Inteligência americana contradiz Trump sobre alcance de mísseis iranianos e enriquecimento de urânio de República Islâmica

 

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Dois altos funcionários da inteligência dos EUA contradisseram diretamente uma das justificativas do governo do presidente Donald Trump para entrar em guerra com o , reiterando nesta quarta-feira a conclusão da comunidade de inteligência de que o país persa ainda está a anos de desenvolver mísseis capazes de atingir os Estados Unidos, e não tentou enriquecer urânio desde o ataque de junho de 2025.

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Em depoimento perante o Comitê de Inteligência do Senado, Tulsi Gabbard, diretora de inteligência nacional, e John Ratcliffe, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), não quiseram dizer se a comunidade de inteligência havia determinado que o Irã seria capaz de lançar tais mísseis de longo alcance em seis meses.

Gabbard afirmou que Teerã "poderia" combinar tecnologia de seu programa espacial existente com suas capacidades de desenvolvimento de mísseis para "começar a desenvolver" um míssil balístico intercontinental "antes de 2035, caso Teerã tente buscar essa capacidade". Mas, pressionada pelo senador Jon Ossoff, democrata da Geórgia, Gabbard se recusou a fornecer uma avaliação da ameaça que o Irã representa.

— Não é responsabilidade da comunidade de inteligência determinar o que é ou não uma ameaça iminente — disse ela, acrescentando que tais avaliações são de competência exclusiva do presidente.

Aliada de Trump, Gabbard também compartilhou por escrito em uma análise anual de ameaças que o Irã não estava reconstruindo suas capacidades de enriquecimento nuclear destruídas em um ataque conjunto dos EUA e Israel em junho de 2025, contradizendo as justificativas do presidente americano para a guerra iniciada no fim de fevereiro. No entanto, a agente não repetiu a informação ao se dirigir a senadores americanos.

— Como resultado da Operação Martelo da Meia-Noite ("Midnight Hammer", em inglês), o programa nuclear do Irã foi aniquilado. Desde então, não houve esforços para tentar reconstruir sua capacidade de enriquecimento — afirmou Gabbard à Comissão de Inteligência do Senado dos EUA.

Ao ser questionada por um senador democrata sobre por que não repetiu esta conclusão diante das câmeras, Gabbard respondeu que não teve tempo suficiente para ler o relatório completo durante a audiência, embora não tenha negado a validade da análise.

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Gabbard reafirmou a conclusão a que chegou a Agência de Inteligência de Defesa do governo Trump no ano passado, de que levaria uma década para o Irã superar os obstáculos tecnológicos necessários para produzir armas capazes de atingir os Estados Unidos. Da mesma forma, Ratcliffe não apresentou um prazo quando questionado se Teerã teria sido capaz de atacar os EUA em seis meses, concentrando-se, em vez disso, na capacidade do país de atingir alvos na Europa e ameaçar bases e interesses americanos na região.

A diretora de inteligência ressaltou ainda que as agências que ela supervisiona monitoram e trabalham para impedir o desenvolvimento de armas com capacidade nuclear entre os adversários dos EUA.

— A comunidade de inteligência avalia que a Rússia, a China, a Coreia do Norte, o Irã e o Paquistão têm pesquisado e desenvolvido uma série de sistemas de lançamento de mísseis inovadores, avançados ou tradicionais, com ogivas nucleares e convencionais que colocam nosso território ao alcance — disse ela.

Das nações que mencionou, Gabbard afirmou que a China e a Rússia possuem sistemas “capazes de penetrar ou contornar as defesas antimísseis dos EUA”, os mísseis da Coreia do Norte já podem atingir o território americano e os mísseis do Paquistão “potencialmente” também.

O Irã, no entanto, que tem sofrido intensos bombardeios aéreos e navais desde o início dos ataques conjuntos de EUA e Israel em 28 de fevereiro, não foi citado como uma das nações com capacidades bélicas avançadas.

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O senador Tom Cotton, do Arkansas, presidente da comissão, classificou o programa espacial iraniano como uma “fachada frágil” para seu “programa de mísseis intercontinentais” e questionou se as avaliações de analistas independentes, que afirmavam que “o Irã poderia ter um míssil intercontinental funcional capaz de ameaçar os Estados Unidos em apenas seis meses”, eram precisas.

Em resposta, Ratcliffe disse que havia bons motivos para preocupação com o programa de mísseis do Irã, mas não confirmou nenhum prazo. Ele observou que os iranianos estavam “ganhando experiência” no desenvolvimento de mísseis de longo alcance, mas não afirmou que suas capacidades estivessem maduras o suficiente para representar uma ameaça iminente a alvos de longo alcance além dos oceanos Atlântico ou Pacífico.

— Se o Irã tivesse permissão para desenvolver mísseis balísticos de alcance intermediário (IRBM), que atingem 3.000 quilômetros, isso ameaçaria grande parte da Europa — destacou Ratcliffe.

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O diretor da CIA acrescentou que permitir que tal programa cresça sem impedimentos daria ao Irã um caminho para desenvolver mísseis capazes de atingir os Estados Unidos.

— Essa é uma das razões pelas quais a degradação da capacidade de produção de mísseis do Irã, que está ocorrendo agora na Operação Epic Fury, é tão importante para nossa segurança nacional.

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Sem 'ameaça iminente'

Trump afirmou reiteradamente que ordenou o ataque contra o Irã — em colaboração com Israel — devido a uma "ameaça iminente". Em seu discurso sobre o Estado da União no mês passado, o presidente americano declarou que o Irã estava “trabalhando para construir mísseis que em breve atingirão os Estados Unidos da América”.

Após o bombardeio de junho de 2025, o presidente americano declarou que os Estados Unidos haviam destruído completamente as instalações nucleares do Irã. No entanto, desde o início do seu conflito bélico mais recente, sustenta que Teerã estava a poucas semanas de obter uma bomba atômica, uma ideia não compartilhada pela maioria dos observadores e alegada apesar das conversas que estavam em andamento com o regime teocrático sobre um acordo nuclear.

Um assessor de alto escalão de Gabbard — que, em sua época como deputada, liderou a oposição a uma guerra com o Irã — renunciou ao cargo na terça-feira, argumentando que não havia "ameaça iminente" e que Trump foi induzido ao erro por Israel e pela imprensa.

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Gabbard destacou aos senadores que o Irã havia sofrido duros golpes durante os ataques dos últimos dias — incluindo o assassinato do líder supremo Ali Khamenei —, mas que a República Islâmica continuava em operação. A comunidade de inteligência americana "avalia que o regime do Irã permanece intacto, embora consideravelmente enfraquecido devido aos ataques contra sua liderança e suas capacidades militares", declarou.

— Se um regime hostil conseguir sobreviver, é provável que empreenda um esforço de vários anos para reconstruir suas forças militares, seus arsenais de mísseis e suas unidades de veículos aéreos não tripulados — acrescentou.

(Com AFP e NYT)