A inteligência artificial está inaugurando a Indústria 4.0. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a chamá-la de “SI” — superinteligência —, sinal de que sua importância ultrapassa a própria industrialização.
Poderão China e Europa unir forças para liderar um Renascimento 2.0 ou apenas assistir à transformação das superpotências em superinteligências? O cenário global passa por uma profunda reestruturação.
Os estudos internacionais oferecem três perspectivas principais sobre a futura ordem mundial: G2 (um condomínio de duas potências), S2 (dois sistemas concorrentes) e C2 (duas civilizações). Do mais superficial ao mais essencial, esses três modelos ajudam a explicar a natureza da competição entre China e Estados Unidos e as escolhas estratégicas que se apresentam à União Europeia.
Embora a ideia de “duas superpotências mais várias grandes potências” tenha surgido em determinado momento no debate acadêmico chinês, as autoridades da China rejeitam firmemente a proposta de um G2 desde o governo Obama. A China não busca a condição de superpotência nem aceitará uma ordem hegemônica baseada no governo oligárquico conjunto de duas grandes potências.
Ao contrário, posiciona-se ao lado do Sul Global e da maioria dos povos do mundo. Em sua essência, o G2 representa uma lógica hegemônica na qual algumas grandes potências se associam para monopolizar os assuntos globais.
Isso contraria o compromisso chinês com um mundo para todos e com um sistema internacional simultaneamente igualitário e ordenado. Sem igualdade, a ordem internacional aprofunda as injustiças; sem ordem, caminha para o caos e a guerra, como demonstra profundamente a história moderna dos conflitos europeus.
Por isso, a China rejeita os jogos de soma zero e defende firmemente a multipolaridade e uma Comunidade Global de Futuro Compartilhado. Em comparação com o ilusório G2, o modelo S2, de competição entre dois sistemas, descreve melhor o cenário internacional contemporâneo.
A União Europeia caracteriza a China, entre outras coisas, como uma “rival sistêmica”, definição plenamente alinhada às avaliações estratégicas dos Estados Unidos. A razão dessa classificação está no fato de a China ter construído o único paradigma de desenvolvimento verdadeiramente independente do mundo, situado fora da ordem liderada pelos Estados Unidos, embora profundamente integrado à globalização.
Em 2017, os Estados Unidos promoveram uma mudança decisiva em sua política histórica de engajamento com a China. Sua Estratégia de Segurança Nacional identificou China e Rússia como concorrentes estratégicos que desafiavam o poder, a influência e os interesses estadunidenses.
Não se trata, fundamentalmente, de um confronto ideológico. O que está em jogo é o fato de o sistema chinês permanecer independente da captura pelo capital, pelas instituições e pela hegemonia dos Estados Unidos.
Os ecossistemas digitais oferecem uma analogia. Existem apenas três grandes ecossistemas de sistemas operacionais no mundo: o Android, o iOS, da Apple, e o HarmonyOS, da Huawei.
Não há um quarto. Entre eles, apenas o HarmonyOS está fora do sistema estadunidense.
Da mesma forma, a China representa a única força capaz de romper a hegemonia da civilização branca, anglo-saxã e protestante — conhecida pela sigla WASP — e desmantelar o monopólio global do capital privado. É isso que impulsiona, em sua essência, a competição abrangente de Washington com a China e sua política de contenção.
O desafio central da competição sino-estadunidense consiste em superar conjuntamente duas armadilhas: a Armadilha de Tucídides e a armadilha da renda média. O período do 15º Plano Quinquenal chinês, de 2026 a 2030, será decisivo.
Nele, a China precisará superar os obstáculos ao seu desenvolvimento, reformular suas interações com os Estados Unidos e definir um novo modelo de relações entre grandes potências. É preciso deixar claro: a competição sistêmica entre China e Estados Unidos não constitui, de forma alguma, uma nova Guerra Fria.
A União Soviética estava amplamente isolada do sistema ocidental, e a Guerra Fria colocou frente a frente dois blocos fechados, paralelos e antagônicos. A China contemporânea, ao contrário, está profundamente inserida no sistema global predominante.
O regime do dólar, a arquitetura da internet, as regras digitais fundamentais e a divisão globalizada do trabalho vinculam os dois países por meio de uma profunda “interdependência de diretório-raiz”. O S2 não significa separação e confronto.
