Informação de que Irã tem 70% de seu arsenal de mísseis 'não é precisa', diz comandante dos EUA sem apresentar cifra própria
Em depoimento à Comissão de Forças Armadas do Senado americano nesta quinta-feira, o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central das Forças Armadas dos EUA (Centcom), que lidera a ofensiva dos Estados Unidos no Oriente Médio, questionou informações publicadas pelo New York Times e pelo Washington Post de que o Irã conserva aproximadamente 70% de seu estoque de mísseis anterior à guerra. Segundo Cooper, a campanha militar do governo do presidente americano, Donald Trump, contra a Marinha e o programa de mísseis balísticos do Irã "degradou drasticamente" a capacidade de Teerã de atingir os EUA ou seus aliados no Golfo Pérsico, mas algumas capacidades residuais ainda existem, afirmou ele em testemunho. Questionado sobre a reportagem do NYT publicada na terça-feira, durante a audiência no Senado, Cooper se recusou a discutir avaliações específicas de inteligência, mas classificou os números citados como “imprecisos”.
Entenda: Contrariando Trump, inteligência dos EUA mostra que Irã mantém cerca de 70% do arsenal de mísseis pré-guerra
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As informações divulgadas pela imprensa americana foram reveladas a partir de avaliações confidenciais da inteligência americana do início deste mês. Os documentos mostram que o Irã recuperou o acesso à maioria de seus locais de mísseis, lançadores e instalações subterrâneas, contrariando as declarações públicas de Trump e outras autoridades dos EUA de que as Forças Armadas iranianas estavam "dizimadas".
Segundo as análises, Teerã ainda mantém cerca de 70% de seus lançadores móveis em operação em todo o país e conserva aproximadamente 70% de seu arsenal de mísseis pré-guerra. Esse arsenal inclui tanto mísseis balísticos, capazes de atingir outros países da região, quanto um suprimento menor de mísseis de cruzeiro, que podem ser usados contra alvos de curto alcance em terra ou no mar.
— Os ataques em larga escala que vimos nos últimos dois anos, o Irã não é mais capaz de executar — disse o almirante Cooper ao Congresso hoje, em seu primeiro depoimento diante dos parlamentares desde o início da guerra.
O chefe do Centcom afirmou à Comissão que as Forças Armadas americanas "cumpriram todos os objetivos militares" da guerra no Irã, apesar das reiteradas declarações de autoridades da Casa Branca e do Pentágono — incluindo o presidente Trump e o secretário de Defesa, Pete Hegseth — de que a principal motivação para a ofensiva conjunta com Israel é impedir que o regime dos aiatolás tenha acesso a armas nucleares, missão que ainda não foi declarada como cumprida por nenhuma das partes.
Apesar das garantias otimistas, Cooper também não abordou em seu depoimento a capacidade iraniana de bloquear o tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passava 20% do suprimento mundial de petróleo e gás.
— Principalmente, reduzimos a capacidade do Irã de projetar poder além de suas fronteiras, ameaçar a região e nossos interesses — acrescentou, fazendo referência à suposta cessação do envio de recursos iranianos e financiamento para aliados do regime na região, incluindo os houthis no Iêmen e o Hezbollah no Líbano.
Segundo a publicação do NYT, há evidências de que o Irã restabeleceu o acesso operacional a 30 dos 33 locais de mísseis que mantém ao longo do estreito. Pessoas com conhecimento das avaliações de inteligência disseram que elas mostram — em graus variados, dependendo do nível de danos sofridos nos diferentes locais — que os iranianos podem usar lançadores móveis localizados dentro das instalações para transportar mísseis para outros pontos. Em alguns casos, eles podem lançar mísseis diretamente de plataformas de lançamento que fazem parte dessas estruturas.
Cooper também procurou dissipar os temores de que a ofensiva militar contra a República Islâmica tivesse esgotado grande parte do estoque global de munições das Forças Armadas americanas. Os Estados Unidos utilizaram milhares de mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance, mísseis Tomahawk e mísseis interceptores Patriot no conflito — recursos que, especialistas garantem, precisarão de anos para serem repostos.
— Tenho todas as munições necessárias tanto para defender nossas forças quanto para conduzir uma ampla gama de contingências — declarou o almirante no Senado.
A guerra obrigou o Pentágono a enviar bombas, mísseis e outros equipamentos com urgência para o Oriente Médio, vindos de comandos na Ásia e na Europa. A redução dos estoques deixou esses comandos regionais menos preparados para enfrentar potenciais adversários como a Rússia e a China. Além disso, forçou os EUA a encontrarem maneiras de aumentar a produção para suprir a escassez, segundo declarações de autoridades do governo Trump e do Congresso.
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Mortes de civis
Cooper ainda disse ao Senado que a destruição de uma escola iraniana, que, segundo autoridades do país, matou 155 pessoas, incluindo 120 crianças, pode ter sido causada por uma bomba americana e foi o único incidente com vítimas civis de que ele tinha conhecimento em uma campanha de mais de 13.600 ataques. Os militares dos EUA ainda não assumiram a responsabilidade pelo ataque à escola feminina em Minab, no sul do Irã, que, segundo o almirante, continua sob investigação.
O depoimento do militar sugeriu que ele acredita que o desempenho das Forças Armadas americanas desde os ataques de 28 de fevereiro havia sido quase perfeito, um fato desmentido por investigações de grupos de direitos humanos e veículos de comunicação. Senadores receberam as afirmações com profundo ceticismo, e um grupo de direitos humanos que investiga baixas civis em guerras as classificou como “ridículas”.
O New York Times confirmou danos em 22 escolas e 17 instalações de saúde. A Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano, principal organização humanitária do país, afirmou em 2 de abril que pelo menos 763 escolas e 316 instalações de saúde foram danificadas ou destruídas na guerra. Além disso, pelo menos 1.700 civis iranianos foram mortos no conflito, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês).
— Como explicar a informação disponível publicamente de que 22 escolas e vários hospitais foram atingidos? — questionou a senadora Kirsten Gillibrand, democrata de Nova York, citando a reportagem do Times.
— Não há como corroborarmos isso — respondeu o almirante. — Nenhum indício disso.
Em seu depoimento, ele descreveu a prevenção de mortes de civis no campo de batalha como um assunto pelo qual é "apaixonado". Mas ele também admitiu que sua equipe não havia investigado nenhum dos incidentes documentados pelo NYT ou por grupos de direitos humanos.
(Com New York Times)
