Inflação cai de novo em agosto, mas El Niño é ameaça - QTU Questões do Universo

Inflação cai de novo em agosto, mas El Niño é ameaça

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A inflação continua caindo, e o IPCA-15 apresentou deflação de 0,4% em agosto, um pouco abaixo das previsões.
O bônus de Itaipu (devolução de saldos da conta de comercialização da energia gerada pela hidrelétrica) derrubou os preços da conta de luz em 6,25% e contribuiu com -0,22 ponto percentual para o resultado no grupo de habitação.
Mesmo sem esse abatimento, porém, haveria deflação, porque a variação do item de maior peso no índice, o de alimentação, continuou negativa (-0,12).
O futuro dos preços tem pela frente o El Niño, que provavelmente elevará os custos de alimentos ou de energia, ou ambos, para cima, colocando mais obstáculos na rota descendente do IPCA e mais dificuldades para a condução da política monetária, em fase de distensão.
Os números do IPCA-15 foram relativamente bons.
Dos nove grupos de produtos e serviços, apenas quatro apresentaram variação positiva.
Mas as duas maiores variações foram de saúde e cuidados pessoais e despesas pessoais (0,40% e 0,66%, respectivamente), nos quais a influência de serviços é pervasiva.
A inflação de serviços tem sido a grande barreira para a queda mais intensa do IPCA e foi de 5,9% em 12 meses encerrados em julho.
O setor acompanha o ritmo de crescimento dos salários, do emprego e da massa salarial, e a inflexão de seus preços depende da velocidade e da intensidade da desaceleração da economia, da qual os primeiros sinais já apareceram.
O índice de difusão geral, porcentagem dos preços que aumentaram em relação ao total dos pesquisados, segue bem comportado: 52%.
O ritmo de queda da inflação tem sido lento, porque o governo estimulou de forma direta e indireta a economia, enfraquecendo o poder da carga de juros reais, a maior em 20 anos.
Uma das formas de avaliar o impacto dos estímulos é pelo comportamento do déficit fiscal estrutural, que elimina eventos não recorrentes e os do ciclo econômico.
Ele foi de 1,4% do PIB nos quatro trimestres encerrados em junho, quando no mesmo período de 2025 atingiu metade disso (0,7% do PIB), segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado (IFI).
O impulso fiscal transmitido à economia foi de 4,52% do PIB, bem maior que os 2,19% do PIB do primeiro trimestre, em uma conta que inclui o trânsito de restos a pagar de um exercício fiscal a outro, e operações de crédito, entre outros, calculada pelo economista Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics (Valor, 27-7).
A liberação de recursos pela via financeira, segundo Marcos Mendes, do Insper, foi de 1,45% do PIB no ano, algo como R$ 190 bilhões.
Os estímulos mantiveram a economia crescendo acima do potencial e a inflação longe da meta, mais sensível a choques de oferta que virão.
O El Niño forte é uma certeza.
Boa parte das estimativas sobre seus impactos tem como base o mesmo fenômeno, de intensidade que se supõe semelhante, ocorrido em 2015-2016.
No questionário pré-Copom, a mediana da resposta de 171 participantes foi de um impacto no IPCA de 0,4 ponto percentual neste ano e de 0,3 ponto percentual no próximo (Valor, 24-8).
Hoje o boletim Focus prevê inflação de 5,02% em 2026 e 4,25% no ano que vem.
Uma parte dos efeitos climáticos já entrou nas projeções, o que indica que, se estiverem certas, o IPCA estoura o teto da meta este ano e corre risco de repetir a performance em 2027.
Mas não há um El Niño igual a outro e esses cálculos estão repletos de incertezas.
As commodities vão subir de preços, e o pior cenário inflacionário é se isso for acompanhado de significativas desvalorizações cambiais, como há dez anos.
Pelo comportamento atual do dólar, é pouco provável que ocorra grande depreciação do real.
O abastecimento de energia e seu preço podem ou não ser muito afetados.
Os grandes reservatórios do país estão nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.
A primeira tende a receber chuvas intensas com o El Niño, e o segundo convive com atraso e irregularidade das precipitações.
Há geral concordância de que no primeiro trimestre de 2028 o impacto do evento climático na inflação já terá se dissipado.
O BC prevê que o IPCA estará então em 3,2%, bem perto da meta, embora analistas privados encarem os cálculos oficiais com ceticismo.
Para além do clima, entretanto, há outros fatores de impacto nos preços.
A redução dos preços dos combustíveis levou o grupo de transportes a uma deflação de 1% em agosto, com redução de 0,2 ponto no IPCA-15 de agosto.
Mas gasolina, diesel e biocombustíveis estão com preços contidos por subsídios, que terão de terminar, quando então será bem provável uma pressão altista.
A consultoria Oxford Economics atribui a esse fator o principal motivo pelo qual a inflação deixará de desacelerar este ano.
Em tese, o BC só terá de agir se os estragos inflacionários do choque do El Niño se espalharem para além dos alimentos na economia, o que, em um país onde a indexação é herança forte, é bem possível.
Até que o El Niño entre em cena, o BC deverá fazer mais uma redução na taxa Selic, para 13,75%.
Se os preços dos alimentos dispararem, o Copom terá que interromper os cortes de juros, a menos que as atividades desacelerem fortemente, um cenário que começou a surgir no horizonte.