Significa o surgimento de dois caminhos distintos de desenvolvimento dentro de um único sistema globalizado. Como ilustra a metáfora do “bolo de cinco camadas”, utilizada por Jensen Huang, CEO da Nvidia, a inteligência artificial depende de uma arquitetura tecnológica interconectada que abrange energia, chips, infraestrutura, modelos e aplicações.
Essa interdependência em camadas também ajuda a explicar por que os sistemas chinês e estadunidense coexistem e permanecem profundamente entrelaçados, em vez de se posicionarem em uma oposição binária. Os Estados Unidos constroem uma ordem hegemônica excludente por meio de alianças militares e da doutrina do Destino Manifesto, desfrutando de vantagens de curto prazo na formação de alianças e no estabelecimento de regras.
A China, por sua vez, defende um novo sistema inclusivo, igualitário, aberto e universal, mais alinhado às tendências da era da inteligência e dotado de uma racionalidade histórica de longo prazo. A China rejeita sistematicamente a lógica de soma zero da Guerra Fria e da destruição mútua assegurada, conhecida pela sigla MAD.
Em seu lugar, propõe uma visão de coexistência baseada em ganhos compartilhados, expressa por uma antiga máxima: “Todas as coisas crescem juntas sem prejudicar umas às outras; os caminhos seguem lado a lado sem entrar em conflito.”
A “cortina de silício” erguida pelos Estados Unidos divide artificialmente o mundo, criando uma ordem internacional hierárquica que lembra a estratificação em castas de tipo bramânico. A transformação sistêmica defendida pela China pretende pôr fim à divisão e ao antagonismo globais, assegurar que a transição para além da hegemonia ocorra como um pouso suave, e não como um colapso, e poupar os países da pressão para escolher entre China e Estados Unidos.
Para além da rivalidade de poder do G2 e da competição sistêmica do S2, encontra-se o C2: a evolução e a disputa entre duas formas de civilização. Esse é o núcleo mais profundo das grandes transformações sem precedentes em um século.
A China é o único Estado-civilização de continuidade ininterrupta no mundo, dotado de um DNA civilizacional inclusivo, pluralista e não monoteísta. Os Estados Unidos apresentam-se como herdeiros do Império Romano e como uma “Cidade sobre a Colina”, construindo uma ordem global fundamentada em uma lógica hegemônica monoteísta, binária e excludente.
Entretanto, a competição entre China e Estados Unidos não é um choque de civilizações. Trata-se de uma disputa pela sobrevivência dos modelos mais adaptados ao seu tempo, uma atualização global do princípio das “Três Representações”: a ideia de que uma força governante deve representar as forças produtivas avançadas, a cultura avançada e os interesses fundamentais da maioria.
O modelo que melhor se adaptar à nova revolução tecnológica e oferecer bens públicos globais de alta qualidade será aquele que orientará o futuro da humanidade. Inteligência artificial para todos ou todos a serviço da IA
A divergência entre as duas civilizações torna-se particularmente evidente na nova era da revolução da inteligência artificial — ou da superinteligência, como Trump passou a chamá-la. Os Estados Unidos adotaram uma mentalidade de “tudo na superinteligência, tudo pela superinteligência”, que prioriza o capital e a hegemonia, colocando a IA a serviço dos monopólios de um pequeno grupo de gigantes tecnológicos e dos jogos geopolíticos.
A China segue o princípio de “IA em tudo, IA para todos”. A primeira parte significa capacitar todos os setores econômicos e servir à economia real.
A segunda coloca as pessoas no centro e procura beneficiar toda a humanidade. Os dois modelos produzem resultados estratégicos profundamente diferentes.
Os Estados Unidos sofrem de uma intensa ansiedade em relação à inteligência artificial. Para preservar sua hegemonia tecnológica, destinam recursos gigantescos a chips, capital, capacidade computacional e eletricidade.
Com isso, alimentam enormes bolhas financeiras e de inteligência artificial, aprofundam as divisões sociais e os conflitos internos e reproduzem a lógica do programa Guerra nas Estrelas, que buscou arrastar a União Soviética para uma corrida armamentista tão cara que contribuiu para a falência da economia soviética.
Desta vez, porém, os custos estão se acumulando dentro dos próprios Estados Unidos. O Irã abalou o mito da hegemonia militar estadunidense, enquanto a inovação chinesa em inteligência artificial começa a desmontar o mito de sua hegemonia tecnológica.
