Institutos de previdência de três estados e dois municípios são investigados por aportes de R$ 3,9 bi no Master
As suspeitas sobre aportes bilionários, sem critérios técnicos, de recursos de aposentadorias de servidores públicos no Banco Master já atingem ao menos três estados e dois municípios. Além do Rio, investigações da Polícia Federal miram em aplicações feitas por fundos de previdência do Amapá e do Amazonas e de duas cidades do interior paulista em produtos financeiros ligados ao banco de Daniel Vorcaro. Ao todo, os aportes sob suspeita somam R$ 3,9 bilhões.
Investigadores apuram desde falhas na governança dos investimentos e possíveis pressões políticas para liberar os aportes até suspeitas de pagamento de propina, atuação de intermediários e descumprimento de regras técnicas na aprovação das aplicações.
No Rio, o ex-governador Cláudio Castro (PL) foi alvo de uma operação da Polícia Federal na terça-feira. A ação investiga aportes feitos pelo estado, por meio do Rioprevidência, em letras financeiras do Master e em fundos ligados ao banco. O ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes, preso desde fevereiro, também foi alvo da operação determinada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
A investigação é um desdobramento da Operação Barco de Papel, que identificou aportes considerados suspeitos feitos pelo Rioprevidência em letras financeiras do Master. As operações teriam movimentado cerca de R$ 970 milhões entre outubro de 2023 e julho de 2024, durante a gestão de Deivis, nomeado para a presidência do Rioprevidência por Castro.
A defesa de Castro negou qualquer "relação pessoal indevida" e afirmou que os encontros entre os dois ocorreram em agendas oficiais.
Nesta nova fase da investigação, os policiais apuram ainda aplicações de aproximadamente R$ 2,01 bilhões realizadas, a partir de julho de 2024, em fundos de investimento ligados à mesma instituição financeira. Somadas, as transferências do Rioprevidência teriam alcançado cerca de R$ 3 bilhões.
Em nota, o Rioprevidência afirmou que em dezembro de 2025 resgatou R$ 1,4 bilhão de um dos fundos administrados pelo Master e que estuda medidas para reaver o dinheiro alocado em outros fundos.
Na decisão em que autorizou buscas em endereços de Castro, Mendonça apontou que o relacionamento do ex-governador com o banqueiro Daniel Vorcaro viabilizou o “alinhamento político necessário” para a realização dos aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master. A Polícia Federal afirma ter encontrado conversas no celular de Vorcaro indicando que a liberação dos investimentos dependia de acerto com o ex-chefe do Executivo estadual.
Segundo os investigadores, Castro não mantinha apenas contatos institucionais com Vorcaro, mas um “vínculo pessoal estreito” com o ex-dono do Master. Eles teriam se encontrado com frequência, inclusive em ambientes privados e fora do país, em viagens custeadas pelo ex-banqueiro. Ainda de acordo com a PF, os encontros ocorreram paralelamente aos aportes bilionários do Rioprevidência no Master.
PF apura suspeitas na Amazonprev
No Amazonas, a PF investiga suspeitas de aplicação irregular de R$ 390 milhões da Amazonprev, entidade responsável pela previdência social dos servidores públicos civis do estado. No início de março, a corporação realizou uma operação com sete mandados de busca e apreensão.
Entre os alvos estavam três ex-diretores da Amazonprev. Servidores públicos também foram afastados de suas funções.
Segundo a PF, os recursos “teriam sido aplicados em letras financeiras de instituições privadas em desacordo com normas de governança e regras federais aplicáveis aos investimentos” previdenciários. A polícia também identificou “indícios de irregularidades em procedimentos internos, bem como movimentações financeiras consideradas atípicas”.
Em fevereiro, a PF já havia realizado uma operação para apurar suspeitas de irregularidades na aprovação e execução de investimentos de cerca de R$ 400 milhões realizados pela Amapá Previdência (Amprev), autarquia responsável pela previdência social do estado, em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.
Na investigação, a PF apontou que gestores do fundo ignoraram alertas internos e pressionaram para que o aporte na instituição financeira de Daniel Vorcaro fosse realizado, além de haver risco de destruição de provas.
O diretor-presidente do instituto e coordenador do Comitê de Investimentos, Jocildo Silva Lemos, teria tido papel central na decisão de aplicar recursos no banco, segundo a PF. Ele foi indicado ao cargo pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Em nota na época da operação, Alcolumbre afirmou defender que "tudo seja apurado, devidamente investigado, esclarecido e conduzido com transparência e respeito ao devido processo legal".
Municípios também estão na mira da PF.
No último dia 3 de maio, a PF realizou a operação Off-Balance, que apura supostas irregularidades na aplicação de recursos da previdência dos servidores de Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo. As suspeitas recaem sobre investimentos de R$ 107 milhões feitos pelo Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar em letras financeiras do Banco Master e do Banco Daycoval.
Conforme mostrou reportagem do GLOBO em dezembro, Cajamar foi um dos municípios que investiu recursos do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) no Banco Master antes mesmo de a instituição atender aos critérios previstos em lei para receber valores desse tipo de fonte.
O Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar começou a investir no Master no fim de 2023. Em 25 de outubro daquele ano, o instituto deliberou pela aquisição de até R$ 35 milhões em Letras Financeiras. Em 5 de dezembro, aprovou uma nova aplicação, desta vez de até R$ 25 milhões. Para viabilizar o aporte, foram retirados recursos que estavam aplicados em um fundo da Caixa Econômica Federal. Em março de 2024, Cajamar realizou um novo investimento, de R$ 27 milhões. Outros municípios também fizeram aplicações semelhantes no banco. Outro município do interior paulista, Santo Antônio da Posse, aplicou R$ 13 milhões em letras financeiras do Master, e a PF apura a suspeita de gestão temerária dos recursos.
Segundo investigadores, uma das linhas de apuração busca identificar se houve pressão política, influência de intermediários ou descumprimento de regras técnicas na aprovação das aplicações. A PF também tenta entender se parte das carteiras e ativos vendidos pelo banco apresentava riscos incompatíveis com o perfil conservador exigido para fundos de previdência de servidores públicos. O avanço das investigações ocorre em paralelo à ampliação das frentes abertas no caso Master.
