Irã diz ter depositado no Banco Central primeiras receitas de pedágio no Estreito de Ormuz: ‘Nós definimos as regras’
Em meio às tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, o vice-presidente do Parlamento do Irã, Hamidreza Haji Babaei, afirmou nesta quinta-feira que as primeiras receitas arrecadadas com pedágios cobrados por navios que utilizam a rota estratégica foram depositados na conta do Banco Central do país. Segundo a agência Tasnim News, ele não detalhou como os valores foram coletados e nem quem efetuou os pagamentos. A declaração, no entanto, foi feita em meio aos bloqueios navais de Washington e Teerã, que não dão sinais de recuo.
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Antes do atual cessar-fogo, o Irã havia limitado a passagem pelo estreito ao que chamou de países “amigáveis” e discutia a possibilidade de cobrar taxas de trânsito. Na época, no entanto, não houve esclarecimento sobre quanto — ou mesmo se — essas tarifas estavam sendo aplicadas. No fim de março, a embaixada iraniana na Índia chegou a negar relatos de que Teerã cobraria cerca de US$ 2 milhões por embarcação.
Ainda assim, outro parlamentar iraniano disse ter ouvido de fontes confiáveis que o país já arrecadou taxas de navios que cruzaram o estreito. Citado pela BBC, Alireza Salimi afirmou que o valor e as taxas cobradas de cada embarcação “variam conforme o tipo e o volume da carga”, além do nível de risco que representam. Ele acrescentou que é o Irã quem “determina como e em que medida essas taxas são cobradas”:
— Nós definimos as regras — disse.
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O transporte marítimo comercial pelo Estreito de Ormuz tem sido severamente afetado desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, com a capacidade do Irã de restringir o tráfego pela rota passando a ser vista como uma importante vantagem estratégica. Nesse período, mais de 30 embarcações foram alvo de ataques nas águas do Golfo Pérsico, do estreito e do Golfo de Omã. Em condições normais, cerca de um quinto do petróleo mundial e do gás natural liquefeito passa pela via, além de fertilizantes, alumínios e outros produtos agrícolas.
Apesar de ter anunciado na terça-feira que manteria o cessar-fogo por um prazo indeterminado, o presidente Donald Trump reforçou que o bloqueio imposto pelos EUA aos portos iranianos seria mantido. Autoridades iranianas, por sua vez, afirmam que não retomarão as negociações enquanto a medida estiver em vigor, com a mídia estatal citando o Ministério das Relações Exteriores ao afirmar que o país monitora os desdobramentos e que suas forças estão prontas.
— O objetivo [do bloqueio naval] é a alavancagem econômica que mantemos agora sobre o Irã — disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, na noite de quarta-feira. — O ponto central é o bloqueio naval. Estamos estrangulando sua principal fonte de receita.
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O impasse foi intensificado na quarta-feira, após o Irã disparar contra três embarcações de carga, apreendendo duas delas. Mais tarde, a imprensa iraniana identificou os navios como MSC Francesca e Epaminondas. Nenhum deles era americano ou israelense, o que, segundo Leavitt, significa que a ação não violou o cessar-fogo, que tem sido amplamente pressionado. Nesta quinta, os EUA apreenderam mais um petroleiro associado ao contrabando de petróleo iraniano.
“Continuaremos a aplicar a fiscalização marítima global para desarticular redes ilícitas e interceptar embarcações que forneçam apoio material ao Irã, onde quer que operem”, disse o Departamento de Defesa em nota. Dados de rastreamento indicam que o petroleiro apreendido, o Majestic X, estava no Oceano Índico, entre Sri Lanka e Indonésia, próximo da região onde outro petroleiro, o Tifani, havia sido apreendido anteriormente. O navio tinha como destino Zhoushan, na China.
“O conflito entrou em uma nova fase centrada no Estreito de Ormuz”, afirmaram analistas da Bloomberg liderados por Becca Wasser, em relatório, acrescentando: “O bloqueio americano provavelmente permanecerá. Mas não será eficaz para atingir o objetivo estratégico de pressionar economicamente o Irã até a capitulação. A tolerância de Teerã à dor é significativa quando sua sobrevivência está em jogo”.
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A Casa Branca sustenta que o bloqueio está estrangulando as exportações de petróleo do Irã. Segundo o governo, o país estaria deixando de arrecadar US$ 500 milhões por dia — número para o qual não apresentou evidências. Trump afirma que a medida só será encerrada quando o Teerã aceitar um acordo para encerrar a guerra, que já deixou milhares de mortos, devastou grande parte do Oriente Médio e provocou a disparada nos preços dos combustíveis. Nesta quinta, o petróleo Brent subiu pelo quarto dia consecutivo, ultrapassando US$ 103 por barril.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou na quarta-feira que o país está aberto ao diálogo, mas que o “bloqueio e as ameaças são os principais obstáculos a negociações genuínas”. Algumas embarcações ligadas ao Irã parecem ter cruzado a linha de navios de guerra dos EUA no Golfo de Omã, fora do Estreito de Ormuz. Pelo menos dois petroleiros iranianos totalmente carregados deixaram o Golfo Pérsico nesta semana, segundo dados da empresa de inteligência Vortexa.
O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, também afirmou que o bloqueio aos portos do país e as ameaças de bombardeio violam o cessar-fogo e dificultam qualquer avanço diplomático. Ao mesmo tempo, o Irã tem o compromisso, nos termos da trégua, de “abrir completamente” o corredor marítimo — algo que, segundo autoridades, só ocorrerá em condições definidas por Teerã. (Com Bloomberg)