Juntos, esses processos corroem os fundamentos do poder hegemônico dos Estados Unidos. As características da civilização chinesa — não monoteísta, aberta, inclusiva, moderada e harmoniosa — correspondem perfeitamente às exigências da era da inteligência: descentralização, compartilhamento universal e coexistência pluralista.
Em seus diálogos com Arnold Toynbee, na década de 1970, o pensador japonês Daisaku Ikeda explorou o potencial da civilização oriental para contribuir com a paz mundial, a estabilidade e uma humanidade mais unificada. O sistema estadunidense repousa sobre a subjugação, a exploração, a exclusão e o monopólio.
A civilização chinesa e a do Leste Asiático extraem sua força da inclusão, da abertura, da universalidade e da simbiose. O valor do modelo do Leste Asiático está em alcançar autonomia tecnológica, controle de riscos e autossuficiência em segurança dentro de um sistema aberto.
A inteligência artificial está desconstruindo a dupla hegemonia dos Estados Unidos, baseada no poder militar e no dólar, e enfraquecendo sua arquitetura de alianças organizada em torno de um centro e seus satélites. No curto prazo, a Europa ainda depende dos Estados Unidos em infraestrutura fundamental e tecnologias essenciais, e suas fragilidades são evidentes.
No longo prazo, entretanto, a competição sistêmica é essencialmente uma competição civilizacional, e a lógica de coexistência harmoniosa entre China e União Europeia acabará prevalecendo sobre a hegemonia binária estadunidense, baseada na ideia de que o vencedor leva tudo. A chave para superar o impasse entre China e Estados Unidos é aperfeiçoar a filosofia da simbiose, lançar um Manifesto China-União Europeia sobre Inteligência Artificial e construir um novo paradigma de civilização digital, distinto daquele dos Estados Unidos.
A terceira via da Europa Os Estados Unidos estão presos à ansiedade da inteligência artificial: sua tecnologia foi capturada pelo capital, tornou-se limitada por suas próprias estruturas e está atolada em conflitos internos.
A Europa, por sua vez, legislou de maneira rigorosa e prematura, impondo restrições antes que o desenvolvimento tecnológico pudesse amadurecer e sufocando sua vitalidade inovadora. A civilização chinesa, em contraste, incorpora a busca da verdade a partir dos fatos, a educação para todos e a inclusão abrangente.
Ela não diviniza a inteligência artificial nem se torna escrava da tecnologia. Coloca as pessoas em primeiro lugar, defende a coexistência de todas as coisas e adota uma abordagem pragmática: regular durante o desenvolvimento e desenvolver sob regulação.
Livre do pensamento binário apriorístico do Ocidente, está mais bem adaptada às leis da inovação e da evolução tecnológica na era da inteligência. A União Europeia não pretende reproduzir o modelo de crescimento acelerado do Vale do Silício, nos Estados Unidos, nem simplesmente copiar a estrutura chinesa de implantação industrial.
Busca uma terceira via: orientada por regras, ancorada nos direitos humanos e na inteligência artificial confiável (Trustworthy AI), e profundamente integrada às aplicações industriais especializadas. Minha tese central é a seguinte: embora essa terceira via já tenha tomado forma no campo da elaboração de regras, sua implementação concreta em capacidade computacional, capital e ecossistemas industriais continua cercada de grandes incertezas.
No centro dessa terceira via está a inteligência artificial confiável: primeiro estabelecer as regras, depois desenvolver a tecnologia. Direitos humanos, privacidade e explicabilidade algorítmica são incorporados a todo o ciclo de vida da inteligência artificial.
Sem abandonar os modelos de fronteira, a União Europeia concentra-se na integração da IA aos setores avançados da economia real, como indústria, saúde e energia, buscando a “soberania tecnológica”, e não a autossuficiência completa. Essa abordagem repousa sobre dois pilares.
O primeiro é regulatório. O AI Act, a primeira legislação abrangente sobre inteligência artificial do mundo, introduz uma regulação escalonada, baseada em riscos: proíbe sistemas de IA que apresentem riscos inaceitáveis, estabelece controles rigorosos para aplicações de alto risco e exige avaliações sistemáticas de riscos para grandes modelos de uso geral.
O chamado “efeito Bruxelas” faz o restante, uma vez que qualquer empresa global interessada em acessar o vasto mercado único europeu precisa cumprir esses padrões. Dessa forma, a União Europeia exporta normas globais de governança da inteligência artificial, utilizando as regras para conquistar poder de influência no debate internacional e compensar suas fragilidades tecnológicas.
