A investigação de um assassinato ocorrido há quatro anos em São Luís, envolvendo dois suspeitos de praticar pistolagem no Maranhão, atinge os entornos do ex-governador – e hoje ministro da Corte – Flávio Dino e do atual chefe do Executivo estadual, Carlos Brandão.
O inquérito da Polícia Civil sobre o caso, obtido pelo GLOBO, aponta uma disputa por propina que envolveu aliados de Felipe Camarão (PT), próximo a Dino e hoje candidato ao governo, e um sobrinho de Brandão, que tenta eleger um sucessor da própria família.
O caso vem causando abalos às duas chapas que contam com aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no estado.
A investigação, que agora está sob relatoria do próprio Dino no STF, trata da morte de João Bosco Sobrinho na entrada do edifício Tech Office, na capital maranhense, em agosto de 2022.
Ele foi assassinado após uma suposta desavença com Gilbson Cutrim Jr., preso e condenado pelo homicídio.
A desavença, segundo as investigações da Polícia Civil do Maranhão, envolvia o rateio de R$ 778 mil destinados a uma empresa que havia prestado serviços à secretaria estadual de Educação.
A dívida do governo com a empresa foi reconhecida em 2019 por Camarão, então secretário, mas só foi paga em 2022, após Brandão remanejar recursos do orçamento estadual com essa finalidade.
À época, Camarão concorria como vice na chapa de Brandão, que também contava com Dino candidato ao Senado.
Dino foi nomeado ministro do STF em 2024 e depois rompeu com Brandão.
O governador do Maranhão, Carlos Brandão (sem partido), ao lado do então senador eleito Flávio Dino (PSB) na Academia Maranhense de Letras em dezembro de 2022
Gilson Teixeira/Divulgação
Gilbson prestou seu primeiro depoimento à polícia no dia 29 de agosto de 2022, dez dias após o crime.
Ele disse que, cerca de dois meses antes, havia feito o seguinte acerto com o dono da empresa: ele atuaria para liberar o pagamento pendente do governo estadual e, se fosse bem-sucedido, receberia propina equivalente a 30%.
O valor, de fato, foi liberado pelo governo no dia 10 de agosto de 2022, um dia após o decreto de Brandão que disponibilizou o recurso.
A ordem de pagamento foi emitida pelo então secretário adjunto Delmar Moreira Matias Jr., aliado de Camarão.
Gilbson admitiu à polícia que contou com a "influência política" de um vereador da capital para liberar esse recurso.
Mas depois, segundo seu depoimento, passou a ser extorquido e ameaçado por Bosco – preposto desse vereador – para lhe repassar sua parte da propina.
Procurado pelo GLOBO nesta quarta-feira, Delmar negou ter recebido "pedido fora do trâmite regular previsto na legislação" para fazer o pagamento em questão.
"Nesse caso, o orçamento foi disponibilizado por meio de decreto do governador e, estando o processo regularmente instruído, o pagamento foi realizado", disse ex-secretário adjunto em nota.
Questionado pela reportagem sobre seu decreto, o governador Carlos Brandão alegou ter feito um reajuste orçamentário "de forma ampla", sem contemplar "nenhuma empresa específica".
Ele atribuiu a responsabilidade pelo pagamento à secretaria de Educação, e disse que o "reconhecimento da dívida" sob a gestão de Camarão "apresenta linguagem bastante impositiva e pessoal".
Telefonema de sobrinho do governador
No dia 19 de agosto de 2022, ainda de acordo com seu depoimento, Gilbson disse que “um amigo em comum” com o vereador lhe telefonou e sugeriu encontrá-los pessoalmente no restaurante Tapioca da Ilha, localizado no térreo do edifício Tech Office.
“Pois tem um cara aqui com ele (Bosco) que está totalmente desequilibrado, falando um monte de besteira e que tu tá correndo perigo”, disse o amigo de Gilbson no telefonema, conforme o inquérito.
Inicialmente, Gilbson não quis identificar o amigo que lhe deu esse aviso, mas a Polícia Civil apontou, com base em relatos de outras testemunhas e câmeras de segurança, que se tratava de Daniel Brandão, sobrinho do governador.
Assassinato de Bosco Sobrinho por Gilbson Cutrim: crime ocorreu no térreo do edifício Tech Offices, em São Luís
Reprodução/Google Maps
Daniel, de acordo com o relato, aguardou a chegada de Gilbson ao restaurante.
Quando os quatro estavam à mesa, ouviu Bosco dizer que "esse vagabundo não paga nem se eu meter a pistola na boca dele", referindo-se a Gilbson e à controvérsia sobre o rateio da verba liberada dias antes pela secretaria de Educação.
