Inovação e planejamento, as chaves do domínio chinês na energia limpa - QTU Questões do Universo

Inovação e planejamento, as chaves do domínio chinês na energia limpa

Fonte: Bandeira da fonte

Quem visita as vastas áreas verdes de Ordos, na região autônoma da Mongólia Interior, no norte da China, não imagina que o parque ecológico criado pela CHN Energy foi erguido no deserto, em uma antiga mina de carvão.
Espécies que há muito tempo não eram vistas voltaram a aparecer por lá.
A empresa ajuda a explicar a liderança chinesa tanto na geração de renováveis quanto na produção de equipamentos para essa indústria com preços altamente competitivos no mercado internacional.
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O grupo, que cresceu e se consolidou na cadeia do carvão, é um dos que mais investem em grandes projetos integrados de energia limpa.
Em junho, sua capacidade total instalada atingiu 400 GW, com a participação de energias renováveis superando 41%.
De acordo com Xin Renye, gerente da divisão de assuntos gerais do Departamento de Gestão da Indústria de Energia Elétrica da CHN Energy, o grupo tem parques eólicos e solares nas regiões norte, nordeste e noroeste da China, complexos integrados de hidrelétrica, solar e eólica no sudoeste, e energia eólica offshore (em alto-mar).
Os projetos visam alinhar oferta e demanda com consumo próximo aos centros geradores.
— A CHN Energy atua de acordo com as características regionais de recursos — diz Xin.
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Segundo o pesquisador brasileiro José Renato Peneluppi Jr., que estudou a transição energética chinesa em sua pesquisa de doutorado pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, a China está na terceira fase de desenvolvimento do setor.

Na primeira, de 1981 a 2000, o foco era na eficiência energética; na década seguinte o foco incluiu segurança de abastecimento, para reduzir a dependência de petróleo e gás; e, desde 2011, houve incorporação explícita da mudança climática e da transição para baixo carbono.
Planos quinquenais
O gigante asiático é o maior emissor mundial de gases de efeito estufa e assumiu o compromisso de alcançar o pico de emissões de carbono até 2030.
A neutralidade de carbono está prometida para 2060.
Por isso, investe como nenhum outro país para fomentar a energia limpa.
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Ao visitar uma mina de carvão da CHN Energy em Ordos, o brasileiro notou que o impacto da transição energética vai além da área ambiental:
— Visitei operações altamente automatizadas, nas quais robótica, inteligência artificial, 5G e big data permitem retirar trabalhadores das áreas de maior risco e, simultaneamente, aumentar produtividade, segurança e eficiência.
A capacidade instalada de energia solar da China ultrapassou, pela primeira vez, a das usinas a carvão
Greg Baker/AFP
Para ele, o diferencial da China está na coordenação de longo prazo entre Estado, mercado, indústria, ciência e infraestrutura.
Os planos quinquenais de Pequim e iniciativas governamentais, diz ele, combinam metas, financiamento, compras públicas, padrões tecnológicos e apoio à formação de cadeias produtivas.
O resultado foi a transformação de setores estratégicos em ecossistemas industriais completos.
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— O Estado não apenas escolheu empresas vencedoras, como também criou demanda, financiou P&D (pesquisa e desenvolvimento), estimulou escala e, ao mesmo tempo, permitiu intensa competição doméstica.
Essa combinação de planejamento, mercado e escala é fundamental para entender a redução de custos.
A Zhunneng Group, subsidiária da CHN Energy, criou o primeiro sistema-padrão chinês para transporte autônomo em minas a céu aberto.
A Shendong Coal implantou o primeiro modelo de mineração não tripulada do país, com ganho de 6,7% na produtividade, e a ferrovia Shuohuang automatizou integralmente as manobras de trens pesados, reduzindo custos.
A argentina Maria Haro Sly, pesquisadora do Arrighi Center for Global Studies da Universidade John Hopkins (EUA), destaca que a China se tornou, simultaneamente, líder em investimentos em energia limpa e em produção de automóveis elétricos:
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— A China é, disparadamente, a maior investidora mundial em energia, com uma fatia de quase um terço do investimento global, praticamente equivalente à soma dos investimentos dos EUA e da União Europeia.
Outro ponto é a capacidade do país de separação, refino e metalurgia de minerais críticos, necessários à transição energética.
Peneluppi ressalta que a vantagem chinesa não está nas reservas, mas na construção, ao longo de décadas, de conhecimento e capacidade industrial.
— Em 2024, a China respondia por cerca de 60% da mineração de terras-raras para ímãs, mas por 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes — compara.
Maria Haro lembra que a Austrália, embora tenha mais presença na exportação de minerais críticos, também vem criando controle sobre elos da cadeia da mineração.
Já o Brasil, embora também seja um grande exportador de commodities, ainda depende mais fortemente de tecnologias, equipamentos e serviços estrangeiros ao longo da cadeia, o que limita sua capacidade de apropriação de valor.
Lição para o Brasil
De acordo com ela, o desafio do Brasil — dono da segunda maior reserva de terras-raras do planeta, mas com apenas 1% de participação global na produção — não é apenas avançar no controle da cadeia de valor, mas ampliar sua participação em projetos tecnológicos de maior complexidade e desenvolver uma estratégia mais sofisticada de negociação de transferência tecnológica.
Peneluppi considera que a China vem investindo em tecnologias capazes de redefinir o próximo ciclo energético, e a principal lição é que energia não deve ser tratada como commodity, mas como política industrial e tecnológica.
— O Brasil precisa combinar renováveis com armazenamento, transmissão, gás, biocombustíveis e outras fontes firmes para criar capacidade compatível com a expansão de data centers, IA, 5G e indústria de base — defende.
Solar supera carvão pela primeira vez
> A capacidade instalada de energia solar na China superou pela primeira vez a de energia gerada por carvão neste ano.
No fim de julho, somou 1,286 bilhão de quilowatts, segundo a Administração Nacional de Energia (NEA).
A de carvão, por sua vez, foi de 1,285 bilhão de quilowatts.
> A NEA destaca que a capacidade instalada de energia solar “seguiu uma tendência constante de rápido crescimento” e que ela desempenha um “papel cada vez mais relevante” na garantia do fornecimento de eletricidade e no impulso à transição energética.
> O país asiático viveu um crescimento explosivo na instalação de fontes de energia limpa.
O pesquisador brasileiro José Renato Peneluppi Jr., que estudou a transição energética chinesa em sua pesquisa de doutorado pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, lembra que a participação do carvão mineral na geração elétrica ficou em 49,7% no primeiro semestre deste ano, abaixo dos 50% pela primeira vez, enquanto as renováveis alcançaram 41,2% da geração, com solar e eólica respondendo por 24,6%.
> O carvão foi a principal fonte de geração de energia da China por décadas e um dos principais responsáveis pelas emissões que contribuem para o aquecimento global.
Ainda responde por boa parte do consumo energético no país.
Porém, desde que a China decidiu ampliar as fontes renováveis, sua parcela na matriz vem caindo.
*Especial para O GLOBO