O segundo pilar é industrial: o Plano de Ação para o Continente da IA (AI Continent Action Plan). Indo além do debate ético para enfrentar as deficiências em capacidade computacional, o plano prevê a construção de fábricas europeias de inteligência artificial e de centros de supercomputação EuroHPC, estimula o desenvolvimento de modelos fundamentais próprios e concentra esforços em aplicações de IA para a indústria, a medicina, o clima e a energia.
Aproveitando os pontos fortes da Europa na manufatura avançada, a estratégia prioriza a inteligência artificial aplicada a setores específicos, em vez de competir diretamente com China e Estados Unidos na corrida pelo número de parâmetros dos grandes modelos de uso geral. A filosofia subjacente a essa trajetória é que a inovação tecnológica não deve se sobrepor aos direitos humanos fundamentais e que o crescimento da inteligência artificial precisa ser controlável, explicável e sujeito à responsabilização.
Diversas condições favorecem a terceira via europeia. Em primeiro lugar, a Europa possui uma vantagem de poder brando na definição de regras.
Há muito tempo, prioriza os direitos humanos e a proteção de dados, como demonstra o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), e exerce influência nas negociações globais sobre governança da IA e padrões éticos. Como muitos países do Sul Global desconfiam de uma hegemonia da inteligência artificial sem limites, a proposta europeia de uma IA confiável exerce uma atração real.
Em segundo lugar, a Europa possui uma base industrial avançada. A indústria alemã, a manufatura de precisão, os equipamentos médicos e a indústria farmacêutica estão entre os setores mais avançados do mundo.
Isso faz da digitalização industrial e da inteligência artificial aplicada à indústria caminhos naturais para o continente. Em terceiro lugar, a Europa possui uma sólida tradição de pesquisa: um amplo conjunto de talentos nas ciências básicas, na matemática e na teoria da computação, além de universidades e institutos de pesquisa de excelência capazes de sustentar o desenvolvimento de modelos fundamentais.
Por fim, há a dimensão do mercado. Um mercado único de 450 milhões de pessoas confere à União Europeia poder suficiente para exigir que as principais empresas globais de inteligência artificial cumpram os padrões regulatórios europeus.
Apesar dessas vantagens, a estratégia europeia enfrenta obstáculos estruturais que impedem a terceira via de se tornar plenamente independente. O mais fundamental é sua forte dependência dos Estados Unidos em capacidade computacional, chips e infraestrutura básica.
A Europa não possui grandes provedores próprios de computação em nuvem para inteligência artificial, e seu abastecimento de GPUs e chips avançados depende fortemente dos Estados Unidos. O capital de risco europeu voltado à IA é muito menor do que o disponível na China e nos Estados Unidos, e há escassez de financiamento para empresas em estágios mais avançados de crescimento.
Como resultado, as startups europeias encontram dificuldades para se transformar em gigantes de plataformas comparáveis à OpenAI ou à Baidu. Grande parte do capital disponível também vem de investidores estadunidenses, vinculando o ecossistema industrial europeu aos Estados Unidos e colocando a plena soberania tecnológica fora de alcance.
Um segundo obstáculo é a fragmentação do mercado interno. Os 27 Estados-membros diferem em idioma, tributação, legislação trabalhista e compras públicas.
Assim, um mesmo produto de inteligência artificial precisa superar diferentes processos de aprovação para ser implementado além das fronteiras nacionais. Essa fragmentação impede as economias de escala continentais observadas na China e nos Estados Unidos e aumenta os custos de expansão das empresas europeias de IA.
Os Estados-membros também apresentam divergências significativas quanto ao rigor regulatório e aos subsídios industriais, tornando a coordenação extremamente onerosa. Em terceiro lugar, a própria regulação é uma faca de dois gumes.
Classificações rigorosas de risco e exigências de conformidade elevam os custos empresariais de pesquisa e desenvolvimento. Embora protejam os direitos dos cidadãos, também impõem encargos às startups e às pequenas e médias empresas, desacelerando, em alguma medida, o aperfeiçoamento dos modelos nacionais de ponta.
Encontrar o equilíbrio adequado entre regulação e inovação é extraordinariamente difícil. Por fim, a União Europeia enfrenta um dilema geopolítico: não consegue permanecer facilmente neutra entre China e Estados Unidos.
