Ipanema S/A: de padarias a consultórios médicos, Rua Visconde de Pirajá tem mais de 7.800 endereços comerciais

 

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O cheiro do pão francês quentinho — a padaria tira do forno entre 6 mil e 7 mil unidades por dia — é um convite ao pecado capital da gula na esquina concorrida. Massas, doces e até o clássico frango assado são outros atrativos locais. Para resistir à tentação, no entanto, basta atravessar a rua e buscar abrigo na vizinha Igreja Nossa Senhora da Paz. Sim, você está em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro, no encontro das ruas Joana Angélica e Visconde de Pirajá. A via batizada com o título do nobre baiano que lutou pela Independência do Brasil é a principal artéria do bairro e vive momento especial no comércio carioca.

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Dados da Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização da prefeitura apontam que a rua é a terceira da cidade com maior número de CNPJs ativos registrados na Receita Federal — são 7.868 —, entre bares, restaurantes, escritórios de empresas, consultórios médicos e outras atividades. As avenidas Rio Branco (7.331) e República do Chile (4.012) aparecem, respectivamente, como quarta e quinta colocadas neste ranking. Em número de cadastros ativos, a via de Ipanema, que tem 2 km de extensão, só fica atrás da Avenida das Américas, na Barra (22.843), e da Praia de Botafogo (13.110).

Funcionamento 24h

Bom exemplo deste cenário é o entra e sai na centenária Padaria Ipanema, reinaugurada em novembro passado, depois de quase ser demolida para dar lugar a um projeto residencial. As reformas, que duraram cerca de um ano, restauraram a cor original da fachada e acrescentaram ao ponto um concorrido rooftop, que é como chamam os terraços hoje em dia. O funcionamento passou a ser 24 horas. Totalmente remodelada, a casa aberta em 1911 simboliza o processo de valorização imobiliária e abertura de novos negócios que vem transformando a Visconde de Pirajá.

— Como todos os pontos tradicionais de comércio, a Visconde de Pirajá sofreu muito com a pandemia. Mas, por ser um ponto central da Zona Sul, se recuperou rapidamente. Em muitos desses endereços foram abertos estabelecimentos mais sofisticados. Mais atividade atrai mais gente, não apenas moradores — avalia o presidente da Associação Comercial de Ipanema, Carlos Monjardim.

A tendência identificada por Monjardim é corroborada pela presença de canteiros de obras na região. Entre as novidades mais recentes há dois prédios de apartamentos do tipo estúdio — o primeiro ficou pronto no mês passado — e outros dois edifícios comerciais, que estão em obras.

Rua Visconde de Pirajá

Márcia Foletto

Um estudo do Sindicato da Habitação (Secovi-RJ) mostra que desde 2020, no início da pandemia, o valor do metro quadrado comercial para locação praticamente dobrou: passou de R$ 80,87 em janeiro daquele ano para R$ 159,88 em janeiro de 2026. Na série histórica iniciada em 2011, o ano passado registrou recorde de vendas de pontos comerciais: 89.

— No caso dos imóveis comerciais, essa valorização se deu porque, por se tratar de uma área em evidência, são escassos os espaços para locação. Mesmo se compararmos a valorização apenas entre 2025 e 2026, ela é maior que a média da cidade — explica Maurício Eiras, coordenador estatístico do Secovi.

Não à toa, os terrenos ainda disponíveis são disputados. Na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Garcia D’Ávila, o Opportunity, em parceria com a SIG, iniciou no ano passado o projeto do Garcia 111, de lajes corporativas com 1,3 mil metros quadrados por andar, e 19 pavimentos. A empreitada, estimada em R$ 600 milhões, incorporou três terrenos onde funcionavam as joalherias H. Stern e Amsterdam Sauer, além de uma filial da Nike. A conclusão das obras está prevista para o fim de 2028.

Já a parceria da Safira Engenharia com a incorporadora de alto luxo Balassiano está por trás da construção de outra laje corporativa, que será entregue em maio, onde por anos funcionou o Hotel San Marco, no número 524 da rua.

No setor da venda de residenciais, o fenômeno se repete: foram registradas 151 transações no ano passado, o número mais alto atingido desde 2011, e o valor do metro quadrado, nos últimos seis anos, saltou de R$ 49,16 para R$ 80,87 (aumento de 64,5%). Nessa área, ficou pronto, em fevereiro, o Alma Ipanema Residencial Style, um prédio de 18 andares com dois apartamentos tipo estúdio por andar, no número 141 da via. Restam três unidades à venda.

— A maioria dos estúdios foi comprada por investidores. Morar ou passar uma temporada na Visconde de Pirajá é estar numa área com boa infraestrutura na Zona Sul e bem próximo à praia de Ipanema — observa Leandro Costa, gerente comercial da Balassiano, responsável pelo empreendimento.

Para o empresário Antonio Rodrigues, conhecido como o dono da rede de bares Belmonte, essa trajetória ascendente justificou a aposta na revitalização da Padaria Ipanema.

— A padaria era um ponto comercial tradicional de uma via emblemática da Zona Sul. Arrisquei e deu certo. Os clientes não são apenas moradores, mas turistas jovens, que ficam em apartamentos por temporada — afirma o empresário.

A Visconde de Pirajá foi, por exemplo, a opção da psicóloga argentina Constanza Eominelli, de 37 anos, de férias no Rio, ao escolher onde alugar um imóvel por temporada:

— Quem sugeriu foram amigos que já conheciam o Rio. Ainda sai mais em conta do que ficar em um hotel em Copacabana. Sem contar que a rua tem de tudo: padarias, restaurantes e várias butiques — diz a turista.

Vestígios do passado

Em meio à diversidade que encanta locais e turistas, também há espaço para alguma nostalgia. Desde junho de 2025, os órfãos das doces iguarias da Chaika, lanchonete que fez história ao lado da Padaria Ipanema, podem experimentar uma espécie de volta ao passado. Luiz Monteiro, antigo confeiteiro da casa, foi contratado pela Poli Sucos Mais, que fica no número 447 da rua. A fatia da torta, conforme o sabor, sai por R$ 15 ou R$ 20. Outros dois ex-funcionários da Chaika também trabalham lá.

—Entre encomendas e fatias são vendidas pelo menos seis tortas por dia, muitas para antigos clientes. Começo a trabalhar às 6h30 — conta Luiz Monteiro.

Quem também não arreda pé da Visconde de Pirajá é o comerciante Severino Martins Alves, de 84 anos. Português de Braga, há seis décadas dedicado à Padaria Ipanema, ele hoje é uma espécie de gerente sênior.

— Quando comecei a trabalhar, Ipanema era um símbolo de para onde a cidade crescia, a exemplo do que ocorre hoje na Barra da Tijuca. A Visconde de Pirajá era muito mais residencial, havia muitas casas. Com o tempo, foi se sofisticando. Mas ainda hoje há fregueses mais antigos que conheço de nome — garante.