Instalação que envolve banheiros químicos e um tanque de água causa alvoroço na Bienal de Veneza

 

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Numa tarde recente na Bienal de Veneza, quem entrava num banheiro químico azul brilhante podia urinar pela arte. Do lado de fora da cabine, uma mulher nua estava submersa num enorme tanque de água, respirando por um bocal de mergulho. A urina passa por um tubo, do vaso sanitário até vários sistemas de filtragem, antes de completar o nível da água na câmara de vidro.

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A performer, que ficaria no tanque por pelo menos quatro horas, estava essencialmente vivendo nos dejetos de outras pessoas. E ela tinha muitos doadores. O banheiro faz parte de uma apresentação chamada “Seaworld Venice”, da coreógrafa e encenadora teatral Florentina Holzinger, que é sem dúvida o assunto mais comentado da Bienal deste ano, que abre ao público no sábado e fica em cartaz até 22 de novembro.

Embora tenha sido uma revelação para muitos no mundo da arte, Holzinger já é há muito tempo uma estrela das cenas de vanguarda do teatro e da dança europeias. Ela é conhecida por seus espetáculos grotescos e épicos com artistas nus, que às vezes se submetem a procedimentos de modificação corporal no palco.

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Em Veneza, a exposição de Holzinger se desenrola no austero e modernista pavilhão austríaco, que ela inundou com água. Em uma sala, uma mulher nua gira em um jet ski, criando ondas enquanto os espectadores observam boquiabertos. Em outra, artistas seminus escalam um enorme catavento giratório.

E também há os banheiros.

Constanza Pérez de Lara, 27 anos, colaboradora frequente de Holzinger, avisava quem se dirigia a um dos dois banheiros químicos. "Por favor, não faça o número 2", disse ela: "Entope o sistema". Pérez de Lara então apontava para uma sala com paredes de vidro, repleta de tanques e tubos que se enchiam de um líquido marrom. "Veja o que acontece", disse ela, com um tom sério.

Apesar da reputação refinada do evento, há muito humor escatológico na Bienal deste ano. Em outro espaço, Aline Bouvy, representando Luxemburgo, apresenta “La Merde”, um vídeo bizarro sobre cocô, que mostra um ator vestido como um pedaço gigante de excremento.

Stilbé Schroeder, curadora do pavilhão de Luxemburgo, disse que a obra faz parte de uma história da arte escatológica que remonta aos populares desenhos animados da época da Revolução Francesa. Artistas mais recentes que trabalharam com fezes ou as retrataram, disse Schroeder, incluem o fotógrafo Robert Mapplethorpe e a aclamada dupla de artistas britânicos Gilbert & George.

Cocô é um assunto sobre o qual as crianças conversam livremente, disse Schroeder, embora na idade adulta seja um tabu. “Artistas são pessoas que gostam de usar temas que normalmente nunca são discutidos para provocar debate e emoção”, disse Schroeder. Isso pode ser visto como provocativo, acrescentou ela — “mas provocativo significa instigante”.

Água e desperdício

Mas, às vezes, transgressões podem atrapalhar reflexões mais profundas. Os críticos que avaliam as obras cênicas de Holzinger frequentemente se concentram em suas performances espetaculares, como as freiras de patins na ópera "Sancta", ou a artista que se pendura em ganchos embutidos na pele em "Tanz". Sua obra mais recente, "Um ano sem verão", termina com uma cena sobre cuidados com idosos, na qual artistas usando fraldas parecem sofrer de incontinência, espalhando fezes falsas por todo o palco. Essa cena foi considerada repugnante e gerou muita discussão — mas quando a vi em Berlim no ano passado, me vi pensando mais sobre as indignidades do envelhecimento.

“Seaworld Venice”, instalação da artista Florentina Holzinger na Bienal de Veneza

Matteo de Mayda/The New York Times

Holzinger e sua equipe insistem que há algo profundo por trás da extravagância do "Seaworld Venice". Nora-Swantje Almes, curadora da exposição, afirmou que encher o pavilhão com água destacou o perigo que Veneza enfrenta como uma cidade ameaçada pela elevação do nível do mar, enquanto a performance com o vaso sanitário pode levar alguns visitantes a refletir sobre seu próprio consumo de água e desperdício.

Ao perceber que o projeto havia dado muito trabalho, Almes acrescentou que Holzinger e sua equipe fizeram parceria com uma empresa austríaca de tecnologia ambiental para desenvolver o sistema de tratamento de água e consultaram especialistas para garantir que o pavilhão da Áustria, que data de 1934, não fosse danificado pela água.

Holzinger disse, durante um discurso na quarta-feira, que inicialmente queria criar um pavilhão totalmente submerso, no qual os visitantes teriam que mergulhar. Mas ela desistiu da ideia, contou, depois de nadar nos canais de Veneza e perceber que a água estava muito turva. (Também lhe causou "uma leve irritação na pele", disse.)

Ela falava a bordo de um barco que navegava rumo a uma performance especial na lagoa veneziana, organizado para um seleto grupo de curadores, diretores de museus e jornalistas.

Na manhã de quarta-feira, três barcos com convidados VIP — incluindo Maurizio Cattelan, o artista que certa vez instalou um vaso sanitário de ouro no Museu Guggenheim de Nova York — partiram sob a chuva em direção a uma plataforma flutuante a cerca de um quilômetro e meio da costa. Lá, a equipe de Holzinger havia montado arquibancadas em frente a uma balsa com um guindaste no topo.

Sob uma garoa fina, seguida de um aguaceiro, um grupo de músicos executou uma música de death metal estrondosa, com uma vocalista berrando do guindaste. Então o guindaste se ergueu e um sino dourado emergiu da lagoa, com Holzinger pendurada como o badalo no centro. Ela balançou o corpo de um lado para o outro, e o sino ressoou, forte e profundo.

Quando o espetáculo terminou, a multidão encharcada gritou e aplaudiu, depois voltou para os barcos e seguiu para o pavilhão austríaco para sua inauguração oficial. Eu havia bebido água a manhã toda e estava pronto para dar mais uma contribuição à arte. Mas os banheiros químicos eram agora o lugar mais procurado em Veneza, e a fila estava enorme.

Usei um banheiro em outro lugar. Que desperdício.