Investimentos em IA avançam de olho na competitividade e até na soberania nacional
Apontar tendências de mercado da inteligência artificial (IA) é tema complexo, que instiga da academia ao chão de fábrica, do CEO ao Microempreendedor Individual (MEI). Há três consensos, porém. O primeiro é que, no mundo dos negócios, controlar a IA é tão importante quanto desenvolvê-la. Afinal, um dos segmentos em que a máquina tem mostrado valor é no desenvolvimento de códigos. O segundo é que é preciso preparar os humanos para conviverem com a tecnologia, que será uma espécie de energia elétrica que move tudo, mas você não vê. O último é que a estratégia para a tecnologia vai esbarrar em outro tema complexo: a soberania nacional.
Essas tendências movimentam um mercado que pode chegar a trilhões de dólares. E, embora tanto no Brasil quanto globalmente as explicações sobre esses números sejam pouco claras, sobram exemplos concretos de que a inteligência artificial está mexendo com a economia. Eles vão da mineração aos investimentos em data centers locais, passando por consultorias, demanda por energia e movimentos do mercado de capitais.
A Moody’s projeta US$ 2 trilhões em investimentos em data centers nos próximos quatro anos ao redor do mundo. É apenas uma das atividades, mas dezenas de fundos imobiliários viraram o foco para essas infraestruturas e estão captando e aplicando recursos para projetos, inclusive no Brasil. Por aqui também, a exploração de terras raras não começou nem tem regras definidas, mas as promessas alcançam bilhões em investimento nessa atividade e no beneficiamento dos minerais. E, no mundo digital real (sem paradoxo ou contradição), a IA já gera impacto concreto para empresas de comércio eletrônico.
Aplicação matadora
A LWSA, empresa que cobre toda a cadeia de negócios de e-commerce, garante que as máquinas já são responsáveis por quase 100% das atividades de coding e prototipação, ou seja, da criação de aplicações e dos testes. Apenas uma de suas aplicações, o WOZ, agente autônomo da Octadesk, reduziu em um terço os contatos diários em operações do grupo, aumentou em 50% a retenção por agentes e permitiu a redução de 25% no número de vagas de atendimento em pelo menos três operações da holding. São resultados que talvez expliquem, no micro, as macro demissões da Amazon em janeiro: 16 mil funcionários globalmente.
— Há um ano falávamos de um possível estouro na bolha de inteligência artificial. Não havia nenhum caso de utilização da tecnologia em empresas que justificasse o gasto. De lá para cá, a tecnologia encontrou sua aplicação matadora, o desenvolvimento de código, que mostrou ser extremamente produtiva no setor de engenharia de software — conta Marcelo Finger, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador principal do USP-Fapesp-IBM Centro de Inteligência Artificial (C4AI).
Ao mesmo tempo em que explica o que aconteceu na LWSA, Finger alerta para os aspectos ligados à segurança e soberania.
— Do ponto de vista estratégico, a inteligência artificial cria forte dependência de um pequeno número de fornecedores que estão totalmente concentrados nos Estados Unidos. E isso traz como consequência problemas de segurança e soberania. E também de proteção, uma vez que os dados saem do Brasil, vão para os Estados Unidos e por lá ficarão armazenados para sempre — resume.
Geopatriação
Quando perguntadas sobre as três principais tendências para o mercado de IA, plataformas como Chat GPT e Copilot reconhecem esses riscos. Elas citam a inteligência artificial enquanto infraestrutura, ou seja, os datacenters, como uma oportunidade que está associada à Geopatriação, que consiste em minimizar o risco geopolítico mantendo os dados em provedores regionais.
As empresas também mencionam iniciativas de integração, segmentação e segurança no uso e reconhecem, em relação a esta última, que não são capazes de apoiar os usuários diretamente nesta tarefa. Ou seja, um caminho para se posicionar bem e aproveitar oportunidades nesse mercado é tutelar, de alguma forma, máquina e usuários.
Em um esforço que costuma repetir anualmente sobre vários temas, a Gartner, uma das principais consultorias globais de tecnologia da informação, apontou dez tendências tecnológicas que vão transformar os próximos cinco anos. Metade delas está diretamente ligada a governança, controles e práticas de segurança nesse novo universo.
— A adoção de sistemas de IA, principalmente agentes, abre algumas brechas de segurança e proteção de dados que estão virando prioridade para a implantação da tecnologia. Por outro lado, estes riscos abrem oportunidades para o desenvolvimento de novas soluções — confirma o professor Alexandre Evsukoff, da Coppe/UFRJ, que trabalha desde a década de 1990 com modelos de IA para a indústria, principalmente dos setores de petróleo e energia.
A Gartner traz indicações relacionadas ao desenvolvimento de soluções e ao treinamento de modelos, à IA física em robôs, drones e outros equipamentos, e à sistemas multiagentes e modelos de linguagem para setores específicos.
— Na indústria do petróleo, utiliza-se IA há muito tempo. Nosso laboratório (LAMCE/UFRJ) desenvolve pesquisas nas áreas de Geofísica, Rocha Digital, Sensoriamento Remoto, Modelagem Atmosférica. Atuamos no desenvolvimento da solução até o TRL 6-7 (protótipo demonstrado e validado em ambiente operacional). A implantação da solução no mercado é feita por empresas como a Petrec, que é uma spin-off do LAMCE/UFRJ — conta Evsukoff.
Integração
A Qlik é uma empresa que atua diretamente nessa integração da IA aos negócios. Desde 2007, possui uma ferramenta de prompt capaz de interagir com bases de dados estruturados, independentemente do setor. Há dois anos, passou a oferecer ferramenta para bases de dados não estruturados. Além disso, implantou em sua solução um protocolo para que clientes possam usar as LLMs (sigla em inglês para Grandes Modelos de Linguagem) de mercado, como ChatGPT, Gemini e Copilot.
— Existe uma demanda muito grande de integração de plataformas. Acredito que esse é o caminho — resume César Ripari, diretor de Pré-Vendas para a América Latina da Qlik, sem abrir o faturamento com os novos serviços.
Ritmo acelerado
O que se destaca na análise da Gartner e de outras consultorias é que não é possível esperar o cenário ficar mais bem definido. É preciso agir agora para alinhar a estratégia digital com as metas de negócio, escalar a IA de forma segura e responsável e liderar a transformação com confiança.
— O estudo KPMG Global Tech Report 2026 mostra que, com o ritmo acelerado da inovação, planos tecnológicos frequentemente se tornam obsoletos antes mesmo da implementação. O caminho não é tentar prever a tecnologia, mas construir arcabouços e princípios — afirma Ricardo Santana, sócio-líder de Data & Analytics, Automação e Inteligência Artificial da KPMG no Brasil.
Um exemplo interessante, que perpassa vários setores econômicos e indica o status do Brasil na implementação de IA, é apontado no relatório da KPMG sobre IA na área financeira (“Global AI in Finance Report”). A partir das respostas de 150 empresas no Brasil, o estudo mostra o apetite maior de brasileiros do que de estrangeiros para aplicar IA na área tributária.
— O Brasil sempre se destacou pelo sistema financeiro. Temos os melhores sistemas de pagamentos do mundo e os canais digitais mais abrangentes e completos. O recorte brasileiro indica que o país está competitivo frente a seus pares globais, com destaque na área tributária: 60% dos respondentes brasileiros já consideram utilizar Gen AI na gestão tributária, área em que a aplicação ainda é limitada globalmente — completa Frank Meylan, sócio-líder de Tecnologia, Transformação Digital e Inovação da KPMG no Brasil e na América do Sul.
