Irã anuncia julgamentos televisionados de manifestantes e marca primeira execução ligada aos protestos
O chefe do Judiciário do Irã anunciou nesta quarta-feira (14) que o regime pretende televisionar os julgamentos de manifestantes presos, em um esforço para dar uma resposta rápida à onda de protestos que atinge o país. A medida é anunciada em meio a uma repressão violenta que já deixou mais de 3.400 mortos, segundo a ONG Iran Human Rights. Entidades de direitos humanos alertam que o número real de vítimas pode ser ainda maior.
Milhares de pessoas seguem detidas, enquanto o país permanece praticamente isolado do exterior, com bloqueio ao acesso à internet. No campo diplomático e militar, a tensão também aumentou. Um alto funcionário iraniano afirmou à agência Reuters que o país vai atacar bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio caso seja bombardeado e que governos vizinhos já foram avisados dessa decisão.
A declaração ocorre em meio a novas ameaças do ex-presidente americano Donald Trump de intervir no país em apoio aos manifestantes. Segundo três diplomatas ouvidos pela Reuters, parte do efetivo americano na base aérea no Catar foi aconselhada a deixar o local até a noite desta quarta-feira. As fontes ressaltam que se trata de uma mudança de postura e não de uma evacuação em larga escala, como a ocorrida antes de um ataque iraniano com mísseis em junho do ano passado, após bombardeios dos Estados Unidos a instalações nucleares no Irã.
A base no Catar é a maior dos Estados Unidos no Oriente Médio e abriga cerca de 10 mil militares. Um oficial americano disse à Reuters que os Estados Unidos também estão retirando parte do pessoal de outras bases na região.
A crise também afetou as negociações diplomáticas. Os contatos diretos entre o ministro das Relações Exteriores do Irã e o enviado especial dos Estados Unidos foram suspensos, segundo a agência, o que reflete o agravamento das tensões entre os dois países. Até o momento, a embaixada dos Estados Unidos em Doha e o Ministério das Relações Exteriores do Catar não se pronunciaram.
No campo interno, as autoridades iranianas marcaram para esta quarta-feira a primeira execução relacionada à nova onda de protestos. O jovem Erfan Soltani, de 26 anos, deve ser enforcado por participação nas manifestações, segundo grupos de direitos humanos. De acordo com essas entidades, ele foi submetido a um julgamento acelerado, sem direito à presença de advogados, sem acesso a garantias básicas e com pouca transparência.
Donald Trump vem prometendo “medidas muito fortes” contra o Irã caso o país leve adiante a execução de manifestantes e afirma que “ajuda está a caminho”.
No Brasil, o Itamaraty divulgou uma nota em que lamenta as mortes, mas sem condenar explicitamente a repressão. O governo brasileiro afirmou que acompanha os acontecimentos com preocupação, defendeu um diálogo construtivo e disse que cabe aos próprios iranianos decidir, de forma soberana, o futuro do país.
