Insegurança, demora e falta de estratégia: Flávio troca marqueteiro da pré-campanha

 

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) trocou nesta quarta-feira o responsável pelo marketing da sua pré-campanha à Presidência, em meio ao desgaste do caso Master e da relação do parlamentar com Daniel Vorcaro. Com a decisão, deixou o posto Marcelo Lopes, com desempenho criticado por aliados, e entrou o publicitário Eduardo Fischer, responsável por campanhas conhecidas da publicidade brasileira.

O movimento expôs atritos internos envolvendo a atuação de “Marcelão”, amigo pessoal do senador e figura influente no entorno do presidenciável.

Integrantes da campanha afirmaram reservadamente que Marcelão não seria o nome ideal para o momento atual justamente por não ter perfil técnico de marqueteiro político.

A avaliação dessa ala é que a pré-campanha entrou em uma fase mais profissionalizada e de maior exposição pública, exigindo alguém com experiência em gerenciamento de crise, comunicação de massa e campanhas nacionais.

Também havia reclamações internas sobre o fato de Marcelão ter mantido viagens aos Estados Unidos enquanto a crise envolvendo o caso Master dominava o noticiário político no Brasil. Entre aliados, a avaliação reservada é que a ausência acabou reforçando a percepção de falta de coordenação e de comando na resposta inicial dada pela campanha.

Em nota, Marcelão confirmou sua saída da campanha:

"Marcello Lopes esteve reunido com o pré-candidato Flávio Bolsonaro durante toda a tarde desta quarta-feira (19). No encontro, Lopes comunicou que não poderá mais colaborar na pré-campanha à presidência da República. O publicitário, que é amigo pessoal do parlamentar, decidiu, neste momento, focar na própria empresa e priorizar os seus negócios. Lopes volta para os Estados Unidos para cumprir agenda familiar".

Chamado para substituir Marcelão, Eduardo Fischer foi responsável por campanhas conhecidas da publicidade brasileira, entre elas o “revival” do personagem “Baixinho da Kaiser”, que ganhou repercussão nacional nos anos 1990 como garoto-propaganda da cerveja e voltou às telas no início em 2006.

Integrantes do entorno de Flávio avaliam que o senador entrou em modo reativo desde o início da crise envolvendo o caso Master e passou a ser levado “a reboque” do noticiário, demorando para responder a temas que, na visão de aliados, deveriam ter sido tratados antes mesmo de ele aceitar entrar oficialmente na corrida presidencial.

Da mesma forma, membros da campanha também afirmam que a demora na reação política acabou agravando o desgaste do senador, especialmente após a sequência de versões apresentadas sobre sua relação com Vorcaro e o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a campanha presidencial de 2018 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A avaliação de parte da coordenação da pré-campanha é que faltou uma estratégia mais agressiva de comunicação para conter a crise logo nas primeiras horas após a divulgação dos áudios e documentos pelo Intercept Brasil. A leitura interna, nesse sentido, é que Flávio demorou a se posicionar publicamente e acabou transmitindo insegurança política ao mudar versões sobre o alcance de sua relação com Vorcaro. Segundo aliados, um marketeiro mais experiente, nesse momento, é fundamental.

Aliados passaram nos últimos dias a defender uma “profissionalização” maior da comunicação da campanha e começaram a discutir nomes do mercado publicitário capazes de reposicionar a imagem do senador para além do núcleo bolsonarista mais fiel.

O nome de Eduardo Fischer surgiu nesse contexto justamente por ser visto por parte da campanha como alguém capaz de construir comunicação de grande alcance popular e ajudar Flávio a recuperar iniciativa política depois de dias sendo pressionado pelo noticiário.

Segundo a Academia Brasileira de Marketing, Fischer é considerado um dos pioneiros da comunicação integrada no Brasil e esteve por trás de campanhas publicitárias de grande repercussão nacional nas últimas décadas. 

Além da retomada do personagem “Baixinho da Kaiser”, o publicitário participou de campanhas como “Brahma número 1”, “Experimenta Nova Schin” e “Baby Telesp Celular”, além de ter idealizado o movimento “SWU (Starts With You)”. 

O empresário também teve sociedade com o apresentador e empresário Roberto Justus no mercado publicitário, numa parceria que ajudou a consolidar seu nome entre os principais executivos da comunicação brasileira nos anos 1990 e 2000.

Ainda segundo a entidade, Fischer acumula mais de 700 prêmios da publicidade brasileira e internacional ao longo de três décadas de carreira e já foi eleito cinco vezes “Publicitário do Ano” no Brasil. O empresário também presidiu a comissão de comunicação integrada do Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Agências de Publicidade e integrou iniciativas internacionais de promoção da imagem do Brasil no exterior.

Nos bastidores, a defesa pelo reforço da comunicação foi puxada principalmente por integrantes da ala da campanha ligada ao senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político da pré-campanha presidencial.

Embora integrantes do PL sigam defendendo publicamente que Flávio permanece como candidato do partido ao Planalto, nos bastidores cresceu a avaliação de que novas revelações sem relação direta com o filme poderiam tornar a situação política do senador “inviável”.

A crise começou após o Intercept revelar áudios em que Flávio pede apoio financeiro a Vorcaro para ajudar a concluir “Dark Horse”. Na gravação, o senador demonstra preocupação com atrasos em pagamentos ligados ao longa e cita o risco de não conseguir honrar compromissos assumidos com integrantes da equipe do filme, incluindo o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Desde então, novas reportagens passaram a apontar participação formal do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro na estrutura financeira do longa, além de mensagens discutindo formas de envio de recursos aos Estados Unidos.

Na tentativa de conter o desgaste, Flávio passou a defender publicamente a criação de uma CPMI para investigar o Banco Master e anunciou medidas de “prestação de contas” relacionadas ao investimento feito no filme. Mesmo assim, aliados avaliam que a pré-campanha ainda não conseguiu recuperar o controle da narrativa política sobre o caso.