IPCA-15 volta a acelerar e afasta inflação da meta, apontam economistas

IPCA-15 volta a acelerar e afasta inflação da meta, apontam economistas - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

alta gráfico positivo Freepik O resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de setembro veio acima do esperado pelo mercado, com alta de 0,7% na chamada prévia da inflação brasileira. Para os economistas, a surpresa, no entanto, afasta ainda mais as chances de cumprimento da meta de inflação proposta pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3% ao ano, com limite superior em 4,5%. Em setembro, o IPCA-15 acumula alta de 4,47% em 12 meses.

"A gente não vai conseguir cumprir a meta, principalmente em um ano de grande incerteza e com El Niño batendo na porta. Onde poderia haver um refresco, que é na agricultura, pode não haver pelo prejuízo que esse fenômeno traz para o agro", afirma André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-IBRE).

A avaliação é corroborada pelo economista do Santander Adriano Valladão, que projeta que o país deve encerrar o ano com a inflação acima do teto da meta. "Nossa previsão é de 5% para esse ano e talvez até suba um pouquinho até o primeiro trimestre do ano que vem", explica o economista. A aceleração da inflação é esperada por conta dos efeitos do El Niño e do choque nos preços do petróleo.

"A gente já tinha essa aceleração esperada e projetamos que, já a partir de outubro, a inflação fique acima do teto da meta. Mas, pelo o que a gente tem de trajetória, a inflação começa a arrefecer no segundo trimestre de 2027. É uma aceleração pontual, puxada por efeitos climáticos e possíveis choques de oferta", avalia.

Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA-15 voltou a acelerar em 0,7%, após o índice registrar deflação de 0,31% em agosto e estabilidade de 0,06% em julho. O resultado ficou bem acima da expectativa do mercado, que girava em torno de 0,55%, segundo a mediana de 27 projeções de instituições financeiras coletadas pelo VALOR DATA. O teto das projeções era de 0,65%.

O índice foi puxado pelo grupo Habitação (alta de 2,07%), no qual o principal e maior impacto individual do mês (0,29 ponto) veio da energia elétrica residencial. Após queda de 6,25% em agosto, as faturas de energia subiram 7,42% em setembro, com o fim da incorporação do "bônus de Itaipu", creditado nas faturas emitidas no mês anterior.

Além disso, os preços do grupo Alimentação e bebidas voltaram a subir em setembro (0,4%), após deflação registrada em julho (-0,66%) e em agosto (-0,57%). O mesmo movimento foi observado no subgrupo de alimentação no domicílio. Os preços subiram 0,38% em setembro, após quedas de 1,14% em julho e de 0,97% em agosto. Na visão do coordenador dos índices de preços do FGV-Ibre, a alta no grupo ainda não aponta para uma tendência de aumento nos preços dos alimentos no longo prazo.

"Inflação veio um pouco acima, mas não acho que acende uma luz vermelha. A alimentação veio acima do que esperávamos e tomate, arroz e carne pesam muito no orçamento. Mas ainda não dá para saber se o destino desses preços é de alta", afirma. Segundo o IBGE, os principais itens que contribuíram para o aumento no grupo de Alimentos e bebidas foram justamente o tomate (20,76%), o arroz (2,39%) e as carnes (1,30%).

Nesse sentido, Braz explica que nesta época do ano o clima prejudica alimentos in natura. No caso, o frio atrasa o amadurecimento do tomate e o aumento das chuvas no Sul prejudica a safra do arroz. Ainda assim, o economista reforça que o cenário não é definitivo e se comporta de maneira diferente a depender do item.

"O destino desses itens ainda não está escrito, uns podem devolver aumento, ou continuar subindo. Quando entra uma massa de ar quente, a oferta de tomate já aumenta no mercado. Então, não necessariamente a alta no preço é uma tendência. Mesma coisa o arroz, que tem condições de safra que podem sofrer com os efeitos do El Niño, como no Sul chove acima da média. Isso pode comprometer a safra e o arroz ser um item que pode manter um aumento por mais tempo", explica.

No caso das carnes, o coordenador do FGV Ibre ressalta que, no atual momento do ciclo da pecuária, já era esperada menor oferta de carne para abate. No entanto, ele aponta as recentes restrições da China à carne brasileira como fator que pode fazer a oferta aumentar no mercado interno, desacelerando os preços.

A China não impôs um embargo total à carne bovina brasileira em 2026, mas estabeleceu um sistema de cotas anuais com salvaguarda tarifária de 1,106 milhão de toneladas, aplicando uma sobretaxa de 55% sobre o volume que exceder esse limite.

Valladão, do Santander, também avalia que o IPCA-15 acima do esperado não trouxe uma notícia tão negativa, pois a alta nos preços caiu sobre itens mais sensíveis à atividade econômica.

"De fato, o IPCA-15 surpreende para cima. Nossa alta era puxada apenas por energia elétrica e cigarro. A gente foi surpreendido em passagem aérea, gasolina, alimentação no domicílio e transporte por aplicativo. A surpresa assusta, mas não tanto porque ela está explicada nesses quatro itens, que são mais voláteis. É uma surpresa que ficou mais restrita à parte volátil", explica o economista do Santander.

No grupo Transportes (0,60%), o resultado foi influenciado pelas passagens aéreas, com alta de 9,82%. No grupo Despesas pessoais (0,96%) sobressai o aumento no preço do subitem cigarro (14%), a partir de 1° de agosto.

O único tópico que não foi consenso entre as instituições financeiras diz respeito aos prováveis impactos que a inflação acima do esperado pode ter na continuidade do ciclo de afrouxamento monetário praticado pelo Banco Central (BC).

Para Júlio Barros, economista do Daycoval, o IPCA-15 de setembro trouxe desafios adicionais para um corte de juros na próxima reunião. O banco projeta manutenção da taxa em 13,75% em novembro.

"No âmbito geral, a inflação de hoje mostra um resultado desafiador para o Banco Central por conta dos eventos temporários que beneficiaram a inflação recentemente para baixo, agora vem pro lado altista da inflação, contribuindo para a pressão altista, e o núcleo da inflação, que embora tenha vindo em linha com o que a gente esperava, ainda segue num patamar desafiador alto e se eleva ali na variação interanual", diz o economista em comunicado.

A projeção é corroborada por Gabriel Pestana, economista da Genial Investimentos. Ele avalia que a combinação de serviços mais fortes, núcleos acima do esperado e riscos em alimentos e gasolina sinaliza uma inflação pior para o fim do ano. “Se esses sinais persistirem, o Banco Central terá mais motivos para esperar antes de cortar novamente”, afirma em relatório.

Em contraponto, o coordenador do FGV Ibre, André Braz, avalia que o avanço inflacionário na prévia de setembro não deve afetar a continuidade do ciclo de cortes, com o BC promovendo mais um corte de 0,25 ponto em novembro. A avaliação é reforçada pelo economista do Santander.

"Não acho que essa surpresa seja o que vai fazer de fato diferença. No último relatório de política monetária, o Banco Central aponta surpresas baixistas no IPCA. Boa parte disso pelo bônus de Itaipu. Hoje, temos uma surpresa para cima por itens voláteis. Não deve ser uma surpresa que faria mudar a cabeça do BC, precisaria ter mais elementos para fazer com que as coisas mudassem", afirma Adriano Valladão.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Valor