Diante das ameaças, Gilbson disse à polícia que Daniel decidiu ir embora, e ele mesmo também quis se retirar, mas acabou sendo seguido por Bosco até o lado de fora do restaurante.
Gilbson argumentou à polícia que foi armado à reunião por temer a abordagem de Bosco, e que atirou no rival, na entrada do prédio, em uma espécie de impulso, após ouvi-lo ameaçar também seu filho.
Alvo de três tiros, um deles na cabeça, Bosco morreu no local.
Assessor de secretário
À época de sua morte, Bosco estava nomeado desde 2021, por Felipe Camarão, como assessor no gabinete do secretário estadual de Educação.
Quando foi nomeado, sua ficha criminal já incluía uma denúncia por homicídio no Piauí -- na qual ele foi reconhecido em júri como autor do crime, mas acabou absolvido em 2017 -- e uma acusação de praticar "coação" contra o então prefeito de São Luís, Edivaldo Holanda Jr, no início de 2020.
Gilbson Cutrim, à esquerda, foi condenado pelo assassinato de Bosco Sobrinho, à direita: ambos têm histórico de pistolagem e passagens pela polícia
Montagem com fotos de Reprodução/Redes sociais
Nesta ocasião, segundo a Justiça do Maranhão, Bosco deixou o então prefeito "temendo por sua integridade física e de sua família" ao bloquear a rua de acesso à sua residência para exigir o pagamento de um contrato do município.
Edivaldo atualmente é candidato a vice-governador na chapa de Orleans Brandão (MDB), outro sobrinho do atual governador Carlos Brandão.
Gilbson também tem histórico de pistolagem, e foi preso em flagrante no início de 2023 após um assalto a uma agência bancária no Maranhão.
Esse episódio foi levado em conta na decisão da Justiça estadual de decretar sua prisão preventiva, em fevereiro de 2023, após torná-lo réu pelo homicídio de Bosco Sobrinho.
Gilbson foi condenado inicialmente pelo tribunal do júri a 13 anos de prisão pelo assassinato de Bosco.
Na segunda instância da Justiça estadual, a pena foi reduzida, em junho de 2025, para nove anos em regime semiaberto.
Àquela altura, porém, Gilbson havia acabado de ser transferido da penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, para o presídio federal de Brasília.
A decisão foi do Superior Tribunal de Justiça (STJ), atendendo a um pedido da Polícia Federal.
Troca de acusações
Dino se tornou relator do caso depois que a defesa de Gilbson alegou ser vítima de pressões para omitir a presença de Daniel Brandão no dia do assassinato e apontou uma suposta má conduta do STJ.
Com base nesse relato, Dino afastou Daniel Brandão da presidência do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA) na segunda-feira, e sugeriu haver indícios de que sua nomeação a esse posto tinha o intuito de abafar investigações.
Após o afastamento do sobrinho do TCE, o governador Carlos Brandão divulgou nota em que citou declarações de apoio de Dino a Camarão e criticou o fato de o ministro, nesse contexto, seguir "responsável por decisões que impactam diretamente o cenário político do Maranhão".
Procurado pelo GLOBO nesta quarta-feira, o ex-secretário e candidato do PT ao governo, Felipe Camarão, disse que Bosco Sobrinho "foi nomeado mediante os requisitos legais previstos" e tinha "cargo de auxiliar técnico" na pasta de Educação.
Camarão também afirmou que, enquanto secretário, não fez nenhum pagamento para a empresa que motivou a disputa entre os pistoleiros.
Questionado sobre o telefonema a Gilbson no dia da morte de Bosco Sobrinho, Daniel Brandão, sobrinho do atual governador, afirmou em nota enviada ao GLOBO que não participou, "direta ou indiretamente, de qualquer negociação" para pagamentos a empresas.
Ele citou ainda outras declarações de Gilbson e de testemunhas que, embora tenham apontado sua presença no dia do homicídio, alegaram que ele "não possuía nenhuma participação ou relação com os fatos".
"Sempre me coloquei à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários.
Inclusive, peticionei espontaneamente nos autos do processo que tramitava no STJ e que, recentemente, a pedido da defesa do condenado, foi para o Supremo Tribunal Federal, com o Ministro Flávio Dino como relator.
Até o momento, contudo, não me foi oportunizado sequer prestar formalmente esses esclarecimentos", disse Daniel em nota, na qual afirmou ainda receber com "estranheza" a divulgação de detalhes das investigações "justamente em período eleitoral".
Procurada, a defesa de Gilbson não retornou os contatos do GLOBO.