Os valores europeus e estadunidenses e suas arquiteturas de segurança estão profundamente interligados, enquanto Washington coordena continuamente controles de exportação de inteligência artificial e restrições a chips entre seus aliados. Ao mesmo tempo, a Europa precisa preservar a cooperação econômica, ambiental e de digitalização industrial com a China.
Situada entre os dois países, a União Europeia vê suas políticas de inteligência artificial constantemente entrelaçadas às agendas de segurança geopolítica. Em síntese, a terceira via transforma a União Europeia em um “terceiro polo de elaboração de regras”, mas não em um polo tecnológico plenamente independente.
Na governança, na definição de normas e na ética, a União Europeia abriu uma terceira via genuína. Ela oferece um paradigma de governança da inteligência artificial distinto da inovação com pouca intervenção regulatória dos Estados Unidos e da abordagem chinesa centrada prioritariamente na indústria, contribuindo para moldar os padrões globais de IA.
Essa é sua maior conquista. Entretanto, no desenvolvimento de modelos de uso geral de fronteira e de infraestrutura computacional, dificilmente a Europa se tornará um polo tecnológico equivalente à China e aos Estados Unidos.
Um papel mais realista para a União Europeia é o de formuladora global de regras para a inteligência artificial, centro de aplicações industriais, intermediária tecnológica e árbitra de padrões, em vez de uma superpotência independente dos grandes modelos. Portanto, o futuro cenário global da inteligência artificial provavelmente não será uma simples divisão entre três potências.
Haverá dois polos tecnológicos, China e Estados Unidos, e um polo regulatório, a União Europeia. O maior valor da terceira via europeia não está na construção de grandes modelos de primeira linha capazes de rivalizar com os chineses e estadunidenses.
Está em conter a competição desregulada em inteligência artificial, incorporar direitos humanos, segurança e explicabilidade à governança global da tecnologia e oferecer ao Sul Global um paradigma alternativo. Acendendo a luz da inteligência artificial
Na era agrícola, o conhecimento viajou do Oriente para o Ocidente: as Quatro Grandes Invenções da China e seu sistema de exames imperiais contribuíram enormemente para o Renascimento europeu e para a experiência de modernização da Europa. Na era industrial, o conhecimento viajou do Ocidente para o Oriente, quando o “Senhor Democracia” e o “Senhor Ciência” ajudaram a moldar o Movimento da Nova Cultura na China, enquanto o pensamento marxista passou posteriormente a desempenhar um papel central na modernização chinesa.
As contribuições da civilização ocidental são evidentes. Hoje, quando a humanidade ingressa na era da inteligência artificial, as civilizações digital e ecológica estão transcendendo a lógica da civilização industrial.
A colaboração entre China e União Europeia para inaugurar um novo Renascimento da humanidade tornou-se uma exigência de nosso tempo. O filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz acreditava que China e Europa possuíam forças intelectuais complementares: os chineses se destacavam na observação prática e no acúmulo de experiências, enquanto os europeus haviam desenvolvido maiores capacidades de reflexão teórica.
Em uma carta de 1692 ao missionário jesuíta Claudio Filippo Grimaldi, Leibniz defendeu o intercâmbio intelectual mútuo, incentivando os dois lados a “trocar presentes e acender uma luz a partir de outra luz”. Na busca europeia pela modernização, as Quatro Grandes Invenções chinesas e os exames imperiais sem dúvida ajudaram a acender a luz da modernidade europeia.
Na trajetória de modernização da China, o Senhor Democracia e o Senhor Ciência, juntamente com o pensamento marxista, acenderam a luz da modernização ao estilo chinês. Hoje, na experiência compartilhada da modernidade humana dentro de uma Comunidade Global de Futuro Compartilhado, como devemos acender a luz da inteligência artificial?
A inteligência artificial global entrou em uma era de competição entre dois gigantes. Os Estados Unidos adotaram um modelo orientado pelo mercado e liderado pelas empresas, concentrado em avanços nos modelos de uso geral mais avançados.
A China utiliza sua ampla variedade de aplicações industriais e seu sistema manufatureiro completo para implementar a inteligência artificial em grande escala. Os Estados Unidos estão, sem dúvida, na dianteira.
Entretanto, sua filosofia é a de “tudo na IA”: direcionam os chips mais avançados, o capital e a eletricidade para seus gigantes tecnológicos, enquanto as desigualdades de riqueza se agravam. Deixados para trás, muitos cidadãos comuns encontram poucas alternativas, e a crise dos opioides ocupa o vazio deixado em comunidades duramente atingidas.
