Times.

Segundo testemunhas, agentes do governo abriram fogo de forma indiscriminada contra manifestantes desarmados. Atiradores teriam sido posicionados em telhados no centro da capital, Teerã, disparando contra multidões.

Iranianos que falaram à agência Associated Press relataram que o acesso a aplicativos de mensagens segue bloqueado. Os contatos têm sido feitos apenas por ligações telefônicas e de forma anônima, por medo de represálias. Segundo os primeiros relatos, Teerã está com as ruas quase desertas e sob forte presença policial.

Reação internacional

Nesta terça-feira, o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos afirmou estar “horrorizado” com a repressão das forças de segurança iranianas aos protestos pacíficos.

A agência Iran Human Rights estima que mais de 10 mil pessoas tenham sido presas até o momento. O governo iraniano não divulga regularmente números oficiais sobre a atuação policial durante as manifestações. Grande parte do país segue com acesso limitado à internet, o que dificulta a obtenção de informações.

De acordo com grupos de direitos humanos, os protestos já se espalharam por mais de 100 cidades e vilas nas 31 províncias do Irã. Segundo Alexandre Uehara, coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPM, o atual momento é mais delicado para o governo iraniano do que em protestos anteriores.

“A insatisfação está muito maior. Existe hoje um enfraquecimento do governo iraniano em razão militar. No ano passado, houve ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. O país também perdeu aliados importantes, como Hezbollah e Hamas, e sofre economicamente com as sanções internacionais. Está mais complicado para o aiatolá se manter no poder.”

Declarações de Trump e impacto para o Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira que os manifestantes iranianos deveriam continuar ocupando as ruas e os encorajou a tomar o controle das instituições governamentais. Ele pediu que fossem registrados os nomes de “assassinos e abusadores” ligados ao regime e afirmou que “a ajuda está a caminho”.

A Embaixada do Brasil em Teerã informou que mantém contato permanente com a comunidade brasileira no país, estimada em 85 pessoas pelo Itamaraty. Segundo o governo brasileiro, não há registro de cidadãos brasileiros atingidos ou afetados pelos protestos até o momento.

O governo Lula aguarda a publicação de um decreto de Donald Trump para avaliar os impactos do novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos em razão da crise no Irã. O republicano anunciou uma sobretaxa de 25% sobre exportações aos EUA de países que mantêm negócios com Teerã.

O Brasil pode ser impactado pela medida. Em 2025, as exportações brasileiras para o Irã somaram quase três bilhões de dólares, com destaque para milho, soja e açúcar. Embora o Irã não esteja entre os 20 principais parceiros comerciais do Brasil, é um dos principais destinos das exportações brasileiras no Oriente Médio.

Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Irã, seguida por Iraque, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Índia.

Antes de anunciar o tarifaço, Donald Trump havia ameaçado atacar o Irã, alegando a necessidade de conter a repressão violenta aos protestos, que já entram na terceira semana. O movimento começou como uma insatisfação com o custo de vida e evoluiu para uma das maiores ondas de contestação ao regime dos aiatolás desde 1979.