Investidores retomam projetos de geração de energia eólica e solar
Os sinais são de uma tímida retomada nos investimentos em geração de energias eólica e fotovoltaica centralizadas, após dois anos de incertezas regulatórias e mercadológicas que resultaram em queda no ritmo de expansão da capacidade instalada da produção de eletricidade renovável no Brasil. O mercado estima que, em 2026, novos parques agreguem 3,9 gigawatts (GW) de capacidade de geração solar.
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— É uma retomada modesta, mas significativa diante de 2025, quando foram acrescentados só 2,8 GW de capacidade nova — diz Bárbara Rubim, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), lembrando que, em 2023, o acréscimo fora de 4,3 GW e, em 2024, chegou a 5,7 GW.
3 anos para inauguração
Na geração eólica, o ano de 2023 foi recorde, com a entrada em operação de 4,8 GW. O ritmo caiu para novos 3,3 GW em 2024 e, em 2025, apenas 2,2 GW foram agregados ao sistema, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Novos projetos de geração levam, em média, dois a três anos para serem implementados.
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— Após dois anos de declínio, estamos vendo o início de uma retomada dos investimentos, o que deve resultar em uma expansão de capacidade de geração a partir de 2027 e 2028 — diz Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica.
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Divulgação
Um conjunto de fatores levou à redução de novos projetos nos últimos anos, entre eles a conjuntura econômica desfavorável e as altas taxas de juros.
A situação ficou ainda mais complicada a partir de 2024, quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) passou a determinar, com maior frequência, os curtailments, cortes forçados de geração elétrica de fontes renováveis, devido à limitação na rede de transmissão ou excesso de oferta. As interrupções recaem exclusivamente sobre os geradores de energia centralizada (grandes usinas).
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Em 2024, os cortes forçados impactaram 9,6% da geração e, em 2025, 20,6%, segundo o ONS. De acordo com Elbia, a perda dos geradores chega a R$ 7 bilhões. Nos cáculos da Absolar, projetos que somariam 4,3 GW e que demandariam R$ 14,5 bilhões foram descatados no ano passado.
— Vivemos uma crise desde meados de 2022, com a redução de contratação de PPAs (contratos de compra e venda de energia de longo prazo, na sigla em inglês), que respondem por mais de 90% da comercialização de energia eólica — diz Elbia.
Segundo ela, a retomada dos investimentos reflete a perspectiva de uma solução aliada à demanda de data centers por energia renovável e à busca de descarbonização das atividades do setor produtivo.
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— Há uma retomada da contratação de energia renovável por PPAs, mas ainda há incertezas regulatórias. O setor está em uma zona cinzenta — afirma Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos, que quer mais que dobrar a geração de energia limpa até 2030.
No início de 2026, a Casa dos Ventos decidiu investir quase R$ 12 bilhões em dois projetos eólicos, um no Piauí e outro no Ceará, e em um projeto solar no Mato Grosso do Sul. A previsão é que os três entrem em operação até 2028, elevando a capacidade total dos atuais 4,36 GW para 6,4 GW. A empresa ainda decidirá sobre um novo projeto na Bahia, estimado em R$ 8,5 bilhões, para mais 1,5 GW de geração eólica.
Essa expansão é sustentada por novos contratos de PPAs, como os firmados em 2026 com a empresa de data centers Ascenty para o fornecimento de 110 MW médios a partir de 2027, e com a fabricante de louças e metais sanitários Roca, que pretende descarbonizar suas oito fábricas no Brasil.
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A empresa desenvolve um hub de serviços de data centers voltado ao mercado internacional na zona de processamento de exportações (ZPE) de Pecém (CE), com fornecimento de 2 GW de energia renovável para as empresas que se instalarem no local.
Um primeiro contrato de 300 MW já foi fechado com o Tik Tok. A Casa dos Ventos também desenvolve dois projetos de hubs de data centers no interior de São Paulo, para a demanda local, e busca parceiros interessados em produzir hidrogênio, amônia e metanol verdes com energia renovável.
Ressarcimento
Mas ainda há incerteza entre alguns players do setor. No primeiro trimestre de 2026, os cortes determinados pelo ONS reduziram em 17% a geração nas usinas eólicas e solares operadas pela Engie Brasil, volume que acompanha a média do mercado.
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— A intensificação dos episódios de curtailment afeta diretamente a previsibilidade operacional e econômica dos projetos de renováveis — afirma Guilherme Ferrari, diretor de energias renováveis e armazenamento da Engie Brasil. — Temos projetos eólicos em fase de estudos de viabilidade, mas estão sendo avaliados com critérios rigorosos, considerando a sobreoferta estrutural de energia e o impacto significativo do curtailment. Dificilmente faremos algum investimento em um novo projeto eólico.
A solução para os cortes obrigatórios pode vir com a regulamentação da Lei 15.269/2025, que estabelece ressarcimento parcial das paralisações entre 2023 e 2025. As associações do setor pleiteiam também regras de ressarcimento para cortes futuros, o que traria maior segurança aos investidores.
A convicção é que o problema só será resolvido com leilões públicos que garantam investimentos na ampliação da infraestrutura de transmissão e em sistemas de armazenamento de energia por meio de baterias.
*Domingos Zaparolli, enviado especial
