Integrantes do Centrão se queixam de vídeos que atrelam Master a adversários de Lula e veem atuação do governo
Parlamentares da cúpula do Centrão têm se queixado de vídeos apócrifos, produzidos com inteligência artificial, que associam políticos adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao escândalo do Banco Master. Eles dizem enxergar a atuação do governo por trás da elaboração e disseminação desses vídeos nas redes sociais. A avaliação é que isso poderá tensionar o clima no Congresso, além de gerar ruídos que podem atrapalhar alianças com o PT nas eleições de outubro.
Procurada, via assessoria de imprensa, a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) não retornou. Como o GLOBO mostrou, o Palácio do Planalto está disposto a tentar vincular o caso Master ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados, após governistas alertarem auxiliares de Lula que a oposição passaria a ligar o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao governo petista. Parlamentares da base aliada dizem que o governo não pode ficar na defensiva no caso vínculos da instituição financeira com políticos bolsonaristas.
Quatro cardeais do Centrão dizem que o governo estimula o desgaste dos adversários de Lula na disputa eleitoral sem se preocupar com a relação com esses partidos e alertam para um acirramento da tensão com o Palácio —tanto para a governabilidade no Congresso quanto para a eleição em outubro, na montagem de alianças e palanques, que deverá ser acirrada. Ainda mais num momento em que o entorno de Lula defende ampliar alianças ao centro com partidos que têm integrantes na Esplanada, mirando o apoio ao petista na disputa ou a neutralidade dessas siglas.
Em um desses vídeos que circula entre os políticos, Vorcaro aparece dizendo que o dinheiro investido no banco Master servia para “as campanhas políticas milionárias dos nossos candidatos”, seguido por representações do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), do ex-presidente Jair Bolsonaro, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que será adversário de Lula na disputa, e do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).
O empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro preso nesta quarta-feira pela Polícia Federal, foi um dos principais doadores das campanhas eleitorais de Tarcísio e de Bolsonaro em 2022, ao governo de São Paulo e à Presidência. Esse fato tem sido explorado por petistas para desgastar os opositores.
Em outro filmete, um narrador aparece explicando o que seria o escândalo do Banco Master, colocando “as cartas na mesa”, com imagens de Vorcaro, Bolsonaro, Roberto Campos Neto (ex-presidente do Banco Central), Zettel, Tarcísio, Ibaneis e Flávio. Ao final, aparece esta mensagem: “A verdade é que o Banco Master é Bolso Master”.
O uso do termo "Bolso Master" tem sido usado por governistas. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), um dos vice-líderes do governo na Câmara, por exemplo, fez publicação nas redes usando a expressão. "BOLSOMASTER: Todas as condições para a fraude do Banco Master foram criadas na gestão de Roberto Campos Neto à frente do BC, durante o governo de Jair Bolsonaro. Se alguns setores estão revoltados esperando um grande acordão eu digo a vocês: a determinação do presidente Lula é que tudo seja investigado. A Polícia Federal e a Receita Federal não vão parar!", escreveu, nas redes.
Políticos do Centrão avaliam que esses vídeos renovam desconfiança com o Planalto num momento em que há reclamações no Congresso de que haveria interferência do governo federal nas operações da Polícia Federal que miram esses políticos.
Eles falam ainda que a estratégia de vídeos feitos por inteligência artificial repete fórmula usada no ano passado, num momento em que o Congresso era alvo de críticas de governistas, por avançar com pautas como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem e a dosimetria. Naquele momento, o Planalto estimulava o discurso de “nós contra eles”, que se apoiava na retórica que o governo atuava em prol do povo, enquanto o Congresso atendia aos interesses dos mais ricos. Também ganhou força a defesa do PT e de segmentos do governo pelo que chamaram de “taxação BBB”: que mira taxar bilionários, bets e bancos.
Naquele momento, por exemplo, passou a ganhar força no Congresso a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Secom, para apurar se há uma ação governamental nesses ataques. A comissão, no entanto, não saiu do papel.
Governistas ouvidos pela reportagem negam uso da máquina pública nesses vídeos, dizem que não é possível descobrir a autoria, já que é um processo orgânico, e que eles traduzem sentimento de inconformidade de parte da população com a atuação desses políticos.
