Irã insiste que fim da guerra no Líbano é parte de entendimento com os EUA, mas acordo deixa perguntas sem resposta

Irã insiste que fim da guerra no Líbano é parte de entendimento com os EUA, mas acordo deixa perguntas sem resposta

Fonte: Bandeira



Acabar com a guerra no Líbano e em todos os demais fronts é “a questão mais importante” do acordo entre o Irã e os Estados Unidos, disse nesta terça-feira o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi. Anunciado com entusiasmo pelo presidente Donald Trump no domingo, o memorando de entendimento entre Washington e Teerã que pretende acabar com a guerra, no entanto, deixa muitas questões sobre o Líbano sem respostas.

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— Do nosso ponto de vista, há duas partes neste memorando: de um lado, Estados Unidos e Israel e, do outro, Irã e Hezbollah — disse Araghchi em entrevista coletiva. — Esta é, talvez, a questão mais importante do memorando: a declaração de um fim imediato e permanente da guerra em todos os fronts, incluindo o Líbano. Pôr fim à guerra no Líbano é parte inseparável do fim completo da guerra.

No domingo, antes de Washington e Teerã anunciarem o acordo provisório, Israel voltou a atacar a capital libanesa — disparos que Trump citou como “pequenos e sem importância”. Já na segunda, novos ataques deixaram uma pessoa morta no Líbano. Autoridades militares em Israel se recusaram a comentar o caso, enquanto um membro do Hezbollah pediu, em declaração ao New York Times, que moradores do sul libanês adiassem qualquer retorno para suas casas até que estivesse claro que os ataques seriam encerrados.

Em notas oficiais, autoridades israelenses criticaram os termos negociados por aliados americanos, antecipando que suas Forças Armadas não irão se retirar do Líbano ou de outros territórios sobre os quais avançaram desde o ataque terrorista do Hamas, em outubro de 2023. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que Israel atacará o Irã com “grande força” caso Teerã responda aos ataques israelenses no Líbano, enquanto o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, classificou o acordo como “ruim para Israel”.

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A guerra foi iniciada em 28 de fevereiro após ataques coordenados entre EUA e Israel contra o Irã. O Líbano foi arrastado para o conflito quando, em 2 de março, o Hezbollah começou a lançar mísseis contra o território israelense em solidariedade ao Irã. Israel respondeu com uma campanha em larga escala de ataques aéreos, uma invasão terrestre e a destruição de diversas localidades no país. Ao todo, cerca de 3,7 mil pessoas morreram no Líbano e mais de 1 milhão foram deslocadas.

— Sem uma retirada das forças israelenses dos territórios que ocuparam neste conflito, o acordo não estará completo — disse Araghchi. — Qualquer ataque por parte do regime sionista contra o Líbano, de agora em diante, e a ocupação contínua de territórios libaneses a partir de agora serão considerados uma violação do memorando de entendimento.

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, comemorou a inclusão do país na trégua e disse esperar sua implementação definitiva, enquanto o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, agradeceu a Washington e Teerã pela “insistência em incluir uma cláusula essencial e vinculante sobre o fim da agressão israelense contra o Líbano”. O Hezbollah não reivindicou, nas últimas horas, novos ataques.

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As informações que circulam sobre o memorando, porém, não mencionam nada sobre uma retirada israelense do sul do Líbano. Israel controla uma faixa de território libanês ao longo de sua fronteira, e o Hezbollah enviou reforços ao sul do rio Litani após o início da guerra. Segundo Karim Bitar, professor de Oriente Médio na Universidade Sciences Po de Paris, trata-se da maior invasão israelense no Líbano desde a retirada de Israel do país, em 2000.

— O acordo não parece envolver Israel, o que, no momento, significa que não é parte do pacto. Dezenas de milhares de soldados israelenses estão no sul do Líbano, onde ocupam posições fixas — disse Bitar à AFP. — [Ao mesmo tempo,] o Irã não parece ter se comprometido a acabar com seu apoio e financiamento ao Hezbollah.

Para o especialista militar Riad Kahwaji, “o Hezbollah não aceitará abrir mão das armas e a crise se prolongará”. Ele antecipa que isso pode levar à instabilidade política, “especialmente agora que o Hezbollah considera que, por meio do Irã, saiu vitorioso com este acordo”.

Líbano e Israel iniciaram negociações diretas em Washington em abril para acabar com as hostilidades e desvincular o Líbano da guerra regional. Uma nova rodada de conversas está programada para este mês. O premier libanês, Nawaf Salam, disse que seu país intensificará os esforços nas negociações “para assegurar a plena retirada israelense”.

— O Líbano pode se ver novamente como bode expiatório que paga o preço tanto da inexperiência americana, do cinismo iraniano e da soberba israelense — advertiu Bitar.

O acordo entre Irã e Estados Unidos deve ser assinado na sexta‑feira na Suíça. A partir daí, entrará em vigor um cessar-fogo de pelo menos 60 dias destinado a criar condições para negociações técnicas sobre os temas que continuam sem solução. O governo iraniano será representado pelo principal negociador do país e presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, confirmou nesta terça‑feira o vice‑chanceler Majid Takht Ravanchi. Ele também revelou que os Estados Unidos serão representados pelo vice‑presidente JD Vance.

(Com AFP)