Muitos estadunidenses também se opõem à construção de enormes centros de dados, argumentando que eles absorvem recursos da sociedade, ameaçam empregos e tornam as pessoas dispensáveis. A China defende a “IA em tudo”: uma inteligência artificial que fortaleça todos os setores econômicos e sirva a todas as pessoas, com desenvolvimento genuinamente baseado em código aberto.
Busca regular durante o desenvolvimento e desenvolver sob regulação, equilibrando segurança e crescimento. Essa abordagem encontra ressonância na mentalidade alemã, expressa na máxima Ordnung muss sein — é preciso haver ordem.
A Iniciativa Global IA+, proposta pela China, procura envolver ativamente a Europa. A China encontrou um caminho intermediário entre a regulação insuficiente dos Estados Unidos e o excesso de regulação europeu, refletindo o ideal de “harmonia central” e equilíbrio presente na filosofia chinesa.
A história da inteligência artificial evoca o conto de fadas O Rouxinol, de Hans Christian Andersen, no qual o canto de um humilde rouxinol se revela mais precioso do que sua imitação adornada de joias, pertencente ao imperador, e acaba salvando a vida do soberano. Hoje, a inteligência artificial é esse rouxinol.
Immanuel Kant sustentava que a humanidade deve sempre ser tratada como um fim em si mesma, nunca apenas como um meio. A inteligência artificial, hoje, é um meio, não um fim.
Os seres humanos definem a inteligência artificial; a inteligência artificial não define os seres humanos. A integração cada vez mais profunda entre seres humanos e máquinas poderá, evidentemente, criar uma nova forma de humanidade.
Nesse contexto, a formulação mais abrangente do documento oficial chinês de 2023, Uma Comunidade Global de Futuro Compartilhado: Propostas e Ações da China, adquire um novo significado. Sua terminologia convida à reflexão sobre aquilo que a humanidade compartilha e sobre como as máquinas inteligentes poderão transformar esse futuro comum.
Esse é o significado central de um esforço conjunto entre China e União Europeia para inaugurar o segundo Renascimento da humanidade: a segunda emancipação humana. Depois de separar a humanidade da teocracia, precisamos agora distinguir a humanidade da inteligência artificial.
No prefácio de sua obra Novissima Sinica, de 1697, Leibniz descreveu a concentração do desenvolvimento intelectual e do refinamento humano nos extremos opostos da Eurásia, na Europa e na China, como “um singular desígnio do destino”. Ele imaginou um futuro no qual essas duas civilizações distantes estenderiam os braços uma em direção à outra, ajudando a conduzir os povos situados entre elas a uma vida melhor.
Como diz o provérbio, não há nada de novo sob o sol. A instalação do primeiro cabo telegráfico transatlântico, em 1858, marcou um passo histórico na ligação permanente entre continentes distantes, aproximando-os da ideia de uma Comunidade Global de Futuro Compartilhado.
Um poema anônimo que celebrava essa conquista começava assim: “Está feito! O mar revolto consente,As nações já não permanecem separadas.”
O poema prosseguia imaginando o cabo envolvendo a Terra como um cinturão de afeto, aproximando povos distantes em um espírito de fraternidade humana. O mundo atravessa transformações profundas, sem precedentes em um século.
À medida que a humanidade ingressa na era da inteligência artificial, uma verdadeira história mundial está se desenrolando, trazendo mudanças geracionais e transformações na própria lógica da civilização humana. A civilização nômade seguia a lógica de que “o que é seu é meu”, observando o presente a partir do próprio presente.
A civilização agrária sustentava que “o que é meu é meu”, observando o presente a partir do passado. A civilização industrial, interligada por cadeias de suprimentos, tornou inseparáveis o que é seu e o que é meu, passando a observar o presente a partir do futuro.
A civilização digital, semelhante ao entrelaçamento quântico, sustenta que “eu me torno quem sou por meio de você”, observando o amanhã a partir do ontem. A civilização ecológica, concebida como uma única família sob o céu, afirma que “eu me torno nós por meio de você”, observando o amanhã a partir do depois de amanhã.
A era da inteligência artificial está forjando uma verdadeira história mundial. Abracemos de braços abertos a nova era de uma Comunidade Global de Futuro Compartilhado.
Wang Yiwei é professor titular da Cátedra Jean Monnet e diretor do Centro de Estudos da União Europeia da Universidade Renmin da China. É também vice-presidente da Academia de Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era.
Brasil 247