Investidores do Japão se preparam para negociar ações dos EUA por 23 horas ao dia

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Fonte da notícia: Valor Valor

As principais bolsas americanas planejam ampliar o horário de negociação para 23 horas por dia a partir de 6 de dezembro, facilitando o acesso de investidores no Japão e em outros países asiáticos ao maior mercado acionário do mundo.

A mudança desperta entusiasmo entre investidores individuais, mas instituições avaliam os efeitos sobre a liquidez, a formação de preços e os custos operacionais.

Atualmente, a Nyse Group e a Nasdaq realizam sessões regulares das 9h30 às 16h, no horário da Costa Leste dos Estados Unidos. Também oferecem negociações antes da abertura, das 4h às 9h30, e após o fechamento, das 16h às 20h, com variações entre as bolsas do grupo Nyse.

Com a mudança, as bolsas participantes criarão uma sessão noturna, das 21h às 4h, totalizando 23 horas diárias de negociação, cinco dias por semana. Haverá uma pausa das 20h às 21h para processamento e manutenção dos sistemas. A semana começará às 21h de domingo e terminará às 20h de sexta-feira.

No horário japonês, a nova sessão ocorrerá das 11h às 18h, ou das 10h às 17h durante o horário de verão americano. A sobreposição com o pregão de Tóquio facilitará o acesso de investidores do Japão, da Coreia do Sul e de outros países asiáticos às ações americanas.

“Parece que a maior parte da demanda pela negociação por 23 horas virá da região da Ásia-Pacífico”, disse Chuck Mack, vice-presidente sênior de Mercados da América do Norte da Nasdaq.

Um investidor japonês de ações americanas de tecnologia espera que a mudança estimule corretoras do país a oferecer mais serviços de negociação durante o dia. Até agora, relativamente poucas permitem negociar ações dos EUA após o fechamento. Com a ampliação, ele espera poder comprar e vender ações individuais durante o dia no Japão, em vez de se limitar a fundos negociados em bolsa (ETFs), disponíveis fora do horário regular americano.

Tapazou, blogueiro japonês que escreve sobre ações americanas, alertou que mais horas de negociação não garantem melhores retornos. Ele recomendou estabelecer metas claras e limitar o tempo dedicado a acompanhar as cotações, evitando decisões motivadas por oscilações de curto prazo.

Gestoras de recursos também avaliam os efeitos da mudança. Taro Iida, gestor-chefe de fundos da Mitsubishi UFJ Asset Management, disse que a empresa poderá negociar ações americanas durante o dia no Japão se houver melhora da liquidez fora do horário regular.

A equipe de Iida começa a trabalhar por volta das 6h no Japão, reunindo e analisando informações sobre ações americanas. Após reuniões internas, encaminha ordens às corretoras à noite para execução durante o pregão regular nos EUA.

Para grandes operações, a equipe utiliza o preço médio ponderado pelo volume (VWAP), indicador que calcula a cotação média de uma ação em determinado período, ponderada pelo volume negociado a cada preço. A estratégia busca reduzir o risco de comprar ações por valores desfavoráveis em períodos de forte oscilação.

A equipe evita, por enquanto, negociar após o fechamento americano, quando os volumes são baixos e a diferença entre os preços de compra e venda tende a ser maior. Se a ampliação atrair participantes e aumentar a liquidez, poderá considerar ordens limitadas durante o dia no Japão, antes da abertura regular nos EUA.

Para investidores institucionais, porém, a mudança também traz riscos. Gestores da Voya Investment Management, responsável pela carteira de um fundo de ações americanas de crescimento oferecido pela Tokio Marine Asset Management, alertaram que a negociação quase contínua pode ampliar a volatilidade no curto prazo após a divulgação de resultados e outros eventos que movimentem o mercado.

Grandes investidores, como seguradoras de vida e fundos de pensão, que costumam rebalancear suas carteiras a cada poucos meses, adotam uma postura de cautela.

A Nippon Life Insurance não prevê mudar a execução das operações de rebalanceamento, considerando que a liquidez das ações americanas continuará limitada durante o dia no Japão. A Sompo Holdings e a MS&AD Insurance Group Holdings reconhecem que o horário ampliado criará mais oportunidades, mas afirmam que seu uso dependerá da liquidez e dos custos de transação em comparação com os do pregão regular americano. Mais oportunidades não significam necessariamente mais operações.

O Fundo de Investimento em Pensões do Governo do Japão (GPIF), que administra cerca de 300 trilhões de ienes (US$ 1,9 trilhão), também não planeja alterar suas práticas de investimento. O fundo avalia, contudo, que a mudança dará mais flexibilidade a seus gestores externos para escolher quando comprar e vender ações americanas no mercado à vista.

A ampliação dos horários de negociação também avança em outros mercados. Em julho, a Bolsa de Valores de Londres anunciou a criação da London Stock Exchange 24 (LSE 24), plataforma separada do mercado principal que permitirá negociações quase contínuas de segunda a sexta-feira. A negociação de produtos negociados em bolsa, incluindo ETFs, está prevista para o primeiro semestre de 2027, sujeita à aprovação regulatória. A bolsa pretende incluir ações individuais posteriormente.

Julia Hoggett, presidente-executiva da Bolsa de Londres e responsável pelos mercados digitais e de valores mobiliários do LSEG, classificou a iniciativa como um passo importante para a evolução dos mercados e a criação de um ambiente global mais digital e interconectado.

Na Coreia do Sul, a Bolsa da Coreia (KRX) ampliou o horário em 14 de setembro, com uma sessão após o fechamento das 16h às 20h, no lugar do sistema anterior, que terminava às 18h. A sessão permite negociar continuamente a maioria das ações dos mercados KOSPI e KOSDAQ. ETFs, títulos negociados em bolsa (ETNs) e alguns outros ativos ficaram de fora por enquanto.

A ampliação dos horários, contudo, implica custos adicionais com pessoal e atualização de sistemas para corretoras e outros participantes. Os procedimentos de compensação e liquidação e a gestão dos registros de acionistas também exigem coordenação em todo o setor financeiro. Ainda não está claro se os benefícios superarão as despesas.

“Continuaremos estudando a questão, levando em conta as opiniões dos participantes do mercado e os acontecimentos em bolsas estrangeiras, mas atualmente não temos planos de ampliar o horário de negociação”, disse Hiromi Yamaji, presidente-executivo do Japan Exchange Group (JPX).

A Bolsa de Tóquio concentra-se em outra estratégia para atrair investidores e empresas: identificar startups promissoras na Ásia, ajudá-las a se expandir no Japão e a estabelecer parcerias com companhias japonesas, com o objetivo de incentivá-las a abrir capital em Tóquio.

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