Irã anuncia mobilização de Forças Navais Especiais para costa sul em preparação contra potencial invasão por terra dos EUA
A mídia estatal do Irã anunciou neste domingo a mobilização de Forças Especiais Navais ao longo da costa sul do país, finalizando sua preparação para uma potencial invasão por terra de forças americanas, depois de o país não ter alcançado com os EUA no Paquistão um acordo para pôr fim à guerra. Segundo o jornal Wall Street Journal, a rede estatal iraniana Student News Network publicou fotos de soldados com uniformes camuflados perto de uma costa arenosa para "conter qualquer possível infiltração inimiga no território do país".
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O anúncio ocorreu paralelamente à declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, em sua plataforma Truth Social, de que a Marinha americana vai começar a bloquear "todos os navios que tentem entrar ou sair do Estreito de Ormuz", uma via navegável crucial por onde passam 20% do petróleo e gás mundial. Um bloqueio naval pode ser considerado um ato de guerra pelo Irã. Seis dias depois de Washington e Teerã terem concordado com um cessar-fogo temporário de duas semanas para permitir negociações para um acordo de paz, o republicano também afirmou que o Exército dos EUA vai "acabar com o pouco que resta do Irã".
Trump condicionou o cessar-fogo de duas semanas ao fim do controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, cujo bloqueio fez com que os preços globais do petróleo disparassem mais de 50% durante o conflito de um mês, que começou no final de fevereiro. No sábado, o Pentágono afirmou que dois navios de guerra dos EUA cruzaram o Estreito de Ormuz para iniciar uma operação de remoção de minas terrestres dessa importante via navegável. O Irã negou a alegação. Na prática, apenas alguns navios transitaram pela via desde o início da trégua. Trump afirmou que a Marinha dos EUA "buscaria e interceptaria" qualquer embarcação que pagasse um pedágio ao Irã para conseguir atravessar a passagem.
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Em entrevista à Fox News neste domingo, Trump disse que o Irã estava “extorquindo o mundo” e que os EUA poderiam se beneficiar com a venda de petróleo.
— Não precisamos do estreito, mas outros países precisam — disse ele. — Acreditamos que vários países também nos ajudarão com isso, mas estamos impondo um bloqueio total. Não vamos deixar o Irã lucrar com a venda de petróleo.
Os líderes iranianos não deram qualquer indicação de que pretendem relaxar o controle sobre a hidrovia, que consideram uma moeda de troca crucial. Em uma postagem desafiadora nas redes sociais no início deste domingo, Ali Akbar Velayati, membro da equipe de negociação do Irã, afirmou que “a chave” para o Estreito de Ormuz “está firmemente em nossas mãos”.
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Washington ordenou o envio de milhares de fuzileiros navais e tropas aerotransportadas para o Oriente Médio, com novos destacamentos previstos após o início do cessar-fogo de duas semanas com o Irã. Embora o presidente dos EUA não tenha afirmado que pretende enviar tropas terrestres, esses destacamentos dariam aos EUA mais opções para ataques ou incursões por terra e desencadearam preparativos no Irã, que nas últimas semanas reforçou suas defesas aéreas, instalou minas e preparou bunkers nas ilhas ao longo de sua costa.
E grande parte da frota de embarcações ágeis da Guarda Revolucionária Iraniana, projetada para controlar o Estreito de Ormuz, permanece intacta, representando uma ameaça mesmo após os EUA terem destruído a maior parte da Marinha iraniana.
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Editoria de Arte/O Globo
Negociações no Paquistão
Mediadas pelo Paquistão, as negociações deste fim de semana representaram o encontro presencial de mais alto nível entre líderes americanos e iranianos desde a Revolução Islâmica do Irã, em 1979.
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O vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação dos EUA durante a maratona de negociações no Paquistão, afirmou que os dois lados não chegaram a um acordo porque Teerã se recusou a abandonar seu programa de armas nucleares. Ele partiu para os EUA no início da manhã deste domingo.
O principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que Washington não conseguiu conquistar sua confiança, enquanto a emissora estatal iraniana atribuiu o fracasso às "exigências descabidas" dos EUA em relação à questão nuclear e ao Estreito de Ormuz. Teerã afirmou que nenhuma nova rodada de negociações foi agendada.
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Analistas afirmaram que as questões que dividiam os dois países eram tão complexas — e suas diferenças tão arraigadas — que fechar um acordo em uma única rodada de negociações era altamente improvável. Mas nem o Vance nem Ghalibaf descartaram outra rodada de negociações antes do término do cessar-fogo de duas semanas, em 21 de abril.
Ghalibaf afirmou nas redes sociais que a profunda desconfiança entre os dois lados representava um obstáculo para se chegar a um acordo. Os Estados Unidos não conseguiram conquistar a confiança da delegação iraniana nesta rodada de negociações, disse ele. "Agora é hora de decidir se eles podem ou não ganhar nossa confiança."
Trump, que assistia a uma luta do UFC na Flórida durante as negociações, declarou o cessar-fogo na semana passada em parte para amenizar o impacto da perda de acesso a 20% do suprimento mundial de petróleo. Os outros dois pontos-chave eram o destino de quase 408 kg de urânio altamente enriquecido e a exigência do Irã de que cerca de US$ 27 bilhões em receitas congeladas e mantidas no exterior fossem liberados, disseram as autoridades.
Com New York Times
