O Instagram prepara-se para deixar de ser apenas uma app de vídeos curtos em modo vertical. A plataforma anunciou que está a trabalhar num formato de vídeo longo e horizontal, a que chama Features, e que começa agora a ser testado em pequena escala nos Estados Unidos, além de testes com alguns criadores no Brasil.
O anúncio foi feito por Adam Mosseri, responsável do Instagram, ao lado de Tessa Lyons, vice-presidente de produto, num vídeo de cerca de seis minutos e meio. A novidade tem um alvo evidente: o YouTube.
Mas o caminho até aqui não foi linear. O próprio Mosseri admitiu que esteve contra o vídeo longo na plataforma durante muito tempo, com uma preocupação central: manter o Instagram como um espaço de ligação entre amigos e não apenas de entretenimento passivo.
Segundo o responsável, um vídeo longo tende a gerar menos partilhas e menos interação direta do que Reels, fotografias ou carrosséis. O nome escolhido não é inocente.
Features remete para conteúdos com produção mais próxima do que se vê em televisão ou em plataformas de vídeo a sério, como documentários curtos, especiais de comédia ou episódios de podcast. A ideia, de acordo com Mosseri, é tornar o vídeo curto e o vídeo longo “simbióticos”: um mesmo conteúdo pode existir em versão extensa e ser dividido em fragmentos mais pequenos para circular nos Reels.
O anúncio surge depois de o Instagram ter lançado uma app para televisões no final do ano passado. Essa aplicação começou por ser uma experiência centrada em Reels e um piloto para dispositivos Amazon Fire TV nos Estados Unidos, mas entretanto expandiu-se para Google TV, Samsung TV e Apple TV.
Este ano, a plataforma acrescentou funcionalidades como a possibilidade de ver Stories nessa app. Ou seja, o vídeo horizontal não aparece do nada.
Encaixa numa estratégia mais ampla para levar o Instagram ao ecrã grande da sala, onde o YouTube reina há anos e onde o consumo de vídeo longo faz mais sentido do que num telemóvel em modo retrato. Para já, os Features estão a ser testados nos Estados Unidos e com alguns criadores no Brasil, segundo uma porta-voz do Instagram citada pela imprensa norte-americana.
Não há indicação de datas para um lançamento mais alargado, nem sequer para mercados europeus como Portugal. As fontes disponíveis também não esclarecem como será feita a moderação deste tipo de conteúdos, uma questão relevante numa plataforma que já lida com volumes enormes de vídeo.
Além dos Features, o Instagram está a testar outras funcionalidades ligadas ao vídeo: clips que apontam para um vídeo longo, uma forma de os criadores organizarem uma “série” de Reels e melhorias na descoberta de vídeos em direto. Nenhuma destas novidades tem confirmação de chegada a Portugal.
Para os utilizadores portugueses, o impacto imediato é nulo: nada muda na app que têm instalada. Mas há duas consequências a acompanhar.
A primeira é a app de televisão do Instagram, que já está disponível em Google TV, uma plataforma baseada em Android. Se os Features avançarem, essa app ganha uma razão de existir muito mais forte, sobretudo para quem tem uma smart TV com Android TV ou Google TV e consome vídeo sobretudo em ecrã grande.
A segunda é o efeito no ecossistema de criadores. Se o Instagram passar a acomodar vídeos longos com séries e episódios, aproxima-se do modelo do YouTube e cria uma alternativa a considerar por quem produz podcast ou comédia.
Isso pode traduzir-se em mais tempo passado dentro da app e, por arrasto, em mais pressão sobre os concorrentes diretos. Ainda assim, como nota o The Verge, a plataforma tem sido cautelosa nesta transição.
A informação foi avançada originalmente por The Verge. Vale a pena sublinhar o que Mosseri disse e o que não disse.
A mudança não é apresentada como uma rutura com o passado, mas como uma evolução: o vídeo longo não substitui os Reels, complementa-os. É uma leitura prudente, porque o Instagram construiu o seu sucesso em formatos rápidos e visuais, e a migração para conteúdos mais extensos pode diluir essa identidade.
Ainda assim, a lógica de negócio é clara. O YouTube há muito que ocupa o espaço do vídeo longo, e o Instagram quer uma fatia desse tempo de atenção.
A app de TV foi o primeiro passo. Os Features são o segundo.
Falta saber se os utilizadores estarão dispostos a ver vídeos de vários minutos no Instagram, ou se continuarão a preferir o YouTube para esse tipo de conteúdo. Para já, a resposta só chegará com os testes.
E, para Portugal, sem data nem confirmação, a única certeza é que a app vai continuar a mudar. A acompanhar.
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Android Geek