Investigação da PM cita ‘chefe Milton’ e mensagens sobre propina em esquema com a Transwolff
A investigação da Corregedoria da Polícia Militar sobre policiais suspeitos de fazer segurança privada para diretores da Transwolff reúne mensagens que mencionam “chefe Milton” e tratam de pagamento de valores descritos como propina. Em depoimento, um dos PMs presos afirmou que o ex-vereador Milton Leite (União Brasil) seria “de fato” o “dono” da empresa de ônibus investigada por elo com o Primeiro Comando da Capital (PCC), embora tenha reconhecido que não pode comprovar a acusação.
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O 2º sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário prestou depoimento no último dia 4, no âmbito da Operação Kratos, que levou à prisão de três policiais militares na semana passada. Segundo ele, os demais diretores da Transwolff seriam apenas “laranjas”. O relato foi obtido pelo GLOBO.
Cezário é investigado por atuar como segurança de Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e de Cícero de Oliveira, o Té, apontados como diretores da empresa com ligação com a facção criminosa. A Transwolff é suspeita de lavar dinheiro do crime organizado e teve contrato cancelado com a prefeitura da capital.
De acordo com a Corregedoria, entre 2020 e 2024 os PMs faziam a segurança dos executivos. A equipe era chefiada pelo capitão Alexandre Paulino, que à época atuava como assessor militar da Câmara Municipal e foi ajudante de ordens de Milton Leite, então presidente da Casa.
No depoimento, Cezário afirmou que Paulino passou a administrar o grupo que atendia a Transwolff porque trabalhava com Milton Leite na Câmara. “Este (Milton Leite) era de fato o dono da TW e os demais diretores eram apenas laranjas. Acredita que, por isso, foi indicado o capitão PM, mas ressalta que ouvia dizer isso sobre Milton Leite, mas não pode provar”, diz trecho do documento.
A Transwolff e a UPBus já haviam sido alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo, por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento à facção criminosa.
‘Chefe Milton’ e ‘QSJ’
O inquérito também reúne trocas de mensagens entre dirigentes da empresa e os policiais investigados. Para os investigadores, os diálogos indicam subordinação dos PMs ao então presidente da Câmara.
Em 18 de agosto de 2023, o sargento Nereu Aparecido Alves — também preso — enviou mensagem a Cícero de Oliveira para justificar atraso em um serviço. “Estamos em uma agenda, vai demorar, ele está no palco. Quando descer, aviso. O celular do chefe está comigo”, escreveu. Em seguida, enviou foto do evento com a legenda: “Inauguração da escola da mãe do chefe Milton”.
Segundo a Corregedoria, o evento era a inauguração do Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva, na região do M’Boi Mirim, Zona Sul da capital. O nome da unidade é o mesmo da mãe do ex-vereador.
Na sequência das conversas, os interlocutores passam a tratar de dinheiro. O diretor da Transwolff orienta o sargento a ir ao escritório para pegar “uns QSJ”. De acordo com a corporação, a sigla é jargão militar para propina. Na deflagração da operação, policiais apreenderam cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo na casa de Nereu.
Para a investigação, os agentes conciliavam a segurança de suspeitos de ligação com o PCC com demandas relacionadas ao então presidente da Câmara. O capitão Alexandre Paulino, apontado como responsável pela segurança irregular da Transwolff, atua na Assessoria Militar da Casa desde 2014.
Outro lado
Ao GLOBO, Milton Leite negou ser dono da Transwolff e disse que não conhece o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário.
— Eu, dono da Transwolff? Não sei quem é esse Alexandre. Eu nunca fui dono da Transwolff. Dizer que eu sou dono é ilação. Me mostre um papel, um carro que eu tenho, um motorista que guia para mim — afirmou.
O ex-vereador também disse que não conhece o sargento Nereu Aparecido Alves e que ele nunca integrou sua escolta.
— Minha escolta foi feita exclusivamente por membros do efetivo da Assessoria Militar da Câmara Municipal de São Paulo, da qual ele também nunca fez parte. Lamento que a imprensa trate a expressão “chefe” como uma referência a mim, sem provas e atribuída a uma pessoa que, repito, desconheço — declarou.
Sobre o capitão Alexandre Paulino, Leite afirmou que ele integra a Assessoria Militar da Câmara desde 2014, tendo atuado com cinco presidentes, e que “eventuais atividades realizadas fora das funções inerentes ao cargo são de total responsabilidade dele”.
A defesa do capitão declarou que ele é inocente. A Transwolff informou que sempre contratou empresas de segurança devidamente estabelecidas, que se defende nas instâncias competentes e que colabora com as autoridades.
