A plataforma de tecnologia e coaching BetterUp e o Stanford Social Media Lab identificaram, nos Estados Unidos, que a inteligência artificial substitui o contato humano direto na rotina de grande parte das empresas. O levantamento mostra que a tecnologia ocupa o espaço de colegas na resolução de dúvidas rápidas e até nas conversas de alinhamento diário.
Segundo a psicóloga social Kate Niederhoffer, cientista-chefe e diretora do BetterUp Labs, o foco exclusivo no preparo individual dos funcionários para operar as ferramentas gerou um distanciamento nas equipes. “As empresas têm se concentrado tanto em preparar cada pessoa para a IA que deixaram de enxergar o cenário como um todo”, afirmou a pesquisadora, em tradução livre.
Veja também: Inteligência artificial no trabalho: modelo da LaunchReady.ai define 7 níveis de maturidade profissional Os dados do estudo, divulgados originalmente em 28 de setembro de 2026 pela cientista comportamental Lindsay Kohler, medem a frequência e as motivações que levam os trabalhadores a preferirem sistemas automatizados ao diálogo com parceiros de setor.
Os principais números apurados pela BetterUp sobre o comportamento das equipes são os seguintes: O tamanho exato da amostra, com o número total de entrevistados, e o período de coleta deste levantamento específico sobre o índice de 83% não foram detalhados na divulgação do estudo.
A análise do BetterUp Labs avaliou o efeito das ferramentas automatizadas sobre os três pilares que sustentam equipes de alto desempenho: conhecimento especializado, confiança e coordenação. Os pesquisadores constataram que o uso da inteligência artificial amplia o conhecimento técnico individual dos funcionários, mas o avanço ocorre de forma isolada, sem acompanhamento na construção de vínculo entre os integrantes do grupo, o que gera um custo adicional chamado pelo estudo de taxa de coordenação (coordination tax).
Saiba mais: Treinamento de inteligência artificial da Saint Paul ensina uso de ChatGPT e Manus “Essa confiança não avança no mesmo ritmo da nossa capacidade de ter conhecimento especializado, o que cria uma taxa de coordenação”, disse Niederhoffer.
De acordo com a cientista-chefe, a deterioração no trabalho conjunto tem uma origem direta na escolha diária de evitar o diálogo com o par de equipe. “Quando analisamos o que está por trás dessa queda na coordenação e na confiança, vemos que ela se deve quase exclusivamente a esse comportamento de substituir o contato com um colega humano pela busca de respostas na IA”, declarou.
O levantamento aponta que quase metade dos profissionais entrevistados percebe que os colegas de equipe os procuram com menor frequência desde a adoção das ferramentas de inteligência artificial. Para os pesquisadores, funcionários que já se sentem desconectados ou pouco valorizados recorrem aos sistemas automatizados para reduzir os atritos da comunicação, pois interpretam que a máquina oferece menos julgamento do que outro ser humano.
Ao mesmo tempo, o estudo indica que esse grupo tem maior probabilidade tanto de trocar os pares pela tecnologia quanto de se sentir descartado por eles. A investigação sobre o isolamento nas empresas dá sequência às pesquisas conjuntas conduzidas por Kate Niederhoffer e pelo professor de comunicação Jeff Hancock, diretor fundador do Stanford Social Media Lab, na Universidade Stanford.
Em outubro de 2026, a dupla passou a adotar o termo deslizamento relacional (relation slipping) para descrever como o uso inadequado da inteligência artificial desgasta a colaboração e a confiança dentro das organizações. Antes disso, em setembro de 2025, Niederhoffer e Hancock criaram o conceito de workslop para definir conteúdos gerados por inteligência artificial que aparentam ser bem-feitos, mas não possuem substância prática e transferem o esforço de revisão e interpretação para os colegas que recebem o material.
Naquela etapa da pesquisa, realizada em 2025 com 1.150 trabalhadores em tempo integral nos Estados Unidos, 40% dos entrevistados relataram ter recebido esse tipo de arquivo de baixa qualidade e 53% admitiram tê-lo produzido, o que representa uma perda de produtividade estimada em US$ 9 milhões anuais para grandes organizações a cada grupo de 10 mil funcionários — valor equivalente a um custo invisível de US$ 186 por mês para cada empregado.
Para conter a perda de coordenação entre os setores, a diretora do BetterUp Labs afirma que as empresas precisam redesenhar as rotinas de trabalho e criar incentivos para que os funcionários percebam o impacto real de suas funções no grupo. A recomendação técnica da BetterUp inclui estabelecer diretrizes claras para reinvestir o tempo economizado com a inteligência artificial na construção de relacionamentos e no desenvolvimento de habilidades humanas.
Mixvale